Prosperidade e mérito

Por:Yuri Dornelas
Colunas

19

Dec 2017

Todos já ouviram falar sobre meritocracia. Ela é muitas vezes associada às ideias de direita. Mas qual é seu real significado? Ela existe em nossa sociedade ou é uma falácia?

Antes de definirmos o que é meritocracia, precisamos definir o que é mercado e livre mercado. Mercado nada mais é do que pessoas trocando bens e serviços. O mercado não é uma entidade, não age por si só e também não tem vontade própria, é a soma das ações de cada ser humano envolvido em processos de troca. A não ser que alguém viva sem comprar, sem vender ou sem dar nada a ninguém, todos fazem parte do mercado.

Agora precisamos definir a diferença entre atos livres e atos não livres. Agir de forma livre é fazer o que deseja, contanto que ninguém seja fisicamente ferido ou tenha nenhum bem (propriedade) danificado ou roubado. Já atos não livres, ou coercitivos, significam ações feitas sob ameaça de danos ao corpo ou a propriedade, sem concordância de ao menos uma das partes. Sendo assim, livre mercado é o processo de trocas voluntárias, isto é, sem uso de coerção, de bens e serviços entre pessoas.

Sem coerção, ou seja, sem a interferência estatal, o único jeito de uma empresa ou trabalhador autônomo prosperarem é com o lucro. O lucro significa que o produto ofertado é de agrado e desejado pelos consumidores. Por isso que nesse caso não há nenhum problema em pensar de forma egoísta (economicamente falando), pois a única maneira de prosperar em um livre mercado é servindo os consumidores da melhor forma possível.

Se o lucro é o sinal que o bem ou serviço ofertado é desejado pelos consumidores, o prejuízo é o sinal oposto. O prejuízo significa que o produto oferecido não é de nenhuma forma desejada, ou que há pouca demanda por ele. A baixa demanda ocorre porque o bem ou serviço ofertado, da forma como é ofertado (preço, disponibilidade e localização) não é desejado pelas pessoas.

Além das ideias de lucro e prejuízo é importante ter em mente a lei da oferta e da demanda: quanto maior o preço, mais pessoas estão dispostas a ofertarem e menos estão dispostas a comprarem bens e serviços, e o contrário também é válido, ou seja, quanto menor o preço, mais pessoas estão dispostas a comprarem e menos estão dispostas a ofertarem bens e serviços. Esse é um dos motivos do por que as pessoas estão sempre buscando melhorar suas habilidades profissionais, adquirir novos conhecimentos e ganhar experiência, para possuírem uma mão de obra mais escassa e consequentemente mais valorizada e, pela lei da oferta e demanda, aumentarem a probabilidade de receberem um salário melhor.

Com as definições de mercado, livre mercado, lucro, prejuízo e lei da oferta e da demanda, é possível discorrer sobre Meritocracia.

Meritocracia é a ideia de que uma pessoa só conseguiria prosperar economicamente através do esforço e da dedicação. Isso existe em nossa sociedade?

Mercado, como já definido aqui, não reconhece esforço. Ele reconhece uma única palavra: valor. Se alguém se esforçar em algo que as outras pessoas não valorizam, ela não vai obter retorno sobre isso. Se uma pessoa oferece um serviço ou bem que seja valorizado e desejado por outros, então ela obterá retorno financeiro, ela gerará ganhos para si e para outros. Quanto mais valor o trabalhador gera para si ou para seu empregador, mas retorno ele obterá. O mercado então não premia esforço, virtude ou dedicação, ele premia o valor que uma pessoa consegue gerar para outras (apesar de que para conseguir gerar valor, muitas vezes tem de haver esforço e dedicação). Por exemplo, o Neymar. Ele não é necessariamente a pessoa que mais estudou ou acordou mais cedo, que mais se esforçou ou treinou, mas seu trabalho é valorizado por uma série de pessoas, o que gera muito retorno ao seu empregador, no caso, o clube em que joga.

Assim, a meritocracia sob a ótica de ser a recompensa pelo esforço é uma falácia. Ela só seria possível em uma sociedade extremamente hierarquizada, na qual o único modo de ascender na hierarquia seria através de métodos que conseguissem medir perfeitamente o quanto cada um se esforçou, o que não existe. No entanto, se meritocracia for definida como a recompensa pelo valor gerado a sociedade, aí sim, estará correto.


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