O papel do empreendedor na economia

Por:Yuri Dornelas
Colunas

06

Feb 2018

Os empreendedores – não os corporativistas, que compram favores estatais e usufruem da proteção estatal para benefício de seus negócios –desempenham um papel fundamental na economia. Porém, antes de abordamos essa questão especificamente, discorramos sobre alguns processos de mercado.

O único jeito de uma empresa ou trabalhador autônomo prosperarem no mercado é com o lucro, que é sinal de que o produto ofertado é de agrado e desejado pelos consumidores. Já o prejuízo é o sinal oposto e significa que o produto oferecido não é de nenhuma forma desejada, ou que há pouca demanda por ele. A baixa demanda ocorre porque o bem ou serviço ofertado, da forma como é ofertado (preço, disponibilidade e localização) não é desejado pelas pessoas.

Além dos lucros e prejuízos, o mercado se regula através das leis de oferta e demanda[i] – quanto maior o preço, mais pessoas estão dispostas a ofertarem e menos estão dispostas a comprarem, e vice-versa. O que impede alguém de pagar um salário extremamente baixo a um trabalhador? O que faz com que empresas paguem salários altos a alguns trabalhadores? O que impede de um vendedor pôr o preço de um produto nas alturas? Oferta e demanda.

Todo ofertante de um bem ou serviço gostaria de cobrar o maior preço possível por aquilo que oferece, mas quando ele aumenta o preço, menos pessoas estão dispostas a comprarem. Caso ele continue subindo esse preço, chegará a um ponto em que ninguém estará disposto a pagar por esse bem. Isso é oferta e demanda.

Todo empregador gostaria de pagar o menor salário possível a um trabalhador, mas por que ele não consegue? Pois se ele oferecer um salário muito baixo, ninguém estará disposto a trabalhar para ele – ou apenas os piores trabalhadores estarão dispostos. Essa é uma das razões das pessoas estarem sempre buscando melhorar suas habilidades profissionais, adquirir novos conhecimentos e ganhar experiência, porque assim se tornarão uma mão de obra mais escassa e, pela lei da oferta e demanda, aumentam a probabilidade de receberem um salário melhor.

Qual o papel da concorrência no meio disso tudo? Ela é responsável por aumentar a oferta, impedindo, além dos fatores já explicados, que um produtor tenha poder de colocar os preços que quiser sobre sua mercadoria. Ela também é responsável por acelerar o processo de inovações tecnológicas. Na tentativa de aumentarem seus lucros e possuírem uma maior fatia de mercado, as empresas investem em tecnologia, gerando produtos mais baratos e de maior qualidade, beneficiando consumidores e a sociedade em geral.

Para que os mecanismos de lucros, prejuízos, concorrência, oferta e  demanda funcionem,é necessário algo de suma importância: o sistema de preços, que mede o valor de um bem ou serviços em relação aos demais.

O sistema de preços é um transmissor da complexa rede de informações da sociedade, isto é, ele é um sistema que quantifica as mercadorias de acordo com os desejos humanos, condições e acontecimentos, de acordo com as ações e escolhas descentralizadas dos indivíduos. É ele que permite a coordenação das ações dos agentes no mercado. Por exemplo:

– (I) ocorreu um fenômeno natural que destruiu plantações de algum insumo para um produto A; pela lei da oferta e demanda, esse insumo custará mais e, portanto, o produto A ficará mais custoso. O produto A, que é um insumo para B, fica mais caro e também faz com que B aumente seu preço – e assim sucessivamente. No fim de tudo, quando o consumidor for ao mercado para comprar o produto final Z, veria que seu preço aumentou sem nem sequer saber que as plantações que eram insumos para A, que por sua vez era insumo para B, tinham sido devastadas por um fenômeno natural. A informação de que houve um fenômeno natural foi transmitida ao longo da cadeia de produção através do sistema de preço. Ele transmitiu a informação de que o insumo inicial dessa cadeia de produção estava mais escasso.

– (II) A mercadoria de um produtor está vendendo muito, o que significa que as pessoas estão desejando e podendo pagar por ela. O produtor então entende que pode aumentar o preço ou a produção dessa mercadoria para tentar lucrar mais. Suponhamos que ele decida por aumentar o preço exageradamente,fazendo com que muitas pessoas deixem de comprar (oferta e demanda). Como consequência, seus lucros diminuem. Então, ele reajusta o preço novamente, para um valor menor, mas maior que o inicial. Com isso, mais pessoascompram seu produto (oferta e demanda) e seus lucros aumentam. Buscando aumentar seu lucro através de ajustes nos preços, o produtor conseguiu identificar o quanto os consumidores valorizam essa mercadoria, o quanto eles as desejam e possuem condições para adquiri-la. Novamente, informações foram transmitidas pelo sistema de preços.

Além disso, o sistema de preços é extremamente importante para que os ofertantes possam calcular quais serão os seus custos e estimar o futuro valor de mercado dessa produção, avaliando se produzir aquela mercadoria valerá a pena ou se será melhor alocar recursos em outra atividade.

Até aqui, foi explicado que o mercado se regula através dos lucros, dos prejuízos, da concorrência, das leis da oferta e demanda, e que esses mecanismos só funcionam graças a outro mecanismo: o sistema de preços. Ocorre que “mercado” é apenas uma simplificação de todo esse processo complexo de trocas de bens e serviços. O mercado não é uma entidade, ele não age por si só e também não tem vontade própria. Ele é a soma das ações de cada ser humano envolvido em processos de troca. Os preços não se regulam por conta própria, são seres humanos que escolhem o quanto cobrar e o quanto pagar. As inovações não ocorrem sozinhas, são seres humanos que as fazem. Empresas não surgem sozinhas do nada, elas são fruto do trabalho e do planejamento do homem.

Então, dentre todos os participantes do mercado, o empreendedor tem um papel de destaque. Na busca do lucro, ele identifica possíveis demandas da sociedade e abre mão de ganhos presentes em busca de maiores ganhos no futuro. Quando alguém abre uma padaria, por exemplo, é por acreditar que naquela região existe uma demanda por pães e afins. Primeiramente,o empreendedor poupa seu dinheiro durante algum tempo (abre mão de consumo presente) ou faz algum empréstimo (alguém poupa por ele), se planeja, e, na expectativa de obter ganho financeiro para um maior consumo futuro, ele investe em capital e abre seu próprio negócio. Após poupar, planejar, realizar o cálculo dos custos, estimar um preço de venda e investir, a padaria começa a funcionar. O empreendedor só saberá se há uma demanda efetiva, isto é, demanda pela sua mercadoria dada todas as suas características, processo de produção e localização geográfica, quando no fim de um período de tempo ele obter lucro ou prejuízo.

Nesse processo de abrir um próprio negócio, o empreendedor além de suprir possíveis demandas[ii] da sociedade, muito provavelmente empregará pessoas. Ao empregar alguém, ele garante um salário a seu funcionário, que, com isso, tem sua necessidade de consumo presentesuprida. Já o empreendedor abre mão do próprio consumo presente, já que seu ganho é sempre incerto.

Em linhas gerais, o empreendedor é aquele que, procurando o melhor para si, corre vários riscos, poupa, planeja, investe, gera empregos e gera inovações, melhorando a vida dos consumidores, dos trabalhadores, além de sua própria vida. É uma pena que a nossa cultura demonize a figura do empreendedor e o retrate como inimigo dos empregados.Na prática, um não existe sem o outro, e ambos se beneficiam mutuamente dessa relação.

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[i]Pode-se dizer que as expectativas dos agentes também influenciam os preços de mercado. Isso está correto. As expectativas mudam a oferta e a demanda, ela já é uma característica da lei de oferta e demanda. E uma das características das expectativas é em relação a reputação. Se um ofertante tem uma reputação ruim, então isso gera uma expectativa ruim nos consumidores, o que diminui a demanda. Se um consumidor tem uma reputação ruim, como por exemplo de dar calote, isso também gera uma expectativa ruim aos ofertantes, diminuindo a oferta.

[ii]“Possíveis demandas” por que só se saberá se é uma demanda efetiva, isto é, demanda por uma mercadoria dada todas suas características, quando houver ou lucro ou prejuízo após um certo período de tempo.


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