O método praxeológico e sua rejeição

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
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Feb 2018

A década de 1870 é um ponto de inflexão na historiografia econômica, nela a chamada revolução marginalista marca a ruptura da Ciência Econômica com a objetividade do valor. Nesse período três economistas, Carl Menger (1840-1921), Léon Walras (1834-1910) e William Stanley Jevons (1835-1882), de forma independente, descobriram a fundamentação subjetiva do valor com base na utilidade marginal.

Apesar da similaridade das descobertas, o método de estudo da Ciência Econômica (ou epistemologia) era bastante distinto. Enquanto Walras e Jevons partiram do equilíbrio geral e equilíbrio parcial, respectivamente, Menger tinha como ponto de partida para seus estudos das Ciências Sociais a inteira subjetividade da ação humana, utilizando da análise abstrata e lógico-dedutiva na elucidação de leis universalmente aplicáveis. A abordagem de Menger levou na década seguinte ao Methodenstreit, ou debate de métodos, travado por ele contra os positivistas da Escola Historicista Alemã e a posteriori com os Institucionalistas americanos, levando-o a publicar o livro Investigations Intothe Methodofthe Social Sciencesem 1883.

No século seguinte, o desenvolvimento da abordagem mengeriana coube a outro austríaco, Ludwig von Mises (1881-1973). Mises desenvolveu seu método e passou a avaliar a Ciência Econômica como uma ciência a priori, cuja suas teorias têm a capacidade de serem explicadas de forma lógica, não havendo a necessidade de comprovações empíricas como ocorre nas Ciências Naturais.

O cerne da praxeologia, nome designado por Mises para tal método, é também por definição a ação humana. É a análise dos meios escolhidos pelos indivíduos para alcançar determinados fins, não sendo do interesse da mesma estudar os fins determinados por esses indivíduos. Isso porque ainda conforme a praxeologia o indivíduo age de forma proposital, racional, em busca da transição de um estado menos satisfatório para um estado mais satisfatório através de escolhas, não cabendo a um terceiro julgar se esse novo estado almejado pelo indivíduo é mais satisfatório ou não. É, de igual importância, ressaltar, que nem sempre os indivíduos escolhem os melhores meios para alcançar os fins desejados por eles, o que não implica irracionalidade, mas apenas uma escolha errada. Quando um atirador de arco e flecha mira um alvo e não o acerta, ele não tomou uma atitude irracional, ele apenas utilizou os meios errados para alcançar seus objetivos.

Nesse contexto, Mises realiza uma importante distinção da ciência da ação humana, que conforme ele se divide em duas: a primeira é a praxeologia e a segunda é a história. Mises define história como “conjunto e a arrumação sistemática de todos os dados relativos à experiência da ação humana”. História é, portanto, passado e se tratando da Ciência Econômica não pode ser aplicável para o futuro, ou na elaboração de uma teoria. A Ciência Econômica e a boa teoria não são consequência de experiência, da história, mas, como ocorre na matemática, da lógica (lembre-se da lei da oferta e demanda). Portanto, não se pode aplicar a ela o mesmo método epistemológico das ciências naturais. Suas leis não são pertencentes a um determinado tempo e lugar, são elas, na verdade, independentes e universais.

A rejeição do método praxeológico na Ciência Econômica se embasa na dificuldade de simplesmente admitir, que a economia não é um equilíbrio estático e que o fator tempo permite constantes e incessantes mudanças nos fins escolhidos pelos indivíduos e os meios empregados por eles na consecução desse determinado fim, não podendo nessas condições realizar planejamentos para toda uma economia e previsões acerca das condições econômicas futuras. Os economistas modernos e seus robustos modelos econométricos não fazem nada além de usar a história para tentar determinar de forma centralizada e planejada as variáveis econômicas, e esse conceito fatal pode trazer consequências trágicas, como já foram, na tentativa da União Soviética em socializar a economia através de modelos matemáticos de determinação de preços na economia, ou em situações menos radicais na condução centralizada, e errada, da política monetária que ocasionaram as crises de 1929 e 2008.

É importante ressaltar que as críticas realizadas neste texto em relação à utilização da matemática e da econometria nos estudos econômicos remetem-se apenas a fundamentação da teoria econômica e as tentativas de predição na economia. Tais métodos, entretanto, na opinião de quem vos escreve, são essenciais nos estudos de história econômica, nela, os dados estão consolidados e não podem mais serem modificados. Mas, lembrem-se, a própria história mostrou que teorizar a partir dela leva a teorias erradas, como as várias versões da Curva de Phillips.

 

Sobre o Autor:

 

 

 

 

 

Matheus Ben Hur é bacharel em economia pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrando em economia pela Universidade Estadual Paulista. É adepto da Escola Austríaca de Economia.


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