O consumidor é soberano

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
Colunas | Economia

16

Mar 2018

A controversa Lei dos Mercados de Say, o processo de mercado e a soberania do consumidor

A “Lei dos Mercados” do economista francês Jean-Baptiste Say (1767-1832) é alvo recorrente de discussões. De um lado, economistas keynesianos, que interpretam tal lei como sendo “a oferta cria sua própria procura” (falei um pouco dessa visão equivocada aqui), do outro, capitalistas objetivistas seguidores de Ayn Rand (1905-1982).

De acordo com o texto, intitulado “O consumidor não é soberano, e nem deveria ser” e que pode ser lido aqui, a “Lei dos Mercados de Say reconhece que ambos os lados de uma troca voluntária são igualmente importantes, e ambos os lados da troca são consumidores e produtores simultaneamente”. Apesar da constatação óbvia da importância de ambos os lados para a realização de trocas, eles se esquecem de analisar o fator tempo (que é ignorado não apenas por eles, mas por grande parte da teoria econômica), e ele é crucial na produção de bens e serviços. Um automóvel, como utilizado de exemplo no texto, não é produzido de forma instantânea, na verdade, do seu desenho até a chegada na concessionária para venda duram-se meses, além dos altos investimentos durante o processo. Sendo assim, quando há uma decisão por parte de um empresário da produção do automóvel no presente, empresário está antecipando que ao chegar na concessionária para venda depois de alguns meses haverá demanda por este automóvel.

Quando falamos em economia de mercado, as interações nela existentes são consequência de decisões dos agentes econômicos, decisões essas que são suscetíveis a erros, já que os agentes econômicos não são possuidores de um conhecimento perfeito, logo a decisão do agente econômico será sempre incerta e, muitas vezes, dependerá de um conjunto de decisões de diversos outros agentes da economia para a obtenção do êxito. Apesar disso, o erro tem um papel importante no processo de mercado, isso porque as próximas decisões desse agente econômico serão revisadas e os fatores que levaram ao erro, dificilmente, serão novamente cometidos, é o “conjunto revisto de decisões” de Kirzner. A economia é, portanto, um processo de tentativa e erro, e dada à revisão das decisões ela TENDE a um equilíbrio sem nunca alcançá-lo, pois o equilíbrio estaria em constantes mudanças adaptando-se à realidade do mercado. A economia não é um equilíbrio estático e analisá-la puramente dessa forma é um erro.

Ou seja, concluímos que o produtor antecipa a demanda, mas não há nenhuma garantia que essa demanda se efetivará e é por isso que ele deve estar sempre atento ao desejo dos consumidores, pois caso o contrário, ele custeará todo o processo produtivo e incorrerá em perdas, como afirma Say “pode-se com certeza criar uma coisa útil, mas sua utilidade não vale o que custa, e ela não preenche a condição essencial de um produto, que é de, pelo menos, igualar em valor seus custos de produção.”.

O consumidor é soberano, sem que o produto lhe seja útil e ele o valore acima do custo de produção, não há porque produzi-lo. Na prática (ou nos ensinamentos da Administração de Empresas), a soberania do consumidor pode ser demonstrada pelo crescente uso da pesquisa de mercado. Em economia, falar de objetivismo é coisa da década 1870 para trás.

 

Sobre o autor:

Matheus Ben Hur é bacharel em economia pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrando em economia pela Universidade Estadual Paulista. É adepto da Escola Austríaca de Economia.


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