A morte de Marielle Franco

Por:Yuri Dornelas
Colunas

19

Mar 2018

Na última quarta-feira, dia 14 de março, a vereadora Marielle Franco do PSOL foi assassinada com quatro tiros na cabeça após sair de um debate no Rio de Janeiro, o “Jovens Negras Movendo as Estruturas”, promovido pelo seu partido. As 21:30 na Rua Joaquim Paralhes, bandidos em um carro emparelharam ao lado do veículo onde estava a vereadora e dispararam diversas vezes. Junto de Marielle estavam o motorista Anderson Pedro Gomes que também morreu ao ser baleado com três tiros nas costas e a assessora da vereadora, a única sobrevivente do ataque, que foi ferida pelos estilhaços.

Até a data que esse artigo foi escrito as informações que se tinha sobre o crime eram que dois veículos haviam seguido o carro de Marielle por cerca de 4km, os criminosos tinham conhecimento exato da posição das pessoas, ao todo foram realizados 13 disparos, a principal linha de investigação é que o crime foi uma execução e a munição usada foi roubada na sede dos correios na Paraíba e pertence a um lote vendido à Polícia Federal em 2006. Infelizmente, nada se sabe sobre os assassinos e o motivo do crime.

Cartaz feito pelo Disque-denúncia

Quem era Marielle

Nascida em 1979 no complexo das favelas da Maré, uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, Marielle foi à quinta vereadora mais votada do Rio nas eleições de 2016 e a segunda mulher mais votada ao cargo de vereadora em todo o país. Em pouco mais de um ano apresentou cerca de 20 projetos de lei, dos quais dois foram aprovados. As propostas de sua autoria que não chegaram à aprovação tratavam sobre a elaboração de um dossiê sobre a vitimização feminina, a implementação de uma campanha contra o assédio sexual e o apoio ao desenvolvimento cultural do funk.

A vereadora era formada em Sociologia pela PUC-Rio e mestra em Administração Pública pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Defensora dos direitos humanos, trabalhou em organizações da sociedade civil como a Brasil Foundation e o Centro de Ações Solidárias da Maré (Ceasm), coordenou a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e nesse último mês foi nomeada relatora da comissão que acompanharia a intervenção federal na Câmara Municipal do Rio. Era crítica da intervenção federal, tendo dito que temia que a intervenção prejudicasse os mais pobres, moradores das comunidades carentes, já submetidos ao tráfico. Marielle também criticava a falta de uma definição sobre quem iria fiscalizar as ações dos militares e vinha denunciando abusos por parte da Polícia Militar nas comunidades.

As repercussões do crime

A tragédia ganhou repercussão nacional e internacional. Jornais como os americanos “The New York Times” e o “The Washington Post” e o britânico “The Guardian”, dentre outros de países diferentes, publicaram o caso. De acordo com o “HumanRightsWatch” o assassinato relaciona-se com a impunidade existente no Rio de Janeiro e ao sistema de segurança falido do estado. Ainda sobre o ambiente internacional, houve até manifestações em Portugal e Nova York em homenagem a Marielle.

No Brasil, artistas, intelectuais e políticos se manifestaram em torno da morte da vereadora. O deputado estadual do PSOL, Marcelo Freixo, comentou sobre a morte da colega de trabalho: “Não havia qualquer ameaça sobre ela. […] Eu tinha contato diário com a Marielle, ela trabalhou 10 anos na minha equipe, não tinha qualquer ameaça. A irmã dela está aqui com a gente. A gente vai cobrar com rigor, todas as características são características de execução. Evidente que vamos aguardar todas as conclusões da polícia, cabe à polícia fazer a investigação, mas a gente, evidentemente, não vai nesse momento aliviar isso. As características são muito nítidas de execução, a gente quer isso apurado de qualquer maneira apurado o mais rápido possível”. O presidente Michel Temer lamentou o assassinato, disse ser um ato de extrema covardia e que o crime não ficará impune. A assessora que estava com Marielle no carro no momento da tragédia também se pronunciou e publicou em uma rede social “Estou viva. Mas a alma oca. A carne, ainda trêmula, não suporta a dor que serpenteia por dentro, num looping sem fim. Minha amiga, na tentativa de calarem a sua voz, a ampliaram ensurdecedoramente, em milhares de bocas. Para sempre. #MarielleVive”.

Houve vários atos de protesto pelo país em torno do incidente, nos quais os manifestantes pediam justiça e a punição dos responsáveis.

Protesto em Recife contra a morte de Marielle Franco

Protesto em Curitiba

Protesto em Belo Horizonte

Protesto em Vitória

Protesto no Rio de Janeiro

O momento de talvez maior comoção tenha sido durante o enterro das duas vítimas, que ocorreu no dia 15 no Rio de Janeiro. Um ato em frente à Câmara de Vereadores prestou homenagens à vereadora Marielle e ao seu motorista. Os corpos chegaram ao Palácio Pedro Ernesto, na Cinelândia, por volta das 14h30, onde houve muita comoção e aplausos. Muito emocionado, o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL) ajudou a carregar o caixão de Marielle e frases como “Marielle, presente!” e “Luto e Luta” eram ditas pelo multidão.

O deputado estadual Marcelo Freixo (a direita de azul) carregando o caixão de Mairelle Franco na Cinelândia

Violência no Brasil

Marielle e Anderson Pedro Gomes foram mais uma vítima da violência no Brasil e mais especificamente no Rio de Janeiro. Em 2016 o Brasil registou 61.619 mortes violentas, o que dá aproximadamente 7 mortes por hora, superando a violência em países como Índia, Nigéria e Venezuela. No ano de 2015, 4.224 pessoas foram mortas em decorrência de intervenções de policiais civis e militares, dos quais 99,3% eram homens, 81,8% jovens e 76,2% negros. Em 2017, mais de 1000 foram mortos pelas policias do RJ e 134 PMs foram assassinado também no RJ, número que já chega a 27 nesse ano. Os dados sobre segurança no Brasil são preocupantes, em cinco anos matamos mais do que a guerra na Síria.

Além de Marielle, no dia 22 de fevereiro desse ano, o ex-vereador de Niterói, Carlos Magaldi, foi assassinado na porta da casa de seu filho. Somente entre agosto e setembro de 2016 mais de 20 candidatos a vereador e a prefeito foram assassinados pelo Brasil, sendo parte dos mais de 190 assassinatos de políticos e ativistas sociais nos últimos cinco anos no país.

A violência em nossas cidades é um problema de administração e gestão pública. Deveriam ser gastos mais recursos nessa área e principalmente de forma mais eficiente para melhor a situação por agora, e pensar em soluções de longo prazo. Como disse Marielle Franco em seu Twitter pouco tempo antes de ser assassinada “[…] Quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?”.

A tragédia e ideologias

“Liberdade, propriedade e VIDA!”. Toda vida importa e nenhuma vida humana é mais importante que outra[i]. Independentemente do espectro político, gênero, cor e classe social, o que importa é que a vida humana foi tirada e de forma cruel.

Com o caso de Marielle, houve reações de pessoas que por motivos políticos e ideológicos acharam menos importante o ocorrido pelo fato da vítima “defender bandido” ou pelo motivo de várias outras pessoas terem sido mortas no Brasil sem a mesma comoção, como se a comoção pela morte de apenas um indivíduo fosse menos válida. A morte de Marielle receber mais atenção do que várias outras já ocorridas é devido ao seu simbolismo, é por ela ser uma pessoa pública e representar algo, e não há problema nenhum nisso. E também, é melhor haver ao menos uma comoção e indignação do que nenhuma em torno das mortes decorrentes da violência no Brasil

Houve também, durante as manifestações, aqueles que não perderam tempo em politizar a morte da vereadora, dizendo que a vereadora foi morta por ser mulher, negra e do PSOL, sem correlação alguma com o fato de ela ter denunciando abusos da polícia militar e ser relatora da comissão na Câmara Municipal do Rio sobre a intervenção federal. Houve também coro dos manifestantes pelo fim da PM e ofensas verbais a mesma, gritos de “Fora Temer” e “Volta Lula”.

Até agora nada se sabe de conclusivo sobre os assassinos e o motivo do crime. Mas as pessoas já fizeram seus julgamentos, já sabem que foi crime de cunho político, já sabem que a PM foi à responsável, tem até desembargadora do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) que também já sabe que o motivo da morte é porque a vítima estava envolvida com os bandidos do Comando Vermelho. Há quem diz que o crime foi para ferir a direita e a intervenção militar no Rio e também há quem diz que foi feita para ferir a esquerda e os direitos humanos. Baseado em que os que dizem isso chegaram a tal conclusão?

Temos de um lado falsos moralistas fingindo que se importam com a fatalidade ou usando do acontecimento para autopromoção e propaganda política e do outro lado aqueles que em reação a esses últimos, são intolerantes e/ou respondem com ódio.

Considerações Finais

Muitas conclusões precipitadas foram feitas e postas como verdade, muito se acha, muito se julga e pouco se sabe. Deixem a justiça agir antes de sair afirmando coisas.

Se realmente for um crime político, isso representa uma ameaça direta à liberdade de expressão e a nossa tão frágil democracia. Se a culpa do assassinato for da PM, como alguns grupos apontam, isso representaria a fatalidade do autoritarismo estatal e o abuso de poder e, portanto, deveria ser repensado como se dá as ações dos órgãos de segurança estatal, sem por em risco a vida dos agentes dos mesmos.

Por fim, queria deixar registrados meus pêsames àqueles que viam na vereadora a representação de suas ideias e principalmente a família e amigos de Marielle, de Anderson Pedro Gomes e de todas as vítimas da violência. Que a justiça seja feita e os verdadeiros culpados devidamente punidos. E que fique explícito aqui o meu repúdio àqueles que politizam tragédias como a ocorrida.

 

 

[i] Salvo em situações que uma vida põe conscientemente em risco a vida de outros.


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