Keynes estava errado

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
Colunas | Economia

05

Mar 2018

A economia de Keynes: uma crítica austríaca

Apesar de nos dias de hoje o keynesianismo ser considerada uma linha de pensamento econômico heterodoxa, ela ainda se encontra no centro dos debates econômicos, ganhando um destaque ainda maior após a crise econômica de 2008. No Brasil, o debate econômico tornou-se ainda mais intenso, isso devido ao prolongamento da crise no país, que teve seu auge durante as eleições presidenciais de 2014. Dito isto, este artigo tem como objetivo realizar uma análise crítica das principais teses teóricas de John Maynard Keynes (1883-1946) como base na linha de pensamento da Escola Austríaca de Economia.

1 – A tese da não-neutralidade da moeda

A Escola Clássica de economia tinha como uma das teses centrais a neutralidade da moeda, tal neutralidade implicava que mudanças nas quantidades de moeda na economia não afetariam as variáveis reais da economia, ou seja, o aumento da oferta de moeda não levaria a um aumento no nível de investimentos e por consequência não levaria ao crescimento da economia e nem ao aumento da taxa de emprego. Isso ocorreria porque no longo prazo os preços da economia se ajustariam à nova quantidade de moeda disponível e, portanto, políticas de aumento da oferta monetária afetariam apenas o nível de preços da economia.

Já para Keynes, alguns preços da economia são rígidos e dada a lentidão dos seus ajustes e dos efeitos de uma maior liquidez na economia, liquidez essa decorrente do aumento da oferta de moeda, permitiria explorar uma demanda potencial da economia, o que levaria a efeitos positivos na economia impactando no longo prazo, como aumento do nível de investimentos e, por consequência, no crescimento e na taxa de emprego da economia.

Os austríacos discordam das duas teses, para eles a moeda não é neutra, mas não pelos mesmos motivos de Keynes. Segundo a Escola Austríaca de Economia a moeda não é neutra pois quando há o aumento da oferta de moeda ela não entra na economia de forma uniforme para todos os agentes, alguns terão acesso a essa moeda primeiro, geralmente os prestadores de serviços do governo, os credores do governo ou aqueles que tem acesso mais fácil ao crédito bancário. O problema dessa não uniformidade da moeda se dá porque aqueles quem tem acesso primeiro a essa nova quantidade de moeda inserida na economia não sofrerão com os impactos da perda no poder de compra da moeda decorrente do aumento de preços, em compensação os últimos agentes da economia a receberão com um menor poder de compra, ou seja, houve uma redistribuição de renda na economia. O mais grave e nefasto neste processo, é que os primeiros a receberem a nova quantidade de moeda são indivíduos pertencentes a uma classe econômica superior a aqueles que receberão por último. Um aumento na oferta de moeda levaria a uma perversa distribuição de renda dos pobres para os ricos.

2 – O princípio demanda efetiva

O princípio da demanda efetiva keynesiana baseia-se principalmente na Lei de Say, que segundo Keynes se resumia em “a oferta cria sua própria procura”. A Lei de Say, na formulação keynesiana, implicaria que na economia tudo aquilo que fosse produzido seria consumido, o que de acordo com Keynes não se aplicaria a realidade, pois segundo ele haveria a possibilidade de que toda a produção não fosse consumida levando a crise de superprodução, como sua interpretação da crise de 1929.

O erro de Keynes em sua análise está na sua interpretação equivocada da Lei de Say. Na sua exposição quanto ao funcionamento dos mercados, Say nunca disse que tudo aquilo que fosse produzido seria demandado. Na verdade, sua análise baseava-se no reducionismo para elucidar o funcionamento dos mercados, onde ali ele eliminara o meio de troca (a moeda) das transações. Segundo Say, ao demandar qualquer produto o agente deveria antes produzir algo para que a troca fosse realizada, ou seja, se um agente desejasse comprar leite em um mercado, ele deveria produzir ou ter em sua posse algo que seria de interesse do produtor de leite para que a troca se consumasse. Ele explica então, que com a moeda o funcionamento é o mesmo, mas que ela seria um facilitador da troca, ele não mais precisaria ter ou produzir o produto demandado pelo vendedor de leite, bastava que ele encontrasse alguém interessado em seu produto e o trocasse por dinheiro, para que depois pudesse trocar esse dinheiro pelo leite. Ou seja, os pressupostos que sustentam o princípio da demanda efetiva são equivocados, tornando sua análise também equivocada.

3 – O problema do entesouramento

Segundo Keynes, em momentos de crise, os agentes econômicos manteriam em caixa seus saldos monetários, reduzindo o consumo da economia e consequentemente o nível de investimentos da economia aprofundando ainda mais a crise econômica. Keynes não considera em sua teoria do juro que os juros seriam consequência da interação entre a oferta e demanda de fundos emprestáveis, mas sim da oferta e demanda de moeda, ou seja, o aumento da demanda de moeda para fins de entesouramento por parte dos agentes econômicos faria com que a taxa de juros se elevasse desincentivando os investimentos na economia. Isto é, não haveria uma tendência de equilíbrio dos mercados, e caberia ao governo nesse caso intervir para a retomada do equilíbrio.

O problema da tese de Keynes é que não há como os agentes econômicos manterem 100% dos seus saldos monetários entesourados, já que ele teria que consumir o mínimo necessário para a sua sobrevivência, crítica essa realizada até mesmo por keynesianos. Além do mais, uma redução da demanda dos bens e serviços na economia, levariam a uma redução dos preços, que no geral no período pré-recessão estão demasiadamente elevados, a redução dos preços aos seus níveis pré-crise estimularia novamente o consumo e o entesouramento findaria. Deve-se considerar também o motivo pelo qual as pessoas tendem a retirar suas poupanças do sistema financeiro, no ápice das crises os bancos costumam estar bastante alavancados em suas reservas fracionários e, ao mesmo tempo, com forte risco de calotes e atrasos comprometendo a solvência bancária, por que razão as pessoas deveriam confiar seu dinheiro em instituições em dificuldades? Não cabe aos economistas decidirem isso, esse é apenas um meio de defesa que as pessoas utilizam para garantirem suas riquezas.

4 – A taxa de juros

Como dito, para Keynes a taxa de juros da economia decorre da oferta e demanda por moeda. Conforme elucidado por Böhm-Bawerk (1851-1914), a taxa de juros é um fenômeno temporal, ela reflete a preferência temporal dos agentes e não atinge apenas o mercado monetário e sim toda a estrutura produtiva da economia. A preferência temporal implica que os agentes econômicos tendem a preferir consumo presente ao futuro e, para que ele abrisse mão desse consumo presente, dever-se-ia remunerá-lo com maior consumo futuro, a taxa dessa remuneração seria a taxa de juros. Dessa forma, em períodos onde os agentes econômicos têm uma maior preferência temporal a taxa de juros será mais elevada, do contrário, uma menor preferência temporal levaria a uma queda da taxa de juros.

5 – A tese da armadilha da liquidez

Conforme a tese de Keynes, a armadilha da liquidez seria o fenômeno o qual a taxa de investimentos da economia não responderia mais a uma queda de juros, dessa forma a economia precisaria de um “empurrãozinho” que deveria ser dado pelo governo através de políticas anticíclicas de aumento dos gastos do governo, para que os investimentos voltassem a crescer.

Esquecem os keynesianos, que a redução da taxa de juros em que se constataria a “armadilha da liquidez” não foi decorrente de um redução da preferência temporal dos agentes, ou seja, de aumento da poupança real na economia, mas sim da contaminação de toda a economia com excessivas políticas expansionistas principalmente monetárias, que levam a distorção e aumento dos preços, elevando portanto os custos do investimento, a incerteza em relação as condições de oferta e demanda futura que dificultam ainda mais a realização do cálculo econômico por parte dos investidores. Você, keynesiano, investiria nessas condições?

6 – As políticas anticíclicas intervencionistas

Como mostrado anteriormente, são várias as justificativas utilizadas por keynesianos para justificar as intervenções do estado na economia em momentos de crise, sejamos justos com Keynes. Entretanto, foram exatamente as políticas de estímulo à economia que a levaram a crise e insistir na realização de mais políticas desse tipo apenas alonga e agrava ainda mais o ciclo econômico, até que se torne insustentável continuá-las.

Mas não se deve fazer nada em momentos de crise? Claro que deve, há muito o que se fazer. Facilitar o ambiente de negócios através da revogação de leis, impedir interferência nos preços da economia (permitir que eles sejam o mais flexível possível), reduzir o déficit público através do corte de gastos (nunca através do aumento de impostos), reduzir burocracias, privatizar e etc. A crise no início da década de 1920 está ai para provar que funciona.

 

Sobre o autor:

Matheus Ben Hur é bacharel em economia pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrando em economia pela Universidade Estadual Paulista. É adepto da Escola Austríaca de Economia.


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