Inflação e desastres econômicos

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
Colunas | Economia

23

Mar 2018

Inflação: como o significado de uma palavra pode levar a desastres econômicos

A inflação é um termo constante nas nossas vidas, mensalmente os “índices de inflação” são divulgados na televisão, jornais e vários outros meios de comunicação. Geralmente, entende-se por inflação como sendo o aumento generalizado dos preços (é inclusive esta a definição de grande parte dos manuais de economia), mas será se este significado usual está correto?

Os primeiros casos de inflação que se tem conhecimento surgiram no Império Romano (27 a.C – 476 d.C) quando os governantes (imperadores) descobriram o quão lucrativo era misturar metais preciosos de menor valor para a confecção das moedas de ouro e prata (essa prática passou a ser conhecida como senhoriagem). Isso possibilitava que cada vez mais os governos expandissem os seus gastos, e à medida que essa expansão se intensificava, a mistura dos metais era também intensifica visando cobrir os gastos adicionais e cada vez menos ouro e prata compunham as moedas (esse foi um dos motivos que fizeram o Império Romano ruir). Percebendo que as moedas não eram mais puramente compostas por ouro e prata à população passou a comercializar seus bens e serviços por uma maior quantidade de moedas. Chegamos então à verdadeira definição de inflação: a perda do poder de compra da moeda. Perceba, o aumento de preços é consequência da inflação e não a causa. Talvez aqui, isso pareça ser apenas um jogo de palavras, mas não é, atente-se.

Os preços são consequência das relações entre a oferta e a demanda de produtos e serviços, assim, quando há um aumento na oferta de um bem e a demanda se mantém constante, o preço do produto tende a se reduzir. Da mesma forma, se há uma redução da oferta e a demanda se mantém constante, o preço do produto tende a aumentar. O exercício para alterações do lado demanda é parecido, um aumento na demanda levaria a um aumento nos preços e a redução da demanda a uma também redução nos preços.

Explicado o funcionamento dos preços na economia, faça a análise. Quando o governo aumenta a oferta monetária da economia (ou mistura metais baratos em moedas de ouro e prata) o “preço” da moeda em relação aos demais produtos e serviços reduz, isso porque, repare, as relações de oferta e demanda dos demais produtos e serviços da economia se mantiveram a mesma! Isso implica que agora você precisa de mais moeda para comprar a mesma quantidade de produtos e serviços do que precisava antes do aumento da oferta monetária.

Na década de 1980 e 1990 o Brasil passou por grandes problemas econômicos e o mais notório deles, foi a inflação. Visando combatê-la adotou-se vários planos econômicos, no total foram seis planos até que o sétimo, o Plano Real, resolvesse o problema. Durante esses seis primeiros planos, um método de combater a inflação foi quase unânime, em cinco deles tentou-se combater a inflação através do congelamento de preços, o resultado: desabastecimento dos produtos. Observem, os planos combatiam o aumento de preços e não sua causa.

A ideia de congelar preços se pautava, em grande parte, na “inflação inercial”, ou seja, a memória inflacionária das pessoas que reajustavam os preços da economia com base na inflação passada (o mecanismo de defesa das irresponsabilidades fiscais e monetária do governo). Enquanto combatia-se o resultado da inflação (os preços), a verdadeira causa da inflação era cada vez mais estimulada e o governo cada vez mais insistia em cobrir os seus déficits através da expansão monetária. A solução só veio com o Plano Real, quando se atacou os problemas fiscais, monetários e estruturais da economia.

Os experimentos dos economistas de suas ideias esdrúxulas acerca da inflação trouxeram consequências inimagináveis na vida das pessoas que talvez perdurem até os dias de hoje. Ressalto aqui uma fala do economista Gustavo Franco, um dos formuladores do Plano Real, sobre a inflação inercial: “esse negócio de inércia é bobagem, é uma espécie de panaceia de economista de segunda categoria”. A esses economistas, nunca é tarde para pedir desculpas.

 

Sobre o autor:

Matheus Ben Hur é bacharel em economia pela Universidade Estadual de Montes Claros e mestrando em economia pela Universidade Estadual Paulista. É adepto da Escola Austríaca de Economia.


Comente com o Facebook

Compartilhe:

contato@ilmg.org.br