Como me tornei um liberal fundamentalista

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
Colunas

09

Nov 2016

Como me tornei um liberal fundamentalista

Depois da reeleição de Dilma Rousseff em 2014, muita gente buscou respostas para a seguinte pergunta: é assim mesmo que funciona? Uma pessoa destrói a economia de um país continental, engana 50 milhões de brasileiros que, por sua vez, obrigam os outros 150 milhões a sofrerem as consequências… e é isso? Não tem outra forma de organizar a sociedade?

A partir de 2014, muitas pessoas, assim como eu, começaram a descobrir que esta outra forma existe: o liberalismo, um sistema doutrinário que se caracteriza pela sua atitude de abertura e tolerância a vários níveis. De acordo com o liberalismo, é imoral iniciar agressões contra pessoas pacíficas, e portanto deve-se prezar pelo respeito à liberdade cívica, econômica e da consciência dos cidadãos,. Até entender que uma sociedade liberal é a única moralmente aceitável, decorreram-se dois anos. Como muitos, em 2014 eu também achava democracia uma palavra bonita, achava normal pagar impostos, achava razoável pessoas votarem para escolher quem vai gerenciar a vida pessoal e financeira delas mesmas e das outras.

Achava.

Plotei no diagrama de Nolan a transformação que aconteceu comigo desde 2014:

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Um gradiente descendente no espaço de visões políticas descrito pelo Diagrama de Nolan. A função de otimização buscou otimizar a coerência lógica, ética e moral.

 

Durante as eleições de 2014, um entendimento mínimo da realidade apontava para o óbvio: o Estado brasileiro estava gigante demais, intervindo demais, tributando demais, e reeleger Dilma Rousseff aprofundaria ainda mais estas políticas.

Desde 2014, muitas pessoas que eu conheço — mesmo as mais socialistas — migraram, em intensidades diferentes, para a direita no diagrama de Nolan. Isto é, perceberam que o Estado brasileiro exagerou no controle e intervenção das trocas voluntárias e de aspectos da vida privada dos cidadãos, e que isso estava diretamente ligado à péssima situação econômica do País.

Comecei a ler mais sobre economia e descobri que, como regra geral, quanto mais livre economicamente uma região, mais próspera ela tende a ser. E entendi porque o Brasil sempre tomou um caminho muito mais voltado para políticas socialistas, vem sempre ocupando baixas posições no ranking que mede o grau de liberdade econômica entre países (hoje a 122° dentre 154 nações):

Quando adolescente, eu achava que um país era capitalista se nele existisse dinheiro circulando. 20 anos depois, o óbvio: o Brasil é um país de economia de mercado, integrando o grupo dos países que menos permite trocas voluntárias entre seus cidadãos. (http://www.heritage.org/index/ranking)

liberdade-economica

Quando adolescente, eu achava que um país era capitalista se existisse dinheiro circulando. 20 anos depois, o óbvio: o Brasil é uma economia de mercado, integrando o grupo dos países que menos permite trocas voluntárias entre seus cidadãos. (http://www.heritage.org/index/ranking)

Como esperado, as pessoas migram dos países menos capitalistas para o mais capitalistas:

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Como esperado, as pessoas migram dos países menos capitalistas para o mais capitalistas: http://liberalismoeconomico.org/o-liberalismo-economico-prejudica-os-mais-pobres-heritage-2014/. Os países mais capitalistas do mundo são aqueles em que a gente gostaria de morar, e para onde as pessoas se mudam. Será que um dia o capitalismo vai chegar no Brasil?

 

Naquele ano eu ainda não entendia bem o que era capitalismo. Hoje, sei que é simplesmente a filosofia que diz que você é dono do seu trabalho e você pode trocar o resultado dele com o resultado do trabalho de outras pessoas, caso elas concordem. E é só isso.

No meio de 2015, então, eu já tinha consolidado meu argumento utilitarista pró-capitalismo: os lugares mais prósperos são aqueles em que as pessoas são mais livres para produzir riquezas.

“Correlação não implica necessariamente causa”, você pode e deve se questionar; mas as evidências de que liberdade econômica causa prosperidade são colossais.

Por volta de 2015, eu defendia o modelo de sociedade em que existe um governo central que provê o mínimo para que as pessoas sejam livres para produzir riqueza e serem felizes: justiça e segurança. Parece bem razoável, não é mesmo? E foi neste ano que o Partido Novo e o Partido Social Liberal emergiram como representantes do liberalismo, o que não deixa de ser um marco em um País cujo espectro político são 50 tons de vermelho. Em 2015 eu comprei uma camiseta do Partido Novo.

Bom, então o meu processo de transformação ideológica meio que podia parar por aí, certo?

O fato é que o excesso de governo no Brasil destruiu a economia, e a muita gente ainda não havia percebido isso. O jeito então era tentar contar isso para mais e mais pessoas e tentar mudar o rumo do Brasil via eleições. Se virássemos liberais amanhã, daqui a 20 anos seríamos prósperos como a Austrália e quadruplicaríamos a renda per capita. Nada mal. Se não ocorresse assim, então não teríamos conseguido convencer a maioria e, na democracia, a maioria manda. Então a mim restaria lamentar e aceitar.

Em diferentes graus, muita gente chegou até aqui. Eu continuei:
voluntarianismo

 

Veja se concorda com a seguinte afirmação: Não devemos iniciar uma agressão contra não-agressores. Se você concorda, bem-vindo, você é liberal. De acordo com a filosofia liberal, as pessoas são donas do seu próprio corpo e responsáveis por suas ações; portanto, elas não podem iniciar agressão contra pessoas pacíficas. Resta a elas, então, cooperarem umas com as outras de modo voluntário, buscando maximizar sua felicidade. Você é dono de você; o que você faz é uma decorrência de sua ação, portanto, se você constrói uma casa com seu trabalho, ela é sua.

Quem viola este princípio? O Estado.

Imagine que eu te diga que há pessoas que confiscam seu salário, decidem se você pode consumir sal, roubam cobertores de pobres, cobram aluguel de uma casa que já é sua, extorquem sua família e decidem quanto do seu trabalho você tem que dar pra eles todo mês. Se você é minimamente são, você vai achar isso inaceitável. “Que horror! Onde está essa gangue criminosa?”, você irá perguntar. Bom, ela não se esconde. Tem até uma sede. No Brasil ela é o Palácio do Planalto.

Para a maioria das pessoas, roubar é inaceitável, mas se a pessoa disser “sou do governo”, magicamente isso se torna algo natural. A forma mais fácil de perceber o quanto o Estado é imoral é pensar o que as pessoas achariam de uma certa ação do Estado caso não fosse ele o autor desta ação. Suponha fque você chegue em uma casa e cobre aluguel do dono da casa, e ameace a pessoa de violência caso ele não pague. Loucura, não é? Mas o Estado faz isso — é o que chamamos de IPTU.

Comecei a perceber que havia algo errado em relação a existência do Estado quando notei isso: certo e errado não pode ser algo tão frágil que “se 25% das pessoas concordam comigo então é moral e certo, se não concordam, então eu serei preso se fizer isso”. Usei 25% porque é a fração de brasileiros que elegeram o governo atual. Pode notar que se você fizer algo que o Estado faz, por exemplo, cobrar impostos, você será preso. Daí que pensei: deve ter alguma filosofia moral mais sólida, e realmente tinha — o liberalismo.

Aproveitando que estamos falando de quantidade de pessoas, na última fase da minha conversão ao ateísmo politico, veio a aversão à deusa Democracia. Que sistema é este em que maiorias podem mandar na vida das minorias? Se há um grupo formado por 10 pessoas, caso elas conduzam uma votação e 7 decidam que vão tomar o dinheiro das outras 3 (ou seja, escravizá-las pelo tempo que elas levaram para ganhar este dinheiro), isso está: errado. Se você é “democrático”, isso significa que você aceita o processo em que maiorias votam e decidem como deve viver a minoria. Bom, se o Congresso Nacional votar amanhã que todos os negros devem ser executados, você vai discordar da decisão, mas terá que aceitar o processo que a produziu, que foi perfeitamente democrático.

Você percebe que democracia é algo ilegítimo quando se pergunta: se eu não tenho o direito de cobrar impostos de você e nem de te proibir de andar de Uber ou de ser gay, como que eu posso votar e dar esse direito para um político? Eu acabei de dar para alguém algo que eu não tenho.

Uma lacuna de entendimento que eu tinha e foi preenchida recentemente foi: se o Estado é não deve ter tanto poder sobre nossas vidas, por que 99% das pessoas gostam, aceitam e apoiam o Estado?

Bom, um motivo é que a maioria tem a ilusão de que é beneficiada pelo Estado e tem a sensação de que ele está roubando mais os outros do que dela. Mas uma observação fundamental a se fazer é: o Estado monopoliza o ensino nas escolas. No Brasil, o MEC decide o que você vai aprender e principalmente o que você não vai aprender. É o Estado quem treina os professores que vão te ensinar. Então, todos nós fomos treinados por anos por uma escola cujos professores foram treinados pelo Estado a nos ensinar um currículo definido pelo Estado que nos ensina como funciona o Estado. Existe alguma possibilidade de você achar estranho existir o Estado? Nenhuma.

Existe alguma chance de críticos do Estado como Mises, Hoppe, Rothbard, Friedman e Hayek serem ensinados nas escolas? Nenhuma. Aos 30 anos de idade, eu jamais tinha sequer ouvido falar nesses caras. Quantas escolas ensinaram os trabalhos acadêmicos de Mises que mostram que o socialismo é impossível?

Imagine um estudante que foi pra escola aos 5 anos e depois cursou Humanas. Este ser humano foi treinado por 20 anos a amar o Estado. Imagina se você diz pra ele que o Estado é imoral e ilegítimo. Ele vai achar você completamente louco. É como tentar explicar para alguém que estudou em uma escola controlada pelo ISIS que o ISIS é uma organização terrorista que faz o mal.

O condicionamento das pessoas a obedecerem políticos é tão grande, que, se você diz que é contra a democracia (um sistema de agressão que permite que maiorias dêem ordens e comandem a vida das minorias), você vai receber um olhar torto de volta. Vão pensar que você quer a ditadura; sequer passa pela cabeça delas que ser livre é uma opção.

E é por isso que entendo muito bem que as pessoas precisam de um tempo para digerir as ideias de liberdade, pois elas vão de encontro à formação que elas receberam. Me lembro de quando ouvi a expressão “imposto é roubo” pela primeira vez, em 2014, durante as eleições presidenciais. E lembro muito bem da minha reação: “Eita, que pessoal maluco e radical. Como assim, gente? Claro que imposto não é roubo; roubo é outra coisa”. Sabe quanto tempo demorou para eu assimilar que imposto é literalmente roubo, isto é, expropriação da propriedade de alguém sob ameaça de violência? Dois anos!

Dois anos digerindo uma derivação lógica trivial: roubar é pegar algo de alguém à força sem consentimento, o Estado pega suas coisas à força sem consentimento, portanto, ele te rouba. Ok, reconheço que meu raciocínio não é muito rápido, mas se você aceita uma justificativa, releia o parágrafo sobre Estado e ensino.

“Ah, mas ele te rouba para fazer o bem para os pobres”. Dois pontos a comentar aqui. Vamos começar concedendo que realmente o Estado tirasse dos
ricos para dar pros pobres. Ainda assim seria errado. Ricos também são seres humanos. E se o rico não pertence ao governo, isto é, se ele não tem o “direito” (sic) de mandar boletos para a casa dos outros sem que eles concordem, ele é rico porque fez algo que as pessoas gostaram tanto que quiseram voluntariamente dar dinheiro pra ele. Tudo correto e moral. O rico não deve nada à sociedade.

E mesmo não devendo nada a ninguém, como ele não é um Estado, o único jeito de ele ganhar dinheiro é fazendo algo de útil pelas outras pessoas. Este é o ponto que o socialista jamais vai entender, imagino. O dono da Ferrari gerou um bem pra todo mundo: pra ele e pras pessoas pobres que vão trocar o pneu da Ferrari, lavar a Ferrari, colocar gasolina na Ferrari. Ao contrário do que fomos condicionados a acreditar, a Ferrari não existir não tornaria nenhum pobre menos pobre; pelo contrário. É exatamente a vontade das pessoas de ter coisas que elas queiram ter é que faz com que elas, egoisticamente, produzam algo e ofereçam para as outras pessoas. É essa vontade egoísta que trouxe a humanidade até aqui; não foram políticos, de saber e bondade superiores.

O segundo ponto é que o Estado não ajuda os pobres. Universidade estatal, INSS, FGTS, BNDES, Lei Rouanet, Copa do Mundo, Olimpíadas, funcionalismo público com altos salários… A direção do fluxo do dinheiro que passa pelo Estado é predominantemente dos pobres pros ricos, que são quem têm mais condições de parasitar e influenciar o Estado.

Sei que fui altamente superficial em muito dos pontos que trouxe aqui, mas meu objetivo neste artigo é simplesmente descrever o processo pelo qual passei: um dia eu também fui estatista. Hoje, aos 33 anos, eu sei que estive errado por 90% do meu tempo de vida sobre o entendimento do que é o Estado.

Uma crítica que frequentemente recebo é que tenho uma posição radical. E é verdade! Bom, agora que sou radical, aprendi algumas coisas sobre posições radicais. A primeira é que uma posição radical tende a ter uma alta coerência e consistência lógica: o radical é aquele que defende um conjunto de princípios e os aplica indiscriminadamente, evitando abrir mão delas por conveniências conjunturais. Veja, por exemplo, os ambientalistas que se mudaram e vivem na floresta amazônica, sem apoio do governo nem de ONGs. Eles não abrem exceção para que derruba uma árvore. .Se o princ[ipio é preservar a floresta, é apenas essa condição que eles seguem. Mesmo que a pessoa que está desmatando não seja uma grande corporação, mas uma pessoa comum atrás do seu sustento e de sua família. Oambientalista que não é radical é aquele que seleciona quais árvores vai preservar e quais não é conveniente derrubar. O radical tem a virtude de ser sempre coerente com suas crenças.

Ser radical só quer dizer que você aplica e segue princípios fundamentais, sempre. Portanto, não há relação entre posição radical e posição correta ou moral. Existe uma crença implícita de que uma posição extremista é intrinsecamente ruim; de que as melhores posições são sempre as posições “equilibradas” e estão em algum ponto intermediário no espectro de posições. Porém, você provavelmente é radicalmente contra o estupro de crianças.

A posição radical, muitas vezes, é a posição correta e moral.

 

 

Colunista do dia:
Pedro Henrique Calais Guerra
Doutor em Ciência da Computação
Engenheiro de Software


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