Você é massa de manobra?

Você é um indivíduo que é massa de manobra?

Por:Pedro Henrique
Colunas

04

Jul 2017

Você é massa de manobra?

Constantemente nós ouvimos a máxima: “aqueles são massa de manobra”. No contexto político que vivemos, nem sempre é fácil rastrear os jargões e o que eles significam. Ao contrário de termos como: “eurofobia” e “gordofobia”, “massa de manobra” parece possuir uma consistência que ultrapassa a novafala marxista.

“Massa de manobra”, em suma, significa aquelas pessoas que se deixam levar por uma onda filosófica (ou pseudofilosófica) sem se dar ao trabalho de investigar as origens do movimento, agindo por impulso revolucionário e alienando sua própria consciência em favor de seus mestres e/ou de seu deus (o movimento em si). Nessa perspectiva, geralmente os mais atingidos são jovens que alinham duas características primordiais para os aliciadores políticos: o ímpeto e sede de revolução; a facilidade de convencimento através de retóricas adornadas com as mais pueris chancelas de autoridade e cientificidade. O jovem, quase que por natureza, quer revolucionar algo. Ele é um eterno descontente com a moral que o cerceia de certos atos. Esse jovem só necessitará de uma justificativa mais ou menos intelectualizada, numa manta pseudocientífica, para se agarrar a nova verdade e transformar tais teorias em dogmas irrefutáveis e dignos, até mesmo, de seu autosacrifício.

Esta situação não ocorre somente na juventude, haja vista os vovôs dos sindicatos e os dinossauros do PCO. Entretanto, geralmente os jovens se tornam presas fáceis, pois estão naturalmente numa fase de formação de consciência e de tomadas de decisões que os nortearão na vida adulta e até mesmo na velhice. Sendo assim, os anos universitários se localizam no fim de um ciclo, isto é: da adolescência para a vida adulta. Adolescência essa onde o jovem geralmente sai de uma condição educacional a partir de uma moral mais tradicional de cunho familiar e começa a ter contato com pontos de vistas, retóricas e discursos variados daqueles que teve em seu lar. O que, em si, não é bom e nem mau, pois a formação do caráter de alguém passa por muitas tomadas de decisão e de autorreflexões que vão muito além de matrizes educacionais, tribos, e preferências políticas; trata-se, antes de tudo, de uma sumarização de todos os aspectos que envolvem a realidade social dos indivíduos.

No entanto, se a universidade e a escola secundarista agem de uma forma doutrinadora, criando uma mentalidade servil nas pessoas, elas interrompem o último processo de formação de caráter e de autorreflexão individual. A autorreflexão necessita da liberdade de pensamento e de uma autonomia para escolhas que somente os indivíduos soberanos sobre si mesmos e com conhecimentos amplos e não uniformizados podem adquirir. Isso não quer dizer que a coletividade não exerça influência, mas é o indivíduo livre quem deve escolher se adequar ou não a uma coletividade, sem que existam pressões ou missões impostas por terceiros. Como eu já afirmei em outras oportunidades o caráter moral que guiará as pessoas se forma através de perspectivas sociais, afinal, não estamos sozinhos no planeta. Entretanto, as escolhas e decisões sempre são formadas através do indivíduo, tomando ele as precauções e responsabilidade por possíveis processos por sua má conduta social. É dessa maneira, por exemplo, que formamos nossa liberdade de consciência, nossa perspectiva diversa de outras pessoas. Dessa forma que arrogamos juridicamente que os indivíduos são responsáveis por suas condutas.

Quando essa perspectiva se inverte temos o fenômeno de massa — largamente debatido pelo filósofo espanhol José Ortega Y Gasset (1883-1955). Tal fenômeno se caracteriza, principalmente, pela supressão do indivíduo frente à agremiação de pessoas massificada em determinados grupos, que agem, pensam e se expressam somente através de coletividades. Até mesmo quando sozinhos eles agem como se estivessem em bando, como se estivessem em comícios ou passeatas, ainda que sós num ambiente quaisquer.

O que ocorre, em suma, é a inversão da realidade enquanto tal: ao invés do indivíduo escolher — ou não — um grupo para adentrar, sendo o protagonista da sua escolha de agremiar-se ao coletivo, o que ocorre é que o grupo abrange indistintamente o indivíduo em seu corpo sem que a ele seja dado um prévio aviso ou poder de escolha. É dada somente a informação — consciente ou inconsciente — que ou ele adentra ao grupo, ou é fascista, preconceituoso, conservador, etc. A mulher ou é feminista ou irracional.

Nesse aspecto podemos encontrar algumas inversões do protagonismo de influência na modernidade, seja ele na filosofia, no direito ou na antropologia. Por exemplo: ao invés de Direito Natural (DN) > Direito Positivo (DP), temos na modernidade o DP > DN. Ao invés de Indivíduos protagonizando a Coletividade (Estado), temos o Estado coletivo antecedendo os indivíduos em suas escolhas. Ao invés da autorreflexão e depois a aceitação livre da mentalidade grupal, temos a mentalidade grupal doutrinando as reflexões individuais.

Poderão advertir que não é obrigatório participar de uma coletividade, o que é extremamente mentiroso. Não é necessário ser muito sincero para admitir que ser conservador na USP, no curso de filosofia, por exemplo, é adotar a chancela de mártir.

Não se verá em um diretório feminista, uma mulher opositora à formatação do movimento feminista atual; essa nunca terá voz nos diretórios “feministas democráticos”. Thais Azevedo, uma jovem crítica do feminismo, foi palestrar na UFG, e o que aconteceu? Foi expulsa e agredida pelas “feministas democráticas”. A coletividade sobrepujando a liberdade individual e constitucional de livre expressão dentro de uma universidade. A exata psicologia de massa mostrada por tantos intelectuais de porte, como o escritor britânico George Orwell (1903-1950) em 1984, o escritor húngaro Arthur Koestler (1905-1983) em O zero e o infinito, e o sociólogo francês Gustave Le Bom (1841-1931) em Psicologia das multidões, o que ele chamara de “era das multidões”. Abaixo, alguns tópicos para que vocês se identifiquem com alguns “sintomas” de alienação e massificação:

 

Anulação do indivíduo

O indivíduo passa a não ter mais voz frente à coletividade e tantos grupos de mentalidade uniformizada. Aquele que se posta com reflexões ou convicções diferentes é visto como agressor da sociedade como um todo. “Sociedade” e “democracia”, termos que são encaixotados e identificados somente para as ideias dos grupos que o arrogam unanimemente.

Ou seja, somente os marxistas são democráticos. Liberais e conservadores, somente por suas opiniões e contradições com os grupos de esquerda, automaticamente são empurrados para a epígrafe de fascistas. O indivíduo liberal, por exemplo, se vê sem espaço para se expressar — seja nas universidades ou na mídia —, sem liberdade para opinar sem que mil jargões lhe sejam imputados, e, sob gritos histéricos da massa, embatucado ao anonimato.

 

Alienação do intelecto

Sob tal regime totalitário da mentalidade única, acontece aquilo que Ortega Y Gasset chamou de “acanalhamento”, e o que o filósofo alemão Eric Voegelin (1901-1985) denominou: “sacrificium intellectus”, isto é, a alienação autoconsentida.

O indivíduo, buscando uma causa para lutar, encontra na mentalidade coletiva uma reafirmação grupal, onde todos o colocam como parte de um sistema intricado onde sua ação política e militância é indispensável para a mentalidade da massa. Dessa maneira, abrir mão da livre reflexão e da possibilidade de contradição é algo indispensável para a funcionalidade do grupo como um todo. Não se abre mão da uniformidade de pensamento e ação nesses grupos militantes, assim como não se pode haver abelhas rebeldes numa colmeia. Marx já dizia: “Quando são revolucionários, eles o são em vista da iminente transição para o proletariado; não defendem, pois, seus interesses presentes, e sim os futuros; abandonam seu ponto de vista para assumir o do proletariado”[1].

 

Incorporação da linguagem

Esses indivíduos, quando absorvidos pelo grupo, começam não só a pensar como o grupo pré-determina, mas também começam a se expressar com a linguagem criada por eles. Tal fenômeno não é um espanto para quem conhece os meandros da escola de Frankfurt, a linguística e o desconstrucionismo do filósofo franco-argelino Jacques Derrida (1930-2004). Tal característica já foi alvo de minha análise aqui mesmo no ILMG no texto A ditadura dos tolerantes. Em suma, os teorizadores da massa criam termos pseudocientíficos e designações para corroborarem suas teses, ao mesmo tempo em que emudecem o contraditório.

Isto é, quando suas teorias são contrapostas com argumentos, a massa possui a saída dos covardes: a taxação. Quando alguém se levanta contra a Parada Gay, por exemplo, com argumentos e o bom senso, logo são emudecidos com a chancela da “homofobia”, “transfobia” e as demais “fobias” criadas. Dessa maneira, o opositor é escrachado para os montantes dos intolerantes, preconceituosos, fascistas e nazistas, tendo seus argumentos pré-dispensados sem que haja nenhuma consideração ou análise.

Sem que haja uma reflexão sobre os termos que adquiro nesse processo de agrupamento e alienação, posso, por vezes, fazer apologia política para esses grupos sem que eu mesmo tome consciência disso. Usando seus termos e reafirmando com eles as suas teses, ainda que eu não concorde com suas conclusões, eu a reafirmo pois eu utilizo as suas premissas linguísticas. Quem leu 1984, de George Orwell, bem sabe que isso já é algo percebido há muitas décadas.

 

Ação revolucionária sem reflexão

Por fim, a última característica exposta nesse artigo é a militância sem prévia reflexão. Conseguimos constatar mentalidades doentias ao ponto de aceitarem o contraditório sem que haja nada que digam às suas consciências da verdadeira irracionalidade de suas ações.

Os anarco-comunistas, por exemplo, tomam a frente das manifestações ao mesmo tempo em que chamam a polícia de fascista. Sob essa égide, começam a quebrar propriedades públicas e privadas numa verdadeira insanidade social, agindo como reais fascistas ao impedirem uma manifestação pacífica. Cobrem os seus rostos e tornam-se vândalos dos bens alheios e de seus próprios bens públicos. Outro exemplo é a manifestação feminista que pedem pudor masculino mostrando seus corpos nus em plena luz do dia. Pregam que os homens objetificam seus corpos em busca de prazeres, ao passo que não percebem que seu movimento também objetifica corpo feminino, mas para fins políticos.

Agem por agir, sem nenhuma reflexão. São guiados por simplificações discursais, da mesma maneira que o gado segue o seu dono apenas com o brado previamente reconhecido. Se um grita, o outro repete. Se um cria um jargão qualquer, noutro dia já se tatua o jargão na pele. Picham muros e criam cartazes. Agem de maneira irrefletida como uma engrenagem de um sistema que já definiu sua participação no montante. Os escravos de um sistema. Quem diria que aqueles que protestam como o sistema industrial de robotização do operário, não os tornaria operários robotizados da ideologia que dizia ter nascido para libertá-los.

E aí, és massa de manobra?

 

[1] MARX, Karl; ENGELS, Friederich. Manifesto do partido comunista. Penguin: São Paulo, 2012, p. 56

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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