Utopia: a receita para o fracasso social

Por:Pedro Henrique
Colunas

21

Sep 2016

Utopia: a receita para o fracasso social

 

A política no Brasil tornou-se uma fábrica de estorietas; nossos políticos, contadores de estórias e idólatras de ficcionistas. Não sei donde o nosso povo tirou a ideia de que a política deve ser uma busca pelo reino encantado, uma espécie de expedição ao mundo impossível ou um portal para um paraíso desconhecido nunca antes sondado. Aliás, sei sim. Foi da Revolução Francesa e do iluminismo nascente. Não obstante, essas ideias ainda são repetidas e vomitadas na sociedade como as mais altas verdades, como dogmas da sociedade moderna; aliás, aboliram os dogmas religiosos para instituírem os políticos.

Você poderá me questionar: “ora Pedro, qual o problema de uma política que busque um mundo melhor?” Para respondê-lo(a), devo eu divagar por alguns já corriqueiros exemplos que fazem parte de minha escrita — se você me acompanha já deve estar acostumado com minhas abstrações.

Percebemos que as relações humanas mais sadias — e para isso poderemos nos valer de inúmeros exemplos — não têm em si uma preocupação finalística. Quando nós, homens, nos enamoramos por alguma mulher, não buscaremos nos casar com algum objetivo final no casamento em si, o casamento é o fim de uma etapa que inaugura inúmeras outras. Ou seja, há vida após o casamento, há uma continuidade dos planos e da vida conjugal no matrimônio.

Geralmente, e isto é uma constatação minha, os relacionamentos humanos, sejam eles amorosos ou amigáveis, realmente prosperam quando não se apoiam num contrato, isto é, uma objetivação do relacionamento. Um relacionamento de amizade perdura quando a manutenção da camaradagem entre as partes não está prescrita num propósito outro que não seja a própria existência da amizade. Eu não namoro alguém buscando cumprir uma cláusula contratual, nem doou minha amizade sincera para cumprir metas[1]. Assim deveríamos ver a sociedade. Ela, antes de tudo, é um constante meio de vivência para todos, um espaço compartilhado onde devemos nos relacionar da maneira mais natural possível. Ainda que leis e contratos, de fato, existam, não deveriam ser elas os objetivos de nossos relacionamentos sociais, a não ser por reflexo e por necessidade temporal. Não se firma um tratado jurídico para ajudar a trocar o pneu do carro de sua vizinha, não se estabelece cláusulas para trocar o chuveiro de um idoso; a meta desses relacionamentos é a camaradagem pura e simples, gratuita e sem escopo. Ou seja, um meio sem uma objetivação final que não seja o próprio agir em si.

A sociedade é antes de mais nada um fluir histórico, devemos ter em mente a quase sagrada noção que, não fui eu quem criei o mundo, quando aqui cheguei ele já estava estruturado, bem ou mal construído, mas já estava. A mim cabe a ele integrar-me e melhorá-lo com as minhas habilidades e capacidades, numa forma genuína de tomada de consciência social. Todavia, isto não me dá a autoridade de ser o arquiteto da sociedade, de impor uma cartilha social sobre aquilo que acho ser o melhor para todos sem o consentimento de todos. Ou pior, usar da sociedade como meio para alcançar meus fetiches filosóficos e sociológicos. A sociedade é um eterno meio. Ela segue evoluindo e alcançando metas temporais, todavia, como etapas de uma contínua e perene realidade inesgotável; como fases de um jogo do qual não vejo o fim[2]. O “sentido que adotamos a barbaria não é uma questão de métodos, mas de fins”[3].

O que eu quero apontar como início do problema é, ou tratamos a sociedade como um eterno meio, ou seja, como uma sociedade perene que evolui e desenvolve em consonância com as limitações e aporias humanas; ou usamos dela como um cavalo que, no fim da viagem, teremos de mata-lo por não podermos alimentá-lo. A sociedade é, em si, e não para um fim. A sociedade evoluiu da era clássica à medieval, do renascimento à modernidade, chegando até nos contemporâneos. Eras foram alcançadas, houveram fins de civilizações determinadas, mas há uma ligação histórica evolutiva de uma sociedade que transcendeu o tempo, a sociedade dos Homens, a sociedade perene. “Não é fácil citar uma coisa da qual se possa dizer que dela depende toda a enorme complexidade humana. Mas, se de alguma coisa depende, é dessa frágil corda estendida entre as colinas esquecidas do ontem e as invisíveis montanhas do amanhã”[4].

Quando transformamos nossas relações humanas em, apenas, troca de favores, ou quando faço de todos meus vínculos um trato de bordel, acabamos agindo sempre como empregadores que sempre vêem nas pessoas uma possibilidade de contrato em busca de lucros ou outros fins específicos. Não que tais relações de empregadores e empregados sejam ruins, muito pelo contrário, o que seria de nossa sociedade, e de nossa economia, se não houvessem tais relações? Seríamos, ainda hoje, homens tentando sair das hordas tribais. Não trato de tais relações nesse texto, mas sim, da relação humana particular, e das relações no âmbito social e político[5].

Quando uma pessoa é usada como meio para um fim, determinamos que isso, no mínimo, é uma atitude de mau caratismo, e, por vezes, um agir criminoso. Um exemplo válido são as pirâmides financeiras, onde alguém é colocado no “esquema” para que sua entrada gere riquezas rotativas e ilusórias aos que fazem parte de suas ramificações na empresa. Ou seja, usa da entrada e do investimento de alguém, como benefícios financeiros para outros sem que, necessariamente, a promessa de auferição de lucro seja relizada para todos os participantes do “projeto”.

Quando fazemos o mesmo nas políticas sociais ou discursos político-partidários, usamos de bonanças e esmolas momentâneas na busca de um fim utópico, geralmente isso acaba muito mal. Isto é, acaba causando a dependência eternizada de um Estado que lhe controle e, uma vez que ele lhe controla, poderá lhe causar danos irreversíveis: ou tratamos a sociedade como um eterno meio, que não me autoriza usar de alguém — ou da própria sociedade — para alcançar um fim de quimeras; ou aceitamos como justificáveis usar dos meios para um fim, por mais terríveis e imorais que estes meios possam se tornar.

Tudo isso é feito em busca de uma utopia, o meio para um fim. Por exemplo, a igualdade de condições sem nenhum desnivelamento social. Ao invés de lidarmos com a política prudencial e com a existência factual das diferenças complexas da humanidade, criam-se teorias que distorcem a realidade e destroem a economia, tudo isso em nome de um sistema que sabidamente gerará mais pobreza e desigualdade. Todavia, isso é apenas um exemplo bem básico, as coisas podem ser mil vezes mais sérias e, quando falo “sérias”, quero dizer mil vezes piores.

Se voltarmos nossos olhares para a história do século passado identificaremos algo como sendo o cerne do problema social do século XX: a utopia. O finalismo social imposto a todos. Todos os países que prometeram utopias por vias políticas, acabaram criando infernos na terra — e não o céu, como prometido por eles. Agiram indistintamente como acima classificamos, isto é, usando da sociedade, dos indivíduos e da política como uma expedição em busca de paraísos terrenos, fizeram  de seu povo meio descartável na tentativa de alcançarem suas fantasias ou  ideologias sociais.

Criaram-se livros, cartilhas e manuais práticos sobre como se alcançar o fim esperado, a parúsia social. Tais literaturas pregavam: revolta popular> revolução armada e/ou cultural> destituição do capital burguês> abolição da propriedade> comunismo> libertação do homem (o céu na terra) através dessas fórmulas sociais que seguem o mesmo modus operandi de uma receita de bolo. Agem como se a complexidade da realidade humana fosse facilmente arquitetável, como que por uma revista de culinária, como se a sociedade se resumisse na adição de leite, trigo, ovos e açúcar — ou em revolta, revolução, destituição do capital e da propriedade, resultando, depois de 40 minutos no forno, na “libertação do homem”.

A utopia é como um entorpecente social, ela lhe dá coragem e motivação, lhe impele a agir de forma animalesca, todavia, tendo uma justificação para tal: é pelo bem da sociedade. A utopia é como um holograma, ela mostra uma realidade que não existe, uma estrutura construída por sonhos e luzes muito bem emitidas num espaço vazio. Tudo isso faz com que se angariem adeptos, ou, como eu os classifico “meios voluntários”. Geralmente são os mais jovens, aqueles que, por natureza, são sonhadores e revoltados. As utopias lhes dão uma causa, um porquê para agirem de forma revoltosa. Eles são usados, são transformados em amebas errantes, lutando por reflexo, platonicamente embebecidos do conceito de um mundo ideal, enquanto que, no mundo real, agem de forma esquizofrênica, irrefletida e patética; mostram os seios para pedirem pudor masculino, quebram a cidade para pedirem democracia, queimam pneus em vias públicas esperando angariar as simpatias daqueles que por eles estão sendo prejudicados na locomoção.

Não obstante, isso não é um mal que podemos imputar somente aos ideólogos ou aos criadores das cartilhas utópicas. Existe uma boa parte de nosso povo que quer o impossível, quer ganhar dinheiro sem trabalhar, quer ser culto sem estudar, quer suprimir todas as diferenças naturais do homem num complexo político impositivo, querem robotizar o homem para que o seu vizinho não tenha nada além do que todos já possuem. Não há maior tirania do que suprimir por vias sintéticas a natureza de um homem, a complexidade e disparidade que lhe compõe até o último fio de cabelo. Quando é o impossível que o povo pede, aí somente os ilusionistas sociais podem oferecer o que eles querem.

A Alemanha nazista buscou no arianismo a pureza racial — sua utopia —, o finalismo para a política. Os morticínios, as doutrinações, os campos de concentração nazista, para os adeptos do nazismo, eram totalmente aceitáveis, eram totalmente plausíveis para o fim de liberdade racial que se buscava. Os judeus eram os meios — os “meios forçados” —, o sacrifício sanitário justificável em busca de um fim maior, em que todas as atrocidades seriam justificadas. Ignorando a complexidade da raça humana, deram ao nazismo um epílogo que dizia: “aqui jaz a perfeição social, a utopia feita realidade”. O nazismo mostrou o que acontece a uma sociedade que é vista como um meio para um fim.

A URSS quis transformar o comunismo em realidade mundial, subjugou países inteiros, transformou sociedades prósperas em ruinas cadavéricas, transformaram a Ucrânia em uma tribo de canibais[6]. Seu povo em animais a serem sacrificados em nome de um fim político disforme, irreal e assassino. Gulags se encheram de prisioneiros, homens e mulheres conheceram o pior que a humanidade pode realizar; matar tornou-se método, homens e mulheres, o sacrifício ao deus: comunismo.

Aqui no Brasil a igualdade e a felicidade plena no comunismo fizeram-se realidade apenas nos livros do MEC. Na história humana elas construíram cordilheiras de cadáveres.

A sociedade é feita de objetivos minoritários, fins de etapas dentro de uma continuidade perene. Atos políticos como a reforma de uma instituição, a instauração de uma ação social que visa sanar os problemas determinados de uma região ou país, que pretende dar conforto aos mendicantes, a abertura de mercado, entre outros exemplos, são as provas de que é possível uma sociedade que lide com problemas reais do cotidiano visando uma evolução futura sem perder seu contato com a realidade, sem se embebecer com hologramas de um paraíso.

Todavia, a política deve ser sempre o terreno do possível, da prudência. Quando se espera o céu na terra, até o inferno torna-se via plausível para buscá-lo. A sociedade não é um tubo de ensaio político, um campo de testes para filósofos metidos a construtores de realidades paralelas.
Os Homens não são camundongos a serem sacrificados em nome de uma “cura política” ilusória. O progresso só é possível em comunhão com um passado que lhe sustente e lhe dê sinalizações. Se há uma missão para os filósofos e historiadores, esta é: lembrar a todos que certas táticas políticas já foram tentadas e falharam de forma inequívoca. Que os historiadores nos lembrem sempre que o comunismo e o fascismo não dão certo, que os filósofos sensatos nos convençam que não cabe à política o messianismo, que não cabem aos ideólogos dar-nos a salvação.

Eu sou o chato filósofo que veio para lembrar a todos o que todos querem esquecer: foi a utopia social a responsável pelos maiores morticínios em massa da história humana. Se os túmulos do século passado se fizessem escutar, eles diriam: a pior forma de reacionarismo é apostar numa sociedade que já se mostrou falida.

 

Referências:

[1] “A maioria das atividades humanas e das relações que valem a pena não tem objetivo, isto é, nenhum propósito externo a elas mesmas”.

[2] O filósofo Roger Scruton, em seu livro: O que é conservadorismo, desenvolve tal tema com uma maestria poucas vezes vista. Ver: SCRUTON, Roger. O que é conservadorismo, 1ª Ed, São Paulo: É realizações, 2015, p. 57 -61

[3] CHESTERTON, G. K. A barbaria de Berlim, Rio de Janeiro: Livraria Agir, 1946, p. 23

[4] Ibidem, p. 25

[5] Não trato da relação empresarial nesse artigo, mas, a distinção óbvia entre relação pessoal e relação empresarial é um norte necessário para o leitor.

[6] Episódio conhecido como Holodomor, ou holocausto Ucraniano.

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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