Uma análise das análises políticas

Por:Pedro Henrique
Colunas

06

Mar 2017

Uma análise das análises políticas

“Acanalhamento” foi um termo utilizado por José Ortega Y Gasset, em seu Livro A rebelião das massas (Y GASSET, 2016, p. 222). Tal termo tem a função de conceituar aquelas pessoas — e instituições — que, mesmo sabendo que suas ideias ou planos não darão certo no final das contas, ainda assim as defendem e propagam como princípios absolutos e retos. Ou seja, canalhas, na conceituação de José Ortega Y Gasset eram os alienados e superficiais.

Dizer que o socialismo deu certo, por exemplo, é uma mentira em qualquer canto do globo. Entretanto, é possível encontrar militantes que defendem as políticas estatais que estão arruinando a Venezuela sob o comando do presidente Nicolas Maduro, É simplesmente ilusório afirmar que as políticas socialistas/bolivarianas estejam dando certo de alguma maneira no país caribenho. Mesmo assim, ainda há pessoas “acanalhadas” que afirmam tal pachorra tacanha.

Todavia, o “acanalhamento” não se restringe somente em defender o indefensável e também não é uma atitude puramente de ativistas políticos. Há doutores, jornalistas, homens letrados e de quociente de inteligência (QI) estupendo, que caem nesta movediça fresta alienadora. Podemos constatar isso nas partidarizações simplórias de problemas complexos, como nas localizações de “bodes expiatórios” para situações em que não há somente um culpado. É como se, para justificar a queda de uma casa, alguém apontasse o telhado como causa, sem antes verificar as estruturas do domicílio em ruínas.

Usemos um exemplo atual para ilustrar o problema. Após três semanas do fim da greve dos policiais militares do Espírito Santo podemos enxergar os fatos e analisar a trama sem demais afloramentos partidários. É patente observar como qualquer debate político, atualmente, torna-se uma briga de galos. Ao iniciar a greve, em poucos dias — para não dizer horas — as pessoas já estavam encontrando o culpado para tal barbárie sistêmica no Espírito Santo sem antes buscar as causas do impasse em questão. Quando um batalhão de um Estado da Nação recolhe suas viaturas e homens, não podemos achar que tal atitude foi apenas um momento vadio de rebeldia ou uma birra adolescente qualquer. É latente observar que os primeiros instintos dos ditos analistas políticos não foram, de fato, analisar a questão de forma estrutural, mas escolher um lado da briga e defender seu corner.

Entretanto, nem tudo no mundo político pode ou deve ser partidarizado. Por vezes, o problema é basilar. Sendo assim, ainda que o primeiro sintoma de uma casa prestes a cair possa ser o telhado envergado, os pilares da construção devem ser antes investigados. Nem tudo primariamente visível é necessariamente a causa do problema. Ou seja, assim como no exemplo, nem sempre é possível achar um culpado único para os problemas políticos.

No caso do caos no Espírito Santo a culpa não era somente dos grevistas, como também não era somente do Governador do Estado, mas de todo um sistema estatal falido e mal organizado que encontrou o seu limite naquele momento.

Vivemos num país que arrecadou mais de 2 trilhões de reais de impostos em 2016, mas, mesmo assim, pagamos salários ínfimos aos agentes de segurança pública; área de atuação que é um dos pilares da sociedade organizada — unido à saúde e educação. Só que no Brasil temos o saldo de 200 bilhões de reais desviados pela corrupção por ano. Munido de uma incompetência administrativa, conchavos políticos, sangrias corruptas, além de acórdãos e monopólios, acabamos construindo uma malha administrativa extremamente corrupta e ineficiente. Nosso Estado tem prioridades invertidas, além de ser extremamente inflado. Suas competências primárias são manter a ordem, a saúde básica e a continuidade educacional de seus cidadãos, mas nem isso é feito.

Sendo assim, culpar somente os grevistas pelo colapso da segurança pública brasileira é um tremendo “acanalhamento”. Num país que possui 21 das 50 cidades mais violentas do mundo, e em média 56 mil assassinatos por ano, não é minimamente razoável acreditar que a greve da Polícia Militar (PM) capixaba seja o causador da desordem na segurança pública brasileira.

Ainda que a atitude da greve seja realmente deplorável, culpá-los, pura e simplesmente, “é o mesmo que cortar um dedo de uma mão pútrida”.

Muitas outras coisas podem ser listadas como causas primárias do colapso na segurança pública e tal caos não se estruturou da noite para o dia. A falta de civilidade dos policiais, a ausência de um comando real no batalhão, o descrédito da população frente à PM, as constantes difamações midiáticas, as incompetências pontuais de certos militares e até mesmo os armamentos de péssima qualidade oferecidos pelo governo, montaram essa cadeia de incompetência que corroeu os pilares da estrutura que desabou no Espírito Santo. São muitas as causas que aos poucos esmoreceram a infraestrutura da segurança nacional.

O nosso país é um poço de incompetência estatal, entretanto, os críticos políticos sempre tratam dos sintomas, nunca alcançando a doença em si. Eles podam o problema, mas não conseguem acabar com ele. Os formadores de opinião estão mais preocupados em serem militantes de uma ideia, do que encontrar os princípios centrais das falências de nossas instituições. Sabem que criticar o tempo todo o PT não passa de acusar o visível, sabem que culpar uma classe ou outra, que viver em voltas com discursos ásperos a determinados políticos não evidenciará a gangrena. Apontem os sintomas! Critiquem os corruptos sim, mas não esqueçam de mostrar o que possibilitou todo esse aparato problemático.

Pisamos diuturnamente no rabo da jararaca porque sequer sabemos o que é uma jararaca. Quando não conhecemos o que combatemos a chance de falharmos em nossas análises é enorme.

Referência:

Y GASSET, José Ortega. A rebelião das massas, 5ª Ed, Vide Editorial: Campinas, 2016

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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