Será que Trump é pró liberais?

Por:Pedro Henrique
Colunas

27

Nov 2016

Será que Trump é pró liberais?

Agora, com a poeira abaixando, podemos falar de Trump com tons mais amenos e com uma sensatez muito mais prudente do que aquela das guerras ideológicas infladas pelas mídias e pelos discursos lamentáveis de ambos os candidatos americanos no processo de eleição. Uma análise sensata e sem paixões se faz necessário

Ao finalizar a apuração dos votos a única questão que surgia nos meios midiáticos e entre analistas políticos era: Como Trump ganhou?

E, após tais questionamentos,algumas semanas depois, nos perguntamos: qual o futuro dos EUA e quais serão suas políticas econômicas, sociais e internacionais?

O jornal The New York Times, às 22:20 um dia antes da eleição (01/11) mostrava que as chances de Hillary vir a ser a nova presidente dos Estados Unidos era de 85%[1]. O mesmo dizia o CNBC[2]  — e as demais mídias mundiais repetiam tal posição.

Politicamente dizendo, Trump apostou na campanha do improvável. Mas mesmo o improvável, por vezes, torna-se real. Aconteceu o que as imprenssa mundial dava como impossível. Com discursos fortes e por vezes demonstrando intolerância, Trump falou sem filtros o que a população mais conservadora há tempos esperava escutar de um candidato, ou seja, uma firmeza de ação que transpusesse a mera casca da diplomacia eleitoreira

Deportações de imigrantes ilegais, valorização dos militares e uma política de defesa mais eficiente foram os carros-chefes de sua campanha no que concerne a suas propostas políticas. Se do lado democrata há uma modus operandi ao estilo globalista de fazer campanha, isto é, com palavras bem-postas em jargões que não ofendam egos e que procurem, de uma maneira quase apática, agradar a todos — o politicamente correto —, Trump resolveu falar “na lata” e apelar para aquilo que muitos fazem de tudo para suprimir em meios acadêmicos ou em reuniões de intelectuais, por vezes tornando-se odioso e intolerante por muitos destes, também por sua maneira de se expressar. Rótulos como misógeno, homofóbico, racista e xenófobo se avolumaram nas tratativas de seus opositores. Mas a realidade é que Trump alcançou o que queria, ou seja, a confiança da população conservadora, ruralista norte-americana e a histeria em massa dos globalistas, trazendo de volta o clima de guerra fria para os tempos atuais. Os polos políticos estavam em uma verdadeira batalha no dia da eleição, e ainda estão.

Mas vamos tratar do que interessa ao Instituto Liberal de Minas Gerais: Na economia Trump se mostra um protecionista. Nada liberal. Ainda que em sua campanha tenha prometido repetidamente diminuir impostos drasticamente[3], a realidade é que fazê-lo através de decretos do executivo é mais uma forma de intervencionismo indevido do Estado na economia. Trump repetidamente afirma que é preciso cortar relações comerciais que não beneficiam diretamente os EUA, como o NFTA (Tratado Norte Americano de Livre Comércio). Sua alegação é que acordos com o México trazem um déficit  desnecessário à Balança Comercial dos Estados Unidos e diminui o número de empregos para os cidadãos americanos, uma visão claramente imediatista de economia, que não leva em conta vantagens comparativas quando comercializando com o resto do mundo. Mas no meio deste embróglio, disse Trump em seu discurso de vitória: “Quero dizer à comunidade mundial que, embora sempre ponhamos os interesses dos Estados Unidos em primeiro lugar, vamos lidar justamente com todos, com todos”[4]. Veremos o que ele quis dizer com isto.

Ao centralizar as ações econômicas dos EUA nas mãos do Estado, além de ir contra uma tradição de livre mercado há séculos tradicional nos País, Trump acaba por mitigar a importância de uma economia liberal em nome de uma política excessivamente nacionalista. Ao limitar o acesso dos cidadãos americanos às mercadorias chinesas, por exemplo, ele enfrentará o natural encarecimento de matérias-primas e das taxações alfandegárias, o que irá gerar um aumento de preços de produtos finais, que deixarão de ser competitivos. Por sua limitação ao livre comércio, imposta graças a suas convicções político-econômicas[5], Trump influenciará, assim, o preço em todas as mercadorias manufaturadas pelas indústrias norte-americanas, mas que dependem de bens ou serviços de outras nações. As tecnologias e as rápidas trocas de informações e mercadorias entre países tornam a política econômica engessada de Trump em um retrocesso ao livre comércio, causando, necessariamente, uma queda real do PIB americano, já que a queda de impostos e a elevação dos preços pode gerar uma diminuição do volume de bens exportados[6].

Se na política a globalização pode gerar certas desconfianças aos modelos norte-americanos de se fazer comércio internacional, em termos econômicos fugir da globalização é fechar-se em uma bolha num mundo paralelo, onde a economia gira em torno de indústrias determinadas, não em torno de um mercado pulsante e de inovações infindáveis. Há tempos a economia mundial já saiu dos feudos. Todos já deveriam ter entendido isso. Quando há movimentos de fechamento comercial na economia, isto gera automaticamente uma desconfiança por parte dos investidores, que gera a diminuição da quantidade de moeda nacional em circulação e instabilidade de investimentos do curto ao longo prazos[7]. Essa dinâmica poderá significar um aumento pontual do déficit bruto dos EUA no valor de 5,9 bilhões de dólares[8], segundo o Tax Foundation; além do acúmulo de uma dívida de 7 trilhões em dez anos, segundo o Tax Policy Center (TPC), se Trump cumprir tudo o que vem prometendo em seus discursos empolados[9].

Trump conseguiu concentrar tudo isso em sua confusa teoria econômica antiliberal. Obviamente, tudo isso pode mudar. Pode ser que ele reveja suas políticas ou até eleja um verdadeiro liberal para o cargo de ministro das finanças, mas, com certeza, fazer a América grande novamente não passa por paternalismos patetas e engrandecimentos estatais indevidos.

Trump assume claramente posições keynesianas. A interferência estatal é parte medular de sua visão econômica, onde o livre comércio deve se submeter antes à baliza do Estado, mais especificamente, ao salão oval.

O fator Trump é aquilo que devemos levar em conta para equacionar as perdas e ganhos que virão de seu governo, e tudo o que precisamos levar em conta, agora  é saber se ele cumprirá ou não suas promessas de campanha. Principalmente aquelas que visam enxugar as taxações de impostos; romper com os grandes acordos econômicos internacionais como NAFTA, taxar em 45% os produtos importados da China[10];  e a recorrente promessa de expulsar os imigrantes ilegais, o que, sem sombras de dúvidas, também irá gerar um calamitoso impacto econômico[11] no mercado de trabalho de um país que recebe uma média de 11 milhões de imigrantes ilegais por ano, de acordo com o Pew Research Center (72% não permanece no país por mais de 5 anos, de acordo com a mesma instituição), já que estes imigrantes não ocupam somente postos de trabalhos periféricos nos EUA, como dantes.

O problema principal está na junção de suas políticas comerciais com sua agenda  econômica doméstica. Tais questões, comércio e economia, não podem entrar em conflito por definição, pois tais conflitos poderão gerar uma instabilidade ainda maior na situação econômica do país[12].

O que elegeu Trump foram alguns fatores primordiais: as denúncias e a falta de esclarecimento por parte de sua oponente Hillary Clinton quanto ao escândalo dos e-mails vazados, pois,  ainda que não tenha sido judicialmente condenada, ela ficou chafurdada numa nuvem de desconfiança e incógnitas que até o presente momento não foram esclarecidas; suas opiniões nada consistentes, mudando ao sabor dos votos que lhe interessavam, como sua opinião quanto ao casamento gay; a crise que assolou os EUA em 2008 e que ameaça a economia americana na medida em que a Europa se encontra à beira de um colapso, sustentada basicamente pela economia alemã, e que necessitava de uma resposta imediata, o que não veio do governo Obama: os interioranos que esperavam uma solução de resgate, de restauração econômica — é justamente o sentimento que surge após um naufrágio — . Trump ofereceu uma solução protecionista, uma solução de resguardo advindo de discurso vigoroso e aconchegante “vamos trazer novamente as indústrias ao seu ímpeto, vamos fazer a América grande novamente”. Tal discurso convenceu os imediatistas, or “red necks”, e a mídia, com seu parcialismo, que fez com que o discurso de Trump — de que estava sendo perseguido, e que havia uma trama das grandes corporações contra sua eleição — fosse plenamente aceito em muitos cantos daquele país. Esta mídia decidiu-se por um lado e isso criou uma faca de dois gumes, que acabou ferindo-a também.

O Tom mais ameno de Trump em seu discurso de vitória pode apontar para uma política menos agressiva do que esperávamos, quem sabe até mesmo uma abertura para acordos. Não obstante, isso é apenas especulação. Na verdade, só saberemos o que o presidente Donald Trump fará quando suas ideias começarem a ser debatidas entre os parlamentares e postas em execução, já que é de suma importância que os parlamentares republicanos, que são maioria no Congresso novamente, comprem suas ideias do que seja melhor para o país.

Trump só fará a América grande de novo quando ele entender que uma economia pulsante só é possível num país que deixa o mercado trabalhar livremente para que haja a espontânea criação de riqueza.

Economia não é assunto de porão ou debate de bar; economia se faz com inteligência, informação, e estratégia, não com retóricas inflamadas.

Referências:

[1] http://www.nytimes.com/interactive/2016/upshot/presidential-polls-forecast.html?_r=0

[2] http://www.cnbc.com/2016/10/26/85-chance-of-clinton-winning-the-us-election-say-uk-betting-firms.html

[3] https://noticias.terra.com.br/os-planos-de-trump-para-economia,596a2606e569b2e8778e1bc9326811ebd0tb4ch6.html

[4] http://g1.globo.com/mundo/eleicoes-nos-eua/2016/noticia/2016/11/integra-do-discurso-de-donald-trump-novo-presidente-dos-eua.html

[5] http://www.bbc.com/portuguese/internacional-37920213

[6] http://brasil.elpais.com/brasil/2016/11/09/economia/1478719934_311492.html

[7] Desconfiança dos maiores economistas e instituições especializadas após a vitória de Trump: http://exame.abril.com.br/economia/o-que-economistas-e-bancos-acham-de-trump-na-economia/

[8] https://eco.pt/2016/11/09/o-que-e-que-donald-trump-quer-para-a-economia/

[9] http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,o-que-trump-fara-na-economia,10000088048

[10] http://economia.uol.com.br/noticias/bloomberg/2016/11/14/politicas-de-trump-implicam-risco-a-economia-global-diz-goldman.htm

[11] https://www.washingtonpost.com/news/wonk/wp/2016/11/09/what-it-will-take-for-president-trump-to-deport-millions-and-build-the-wall/

[12] já que boa parte dos parlamentares republicanos não escondem suas insatisfações com a agenda de Trump

The following two tabs change content below.

Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

Latest posts by Pedro Henrique (see all)


Comente com o Facebook

Compartilhe:

contato@ilmg.org.br