Todos querem revoluções, mas ninguém sabe o que é uma

Por:Pedro Henrique
Colunas

14

Sep 2016

Todos querem revoluções, mas ninguém sabe o que é uma:

É muito interessante notar como algumas palavras ou expressões adentram nossas linguagens cotidianas e fazem nelas suas moradas, ainda que os agentes formadores destas sentenças não saibam nada sobre o que estão falando.

Certa vez, num ônibus de minha cidade, em tempos de eleição presidencial, duas moças conversavam sobre política em um tom muito desagradável para um lugar público. Uma delas disse que votaria na Dilma, pois, não colocaria o poder nas mãos de nenhum “homem assassino de reputações, que isso seria ‘descolar’ o patriarcado cristão”. Acredito piamente, e tenho certos motivos para isso, que essa moça, feminista por conveniência, não sabia ao certo o que a palavra “descolar” costumeiramente significa, e nem se importava muito com o sentido que ela tomava em sua sentença; com o mesmo fulgor de outrora, afirmo que nunca, sequer uma vez, essa distinta garota estudou o sentido conceitual de “patriarcado”, muito menos a sua relação política com a modernidade. Se o tivesse feito, de fato, teria o relacionado antes com o islamismo e não com o cristianismo.

O mesmo ocorre, de maneira muito popular, com a palavra “revolução”. Quase todos os jovens querem, de alguma maneira, serem revolucionários. Em vistas primárias isto não possui problema algum, afinal, é típico da juventude um ar de revolta e mudança. Mas, será que eles conhecem o conceito e a praxis de uma verdadeira revolução? Creio que não. Revoluções não devem ser brinquedo para adolescentes mimados, pois, como diria Russell Kirk: “As revoluções devoram os seus filhos”.[1]

Toda revolução possui em si dois pontos cardeais: primeiro, o desprezo pelas estruturas históricas e tradicionais; segundo, a crença de que a sociedade começa no ato revolucionário e que finda num momento utópico idealizado, sob a perspectiva da ideologia revolucionária que se segue.

Assim sendo, possuímos dois problemas muito sérios, o primeiro deles é aquele que Ortega Y Gasset identificou muito bem como sendo uma atitude das massas, isto é, a crença amorfa de que a história começa no ego do revolucionário que se posta como deus na história. Ele é o ex nihilo, ele é o princípio e fim de tudo. O revolucionário tende a acreditar que tudo começa e termina nele, sua teoria é a salvação da humanidade, por isso, todos devem ceder suas liberdades e seus intelectos no intento de buscar este fim social messiânico. Não à toa que Russell Kirk aponta: os ideólogos revolucionários, na ânsia de revogar o cristianismo, criaram sua própria religião, uma “religião invertida”[2], suas ideias políticas.

Ao rejeitar as estruturas históricas da civilização, causam toda sorte de imprudências e imoralidades. Na angustia de buscar uma sociedade perfeita, ignora-se todo enfrentamento ético que a história pôs como princípio do contrato social de convivência. Ou seja, se a história começa no determinado momento da revolução, se não há nenhum direito natural ou jurisprudência que dite certas balizas morais e éticas às atitudes humanas, então tudo é válido. Por isso, quase sempre, as revoluções terminam em atos aterrorizadores e morticínios demoníacos. Foram as revoluções que fizeram gulags e campos de concentrações. Se não há cercas históricas que delimitam o que é moral, ético, ou no mínimo, tolerável, aí tudo é permitido, pois, se revogarmos o direito natural e as tradições, serão os revolucionários quem ditarão o que é moral ou não, o que é ético ou não. São eles os princípios morais do mundo que eles próprios criaram; a partir deste triste momento as portas para insanidade e a imprudência social estão escancaradas, desse momento em diante basta um humor transviado para gerar montanhas de corpos.

Dividam disso tudo que disse acima? Então digam-me: o que houve na revolução francesa se não isso que disse anteriormente? O que houve na revolução bolchevique e cubana? O que Mao Tse Tung fez se não ser o deus da China, o ditador político e moral de seu país?

Tal enfrentamento moral que eu disse acima torna-se claro, por exemplo, em Trotsky, o grande teórico do comunismo Russo-Soviético. Ele possui um livro chamado A moral deles e a nossa, onde ele afirma que a moral comunista é mais “elástica” que a capitalista; que a moral comunista comporta certos atos considerados normalmente como abomináveis, enquanto que, para os capitalistas, a moral mantém-se rígida e balizada. Tal conclusão mostra, de forma magistral e panorâmica, aquilo que Y Gasset chamou de “acanalhamento”[3] em seu livro: A rebelião das massas. Ou seja, a ação de fazer o que é errado iludindo-se com a ideia de que seus atos possuem um propósito maior, propósito esse que lhe dá permissão para ser asqueroso e, muitas vezes, assassino.

Outra característica é a que apontamos acima, a revolução se enobrece com a mentira de que possui um intento messiânico para a sociedade. Toda revolução possui em sua base uma ideologia utópica que lhe dá motivo de ação, isto é, uma ideia social final de perfeição, seja ela uma ideia de liberdade extremada —  uma anarquia —, um enrijecimento militar moralista, ou uma igualdade social extrema — o comunismo. Tais ideologias infundem no intelecto jovem, sedento por algum propósito, um porquê para justificar seus atos irresponsáveis[4]. Essa crença de estar agindo em nome de um propósito maior, possui como base a crença, ainda que insondável, de que o homem é capaz de perfeição, que sua natureza é capaz de extinguir o egoísmo, inveja, entre outras falhas do caráter humano, através de uma revolução política, um expurgo social. Todavia, as ideias revolucionárias não são nenhuma espécie trabalho espiritual que visa dar rumo ao ego humano insolente e errôneo. Trata-se, antes de mais nada, de um balbuciar tirânico que visa usar de pessoas facilmente influenciáveis para conquistar poderes políticos. Ou alguém aqui pensa que a URSS foi exemplo de caridade e filantropismo humano? Que Cuba respeita de forma perene as liberdades humanas mais basais? Que Camboja era um exemplo de democracia pulsante? Ou que a China comunista libertou as almas dos homens de seus pecados — além de ter liberto as almas dos corpos daqueles que se opuseram à ditadura?

Por fim, creio que a sociedade não entenda o que é uma “revolução”; creio que ela não saiba que a revolução pressupõe a destruição de um modelo milenar de sociedade, modelo este que montou as bases mais profundas de nossa civilização. A sociedade não compreende que destruir uma casa, estando morando dentro dela, não é uma atitude de perfeita sanidade. Não entenderam que o homem não é capaz de perfeição, logo, seus modelos políticos também não os são. Daqui a mil anos o homem continuará querendo mais que o outro, a sua vizinha vai ter inveja de sua grama, e o comunismo ainda não terá dado certo.

A sociedade não compreende que toda mudança significativa que aconteceu no mundo, mudanças que deram certo e trouxeram verdadeiras evoluções, antes de mais nada foram reformas, ou seja, mantiveram aquilo que era necessário manter e revogaram aquilo que o tempo deu como desnecessário na atualidade. No fim, a reforma é “um princípio seguro de transmissão, sem excluir totalmente um princípio de aperfeiçoamento. Deixa livre a aquisição, mas assegura o adquirido”[5].

Quando escuto que é preciso revolucionar algo, eu lembro das catástrofes do século passado; eu penso nos milhares de jovens que foram embebecidos por uma ideia muito bela, porém, na mesma proporção, muito falsa. Quantos morreram por uma ideia que no fim não triunfaria, não importando o modos operandi. Não daria certo, pois, excluía dela os dois pilares da civilização: a história e a prudência. Sem esses pilares nenhuma sociedade mantem-se em pé.

Por não saber o que significa ser revolucionário, por não saber as consequências das revoluções, o mundo moderno clama por estes ideólogos/revolucionários que estão sempre prontos para colocar em ruína toda a sociedade, dando a nós, em troca, uma esperança política amorfa.

Os mesmos jovens que não sabem sequer escrever uma redação e utilizar a crase, os mesmos que não sabem utilizar as operações mais simples da matemática,  ou dizer a data de início da segunda guerra mundial, são os mesmos revolucionários que juram ter descoberto as soluções para as aflições sociais da raça humana.

Referencias:

[1]KIRK, Russell. A política da prudência, 1ª Ed, São Paulo: É realizações, 2014, p. 99

[2]Ibidem, p. 94

[3] GASSET, José Ortega Y. A rebelião das massas, 5ª Edição, Vide Editorial: Campinas SP, 2016, p. 222

[4] “O jovem não necessita de razões para viver; só necessita de pretextos”. Ibidem, p. 220

[5] BURKE, Edmund. Reflexões sobre a revolução na França, 1ª Ed, São Paulo: Edipro, 2014. p. 55

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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