Por que temos o cenário político mais esquizofrênico do mundo?

O Brasil esquizofrênico

Por:Pedro Henrique
Colunas

13

Apr 2017

Por que temos o cenário político mais esquizofrênico do mundo?

O escritor britânico George Orwell e o filósofo francês Raymond Aron diziam algo que parece estar se tornando regra no pensamento político moderno: a modernidade consegue pensar contraditoriamente sem que isso se torne ilógico para ela. Ou seja, as suas compreensões políticas agem através de dois princípios contraditórios, ao mesmo tempo e sob os mesmos aspectos. Parece-nos que eles não se dão conta disso — ou se dão conta, mas não ligam. São princípios excludentes, mas quem se importa?

Alguns exemplos: somos a geração que odeia o capital e ainda sim quer dinheiro; que odeia a industrialização, mas quer pagar barato no Iphone; que odeia o empresariado, entretanto quer emprego; que reclama dos juros altos, mas quer mais interferência estatal, etc. George Orwell chamava isso de “duplipensar” em sua obra 1984, mas caracterizo como “esquizofrenia política”.

Como um profeta, Orwell percebeu que tal característica se apoderava da mente popular cada dia mais. O imaginário coletivo ficou envolto dessa aura de contradição permitida e consentida, afinal, sem a contradição não seria possível arrogar liberdade ao mesmo tempo em que se usa da tirania. Não se poderia clamar por justiça agindo à margem dela.

O cenário político esquizofrênico no Brasil

1984 não era para ser um manual de instruções

A característica mais chamativa de tal pensamento é a aceitação de condutas mentirosas como se elas fossem verdades incontestes. O brasileiro foi roubado até o último centavo ao mesmo tempo em que o aparato estatal cresceu exponencialmente. Logo, segundo a mentalidade dos ideólogos, a culpa é do setor privado. Víamos o desemprego crescer exponencialmente, rompendo a barreira de 10 milhões de pessoas — hoje já passamos dos 13,5 milhões —, ao mesmo tempo em que a ex-presidente Dilma Rousseff dizia em rede nacional: “não há crise”. É só “uma marolinha”, dizia o ex-presidente Lula. Dilma, ex-ministra da Casa Civil e ex-presidente do Conselho Administrativo da Petrobras de 2003 a 2010, era responsável pelas contas da maior estatal do país e tinha em suas mãos a contabilidade geral da petrolífera. A empresa foi saqueada na casa dos 20 bilhões de reais, isso contabilizando somente o rombo gerado pelas empreiteiras envolvidas no esquema do “Petrolão”. Todavia, o discurso de Dilma foi de que “não sabia de nada”. Tais discursos eram aceitos sem nenhuma contestação mais profunda, sem nenhuma desconfiança, como se fosse algo normal – e ainda são vistos dessa forma por alguns militantes. Como se perder um elefante — ou 20 bilhões de reais — fosse algo corriqueiro.

Temos o “Petrolão”, segundo maior esquema de corrupção da história mundial, de acordo com a ONG Transparência Internacional. Dá para contar nos dedos os políticos que não se envolveram no esquema. Há tantos políticos envolvidos que a estimativa é que apenas a parte investigativa da operação leve mais de dois anos para ser concluída. Diante de tudo isso, o Partido dos Trabalhadores (PT) e os demais partidos políticos diretamente envolvidos ainda nos dizem que não sabiam desse gigante esquema de corrupção? O PT, que teve quase toda a cúpula administrativa denunciada e condenada pelo esquema desde o mensalão? É claro que ninguém sabia, não é mesmo?

Recentemente, através de delações e contas interceptadas, as doações feitas à campanha da chapa Dilma/Temer foram desmascaradas como sendo destinatárias a inúmeros esquemas de caixa dois da Odebrecht. Adivinhem: eles não sabiam…

Somos partícipes da geração mais cega e incompetente da história humana, a geração política que mora na boca-de-fumo, mas não sabe que lá se trafica. Os políticos desfrutavam dos prazeres do dinheiro, mas iriam saber de onde surgiam as doações e agrados? Nunca! Afinal, como eles poderiam ter a consciência disso?

Lula e o cenário político brasileiro

Se é o que diz…

É possível perceber a cada dia a dissimulação, a verdadeira praça de teatro criada no terreno político brasileiro. Depois do fracasso retumbante da gerência estatal da economia promovida pelo PT, sabemos que a descentralização é urgente, mas como realizar isso se a consequência será acabar com os cabides de emprego? Pois bem, então vamos dizer que apoiamos a iniciativa privada ao mesmo tempo em que a travamos em camadas impenetráveis de burocracia estatal. Vamos dar liberdade ao mercado enquanto sufocamos o Uber com sindicatos e burocracias tolas. Vamos formar nossas crianças numa educação verdadeira, mas como? Doando cartilhas sexuais ao ensino fundamental. Esqueçam a matemática, português e história. Afinal, por que aprender isso? Não vamos formar civis, mas militantes, eis a solução educacional e social.

Somos a geração do “tapa buraco”. Nós percebemos o problema, que está na ausência de ética no comando político. Sim, é isso mesmo. Mas a solução que se dá para a reforma política é o voto fechado, o sistema de voto mais escuso que existe. O problema do Brasil é sim a violência compulsiva, mas a solução arrogada é a desmilitarização e a desmoralização da Polícia Militar (PM). A polícia não dá conta de proteger a todos, isso é real. No entanto a proposta para essa aporia foi o desarmamento da população que agora se encontra refém de bandidos que possuem fuzis, enquanto temos nossa imponente faca de cortar pão francês.

Em linhas gerais, o caso da política brasileira é que vivemos em uma batalha de concepções contraditórias. Percebemos o problema, mas ainda assim, como um esquizofrênico, não conseguimos tomar decisões cabais de mudanças reais, pois estamos presos numa realidade ideológica paralela. Ficamos confusos e perdidos em meio a tantos discursos contraditórios que passamos a achar completamente normais. Um socialista rico como Lula chamar os empresários de burgueses; vemos Ciro Gomes, um desarmamentista, dizer que receberia o Juiz Sérgio Moro na bala. A contradição em nossa sociedade parou de ser sinônimo de erro, hoje nós convivemos com tais fatos como se fossem coisas completamente normais.

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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