Por que os carros são tão caros no Brasil?

Por:Leandro Marcondes
Colunas

09

Sep 2016

Por que os carros são tão caros no Brasil?

Os carros no Brasil têm um preço consideravelmente elevado em relação aos carros dos outros países do mundo. O objetivo deste texto é demonstrar os motivos desses altos valores, identificar as verdadeiras causas e os efeitos desse excesso de preço.

É bastante comum ouvir dois argumentos para explicar esse preço excessivo: os altos impostos e a ganância dos empresários. Mas devemos verificar.

Não há dúvidas de que o excesso de impostos eleva o preço dos automóveis no Brasil. Um carro no Brasil tem, em média, 50% do seu valor em tributos, variando de acordo com os impostos estaduais e o modelo do veículo, podendo chegar a 54,8% do seu valor apenas em tributos. Isso conta o IPI (Imposto sobre Produtos industrializados), o ICMS (Impostos sobre Circulação de Mercadorias e Serviços), PIS (Programa de Integração Social), CONFINS (Contribuição para Financiamento da Seguridade Social), entre outros.

Para entender essa dinâmica, darei dois exemplos: O Fiat Pálio e o Hyunday HB20. O Fiat Pálio  – veículo que custa R$ 24.623,00 nas concessionárias brasileiras (sem nenhum acessório) seria comercializado por R$ 11.746,00 se fosse isento de tributação. Já o Hyundai HB20, de R$ 36.614,00 seria vendido por R$ 17.465,00. Ou seja, um Fiat Pálio seria comercializado pelo equivalente a 13,34 salários mínimos, enquanto o HB20 seria comercializado por 19,85 salários mínimos (R$ 880,00 em setembro de 2016). Esse valor, sem tributação, tornaria possível para pessoas de média para baixa renda adquirirem um carro novo, direto na concessionária. Seminovos, então, estariam ao alcance da grande maioria da população.

Para fazer uma comparação entre a tributação brasileira e a de outros países, utilizarei os dados da Anfaeva (Associação Nacional dos Veículos Automotores). Na Itália, por exemplo, os tributos sobre os automóveis giram em torno de 22% do valor do veículo, enquanto na Alemanha este valor é um pouco menor, 19%. Em países como Estados Unidos e Japão os tributos estão abaixo dos 10%. São 7,5% e 5% do valor do automóvel, respectivamente.

O Brasil é campeão de tributação na América Latina. Países como México (16%), Chile (19%) e Argentina (21%) possuem uma tributação bem menor que a brasileira.

Diante de tais dados, é impossível não afirmar que os tributos são a variável que mais impacta no preço final dos carros vendidos dentro do Brasil. Mas este não é o único motivo de estarmos em sexto lugar no ranking de veículos automotores mais caros do mundo. Veremos agora outros motivos.

O Mercado Automobilístico Brasileiro, apesar de figurar na oitava posição no ranking mundial de produção de veículos automotores, sofre com a baixa competitividade com relação a outros países. Para se ter uma ideia, o Brasil conta hoje com 25 marcas de fabricantes de automóveis (veículos leves). Países como os Estados Unidos da América são bem diferentes. Só em termos de fabricantes nacionais o país conta hoje com mais 190 fábricas (incluindo as de personalização), sem considerar as empresas estrangeiras instaladas naquele país. Essa proporção tão maior não se restringe aos Estados Unidos. O Reino Unido tem algo em torno 196 fábricas nacionais. A Alemanha conta com mais de 90.

Além desta discrepância no mercado automobilístico nacional, o Brasil ainda mantém outra barreira de entrada que impede o aquecimento do mercado nacional e a impulsão dos preços para baixo em decorrência da competitividade. Esta barreira chama-se tributos sobre importações. Esses tributos, que vigoram entre os mais altos do mundo, não apenas elevam o preço dos automóveis importados pela tributação direta, como também acabam retirando o incentivo das empresas instaladas no Brasil em reduzir tanto seus custos de produção (aumentando sua produtividade), como sua margem de lucro, oferecendo, assim, um veículo com preço mais alto para o consumidor final.

As empresas não vêem nenhuma ameaça de os consumidores médios buscarem produtos fabricados em outros países, justamente por que o governo impede que estes produtos sejam financeiramente atraentes aos consumidores nacionais.

Podemos fazer uma simulação do impacto do IPI no mercado nacional e no norte-americano: O brasileiro, ao importar um veículo de outro país, pagará em torno de 35% de imposto sob importação (este número varia de acordo com o modelo). Quando incluímos os outros tributos já mencionados acima, o valor final chega a 100% do valor do veículo importado.

Exemplificando: caso queira importar um veículo dos EUA, o consumidor brasileiro pagaria o Imposto sob Importação, além de IPI, PIS, COFINS e ICMS que são calculados em cascata  _ tributo incidindo sobre tributo_   o que representaria aproximadamente 80% do valor do mesmo. Mas isso não para por aí. Você ainda teria que pagar a declaração de importação, a fatura comercial, os DARFs dos impostos, pagar a taxa para retirar o veículo da alfândega e, aí sim, o valor já representaria 100% do valor do veículo. Mas não se esqueça de pagar o emplacamento no DETRAN, licenciamento, seguro DPVAT e o IPVA.

Outro fator que torna os carros nacionais mais caros é a lucratividade das empresas nacionais em comparação com as empresas do restante do mundo. A margem de lucro no Brasil costuma chegar a até 300% superior que no restante do mundo. Isso é sempre atribuído à ganancia dos empresários, e nunca analisado em outros termos.

As leis de mercado explicam muito bem essa brutal diferença.

O brasileiro, apaixonado com carro que é, está disposto a desembolsar valores maiores para adquirir um veiculo do que outras pessoas estão dispostas a pagar no restante do mundo. Isso, consequentemente, eleva os valores dos automóveis (em microeconomia, esse excedente entre o preço real e o preço de venda é chamado de “valor reserva”, e toda indústria é capaz de calcular este valor para implantar preços que elevem sua lucratividade). Não podemos atribuir esta elevação de preço somente à ganancia empresarial em querer explorar o consumidor brasileiro. Não é bem assim que as coisas funcionam.

Se eu tenho um produto que me custou R$ 10,00 para produzir, e tenho pessoas dispostas a pagar R$ 20,00 por este produto, nada mais natural que eu venda o produto pelo preço que o consumidor deseja pagar.

Uma pesquisa feita pelas empresas Mintel e Ipsos Observer Brazil, constatou que sete em cada 10 brasileiros estão dispostos a pagar maiores valores por produtos considerados de grife. Isso inclui carros, roupas e perfumes. Os mesmos sete em cada 10 afirmaram que preço é um sinônimo de qualidade.

O automóvel para o brasileiro é mais que um mero meio de locomoção, é demonstração de status e acessão social. É um aspecto cultural característico do País. Um veículo automotor representa ser bem visto por outras pessoas e, quanto mais caro o carro, maior o status do motorista.

Se o brasileiro não compra apenas um meio de locomoção quando adquire um automóvel, mas também um status social, é evidente que empresas não venderão apenas um meio de locomoção, mas também um meio de ascensão social. E obviamente isso tem um custo.

Podemos apontar outros fatores que também impactam no preço dos carros brasileiros, como o custo de maquinário que são em grande parte importados, tendo seu valor sensível ao dólar (além dos impostos de importação sobre estes bens de capital), a alta tributação dos salários dos trabalhadores das fábricas, e tudo isso em conjunto acarreta em aumento do custo de produção. Outro fator não menos importante é a condição dos portos e estradas brasileiras: a infraestrutura logística nacional é uma das mais caras do mundo e, portanto, os custos de transporte impactam no valor dos bens de consumo, dentre eles os automóveis.

Mas estes últimos custos citados acima são quase insignificantes em vista dos outros fatores que constatamos.

A partir deste texto podemos concluir que existem três fatores cruciais que tornam o carro brasileiro um dos mais caros do mundo: tributos, barreiras protecionistas e lucratividade empresarial (ou seja, os altos valores que os consumidores brasileiros estão dispostos a pagar por um carro). A solução para estes três casos dependem de reforma tributária, menor intervenção do Estado e uma mudança drástica no comportamento do consumidor de veículos, de forma que ele adquira um automóvel de forma mais racional e menos emotiva.

 

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Leandro Marcondes

Graduando Engenharia de Produção pela FIP-MOC, voluntário em causas em defesa das liberdades individuais e econômicas. Cofundador do grupo de estudos liberais O Quinto.

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