Ou o pão, ou o circo: Carnaval não é prioridade

Carnaval

Por:Pedro Henrique
Colunas

01

Mar 2017

Ou o pão, ou o circo: Carnaval não é prioridade

Nós conseguimos medir a eficiência governamental de um país através de vários fatores e um deles é a partir de sua capacidade de priorizar o que é necessário. Não fez sentido, por exemplo, o Brasil gastar 25,5 bilhões de reais na Copa do Mundo, sendo que existem leitos em hospitais do país que sequer possuem camas ou medicamentos básicos. Não há como julgar satisfatório um Estado que gasta mais de 1 bilhão de reais por ano com luxos e mordomias para 513 deputados, enquanto moradores do sertão da Paraíba tenham que mendigar um litro de água porque o governo brasileiro não é capaz de terminar, sem sangrias corruptas, a transposição do rio São Francisco.

E isto não se dá somente por uma lacuna de ingerência na administração pública, mas é uma maneira de agir que envolve conchavos de corrupção, favores e acórdãos. Não nos é possível recordar um governo no Brasil que tenha enxugado, de fato, o aparato estatal, gastando a verba pública estritamente com o necessário. O slogan que carregamos como “país do Carnaval e do futebol”, é antes uma simbologia de nossa vergonha. Pois somos o país do Carnaval e do futebol porque achamos mais digno colocar uma enxurrada de dinheiro público em desfiles carnavalescos e estádios monumentais que agora estão largados às traças, do que reformar hospitais, pagar salários dignos aos policiais e valorizar os nossos professores.

No entanto, há de se reconhecer a importância cultural do Carnaval em nossa nação e, por isso, a crítica não é dirigida às festanças carnavalescas ou aos foliões, mas sim ao Estado, que gasta de maneira irrestrita e irresponsável nesse evento mesmo tendo outras demandas infinitamente mais urgentes para cuidar.

O Estado não deve priorizar seus gastos no Carnaval, possuindo tantos problemas de primeira estância para gerir. Além do mais, há outras maneiras de viabilizar a organização das festas, por exemplo, privatizando vários setores da coordenação, como pretende fazer Dória em São Paulo.

Não temos números exatos do que o Governo Federal gasta anualmente de verbas públicas para o Carnaval, mas sabemos que não é pouco. Basta ser minimamente observador para perceber que todos os aparatos que envolvem o Carnaval brasileiro não são feitos com dinheiros de chicletes. Em 2013, o UOL fez um levantamento dos gastos públicos dos estados da federação com o Carnaval, e somente o Rio de Janeiro, esse mesmo estado que se encontra agonizante e em vias de morte sistêmica, gastou 35 milhões de reais.

Poderão argumentar que o Carnaval traz lucros ao país. Veja, devemos nos perguntar se isto é totalmente verdade, primeiramente, traz lucros para quem? Para aquele que fica em casa, por exemplo, não traz lucro algum. Um senhor de 85 anos, aposentado, não utilizará o Carnaval em seu proveito, porém, ele ainda assim financiará essa festa com o pagamento de seus impostos. Esse mesmo senhor, muito provavelmente, encontrará filas de perder de vista na UBS (Unidade Básica de Saúde) de seu bairro, dificuldades para encontrar medicamentos na Farmácia Popular, além das corriqueiras dificuldades encontradas por conta da sua mísera aposentadoria. Mais do que isso, esse senhor será obrigado a ouvir de muitos que o gasto do Estado com o Carnaval é uma prioridade cultural, ao mesmo tempo em que ele espera há meses que seu remédio para hipertensão chegue à rede pública.

Como bem disse Wagner Vargas ao jornal Gazeta do Povo: “Alegar que o carnaval é rentável até pode ser verdadeiro. Mas é uma afirmação que, por si só, desconstrói argumentos em defesa da aplicação de dinheiro público para os desfiles. Ora, se é algo lucrativo, para que, então, é necessário que se utilize recursos do contribuinte?”.

Seria melhor deixarmos isso para a iniciativa privada, pois existem empresas que lucram muito com o Carnaval. E se realização das festas é de interesse dessas empresas, que elas providenciem as verbas. Confio, ainda, que a organização do Carnaval melhoraria muito nas mãos da iniciativa privada.

Se, por algum milagre dantesco, ano que vem não gastássemos sequer um real das verbas públicas com o Carnaval remanejando tais verbas para a saúde, educação e segurança, conseguiríamos vislumbrar o verdadeiro mar de dinheiro que é despejado em coisas secundárias.

A realidade é que enfrentamos anualmente catástrofes na segurança pública, como a do Espírito Santo, iniciada pela a incapacidade gerencial do Brasil de valorizar seus homens da segurança. O Rio de Janeiro beira a falência estatal, sem dinheiro sequer para pagar os servidores mais básicos para o funcionamento do aparato público. Minas Gerais tenta descobrir um milagre econômico para desafundar as contas públicas das penumbras da má gerência. Enfim, enumerar todos os sistemas caóticos do Brasil num texto só é uma missão mais do que impossível.

O que o Brasil não compreende é que o Estado-nação foi feito, primariamente, para gerir os serviços básicos de um país: saúde, segurança e educação, os três pilares de qualquer sociedade organizada. Estas são as prioridades, esses são os gastos com os quais as verbas públicas deveriam se ocupar. O dinheiro público para projetos culturais deve ser empregue em demandas culturais quando o povo possuir condições básicas de vida. Afinal, odiando ou amando o Carnaval, convenhamos, sem saúde e segurança minimamente estruturadas, pular Carnaval seria como tocar violino enquanto Roma pega fogo. Ademais, lembremos, o Estado não gera riquezas, esta é a lei primária da economia, ele vive basicamente da extração de recursos monetários dos trabalhadores. Até mesmo as estatais só existem porque homens trabalham, e não homens trabalham porque as estatais existem.

O discurso de que “o Carnaval faz parte da cultura popular do país e o Estado deve cuidar e priorizar sua identidade cultural” não é válido quando vivemos num país que possui os mais baixos níveis de educação do mundo, com o sistema de saúde em farrapos e a segurança pública trabalhando com armamentos que disparam sozinhos. Dizer que a cultura carnavalesca é prioridade beira a insanidade criminosa! Do que adianta a cultura popular se a população está desempregada? Para que serve o Carnaval se a população não possui saúde de qualidade? Qual a utilidade das fantasias e das avenidas cheias de carros alegóricos se as nossas escolas são fábricas de analfabetos?

Prioridade, Brasil. Prioridade!

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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