O limbo é no Brasil

Corrupção no Brasil

Por:Pedro Henrique
Colunas

30

May 2017

O limbo é no Brasil

Cada vez que a crise desce mais um pouco nesse patamar de ruínas chamado Brasil, percebemos o quanto a corrupção não era somente um desvio de conduta reservado àqueles menos aptos a assegurarem a limpidez de seus comportamentos. O discurso corrente já foi o de que apenas “alguns eram corruptos”. Aos poucos, começamos a vislumbrar que quase todos eram partícipes dos esquemas corruptivos, e pior, que os esquemas corruptivos faziam parte do modus operandi da República brasileira.

No romance “Luz em Agosto”, de Willian Faulkner, o romancista estadunidense narra as estórias entrecruzadas de Lena Grove e Joe Christmas. Lena é uma branca, grávida, ludibriada pelo pai de seu filho, que disse a ela que iria para longe buscar um novo emprego e que, quando encontrasse, mandaria buscá-la. Não honrando sua palavra, Lucas Burch — pai da criança, que depois mudaria seu nome para Joe Brown para não ser encontrado — dispensou Lena ao acaso fortuito. A moça se vê obrigada a ir atrás do pai de seu filho, a pé, por entre as estradas do Misssissippi. Joe Christimas — o segundo personagem principal da trama — é um jovem adotado e atormentado pela crença de que possui sangue negro em suas veias, além do remorso de ter matado seu pai adotivo e cometido outros crimes que reafirmavam a sua paranoia sobre sua origem afro-americana.

A história política brasileira se assemelha em alguns aspectos desse enredo. Lena representa a potencialidade que nosso povo possui. Lena é a nação brasileira, que caminha a pé entre as estradas da realidade política, uma grávida prestes a conceber uma nova geração de mentalidade diversa do rigorismo tolo do reacionarismo militarista e da atabalhoada crença relativista do socialismo moderno. Essa nova geração poderá ser educada na virtude da prudência, tornando suas capacidades intelectivas uma substância afastada dos extremos polarizados ao mesmo tempo em que se tornam pessoas de caracteres honrados de brios ilibados. Acreditamos que essa nação pode parir uma linhagem de pessoas que enxergam a corrupção como sendo uma fossa fétida de vergonhas, e não como instrumento dos aptos, como malandragem dos safos.

Lena é essa mulher-nação, que encuba em seu próprio ventre a chance de recolocar a ética e a moral acima dos desejos partidários, acima de qualquer regalo criminoso. Mesmo traída por aqueles que juraram que iriam cuidar dela, essa nação ainda é capaz de dar origem à vida nova, cauterizando, assim, a sangria velha.

Vivemos numa era de transição de mentalidade, transição essa que ainda não acabou e só findará no Pós-PT, após a era Temer — sim, afinal, quem escolheu Michel Temer para vice? Nessa velha era — na qual ainda vivemos — existem homens criados na mentalidade de que vale tudo em busca da “justiça social”, que se apegam ao famoso ditado de que “os fins justificam os meios”.

Aquele racismo tolo germinado na consciência de Joe Christmas é a mesma ressaca que vivemos após algumas eras de corrupção como sistema de governo. Passamos a crer que a corrupção é algo inato à própria existência substancial do nosso povo, algo simbioticamente ligado ao tronco do ser-brasileiro. Passamos a aceitar que a corrupção é necessária para bem governar do país, alegando que “assim sempre foi, e assim sempre será”. Dessa maneira, cremos que nossa República — e quiçá a nossa própria nação como um todo —, está inevitavelmente fadada ao fracasso compulsório, assim como Christmas acreditava que seu sangue negro lhe fadava à miséria existencial.

O sangue negro de Christmas era a justificativa para a sua falta de caráter da mesma maneira que a corrupção como “algo inevitável” é a alegação usada para legitimar a nossa safadeza cotidiana ao, por exemplo, não devolvermos o dinheiro que caiu da carteira de uma senhora no caixa da Lotérica. Ou, até mesmo, o mesmo argumento que o senador Aécio Neves usará para justificar, posteriormente, o seu pedido de dois milhões de reais ao empresário Joesley Batista, da JBS.

O nosso povo carrega a possibilidade de novos ares. Carregamos em nosso bojo a virtude de dar à luz a um novo caminho político, onde a corrupção não só será punida, mas verdadeiramente rechaçada de nosso meio. Ainda que grávidos e maculados pela traição daqueles que deveriam gestar conosco uma nova e verdadeira República, estamos caminhando entre o passado e o futuro na busca de encontrar firmamentos para amarrar nossos cavalos. Nessa ida e vinda, entre conservadorismo e liberalismo, temos apenas uma certeza: o modelo ideológico que nos guiou nas últimas décadas, após a era de militarismo, falhou. Aqueles que se levantaram como heróis da modernidade brasileira se deixaram levar por seduções tão antigas quanto o próprio Éden. Tais homens, arautos da justiça social, intelectuais e sindicalistas do povo, homens de punhos cerrados, olhos franzidos e peitos estufados, gritavam como verdadeiros revolucionários — como soldados da última trincheira de Paris. Vestidos de um vermelho lúgubre, olhando com olhares de vitória, assumiram o poder, pegaram o bastião da glória com a chance de construir uma nova política afastada do câncer antigo da corrupção, mas aquilo que cultivaram foi a condenação popular de suas fraquezas de caráter, colocaram em estandartes as imagens de suas vergonhas. A velha gangrena que derrubou satanás jazia novamente pulsando nos corações daqueles que juravam sentar-se em tronos de reis em favor dos pobres.

O romance brasiliense mostra-nos quão pútrida está a confiança da população na classe política. A corrupção não é mais um desvio de conduta, é a própria práxis da ação política no Brasil. Percebemos que há pessoas que não sabem administrar sem corrupção, como se ela fosse a prótese que permite o Estado funcionar. A perversão social tornou-se método de governo e já existe quem confunda política com corrupção.

Quando nossos filhos nascerem, quando os novos ares baterem, devemos com justiça lembrar aqueles que tomaram de nossa nação a sua dignidade mais profunda. Devemos dar nomes aos nossos demônios para vencê-los. Devemos cintilar com nossas vozes aqueles que enterraram na vergonha a honradez desse povo que acorda cedo e dorme tarde para alimentar suas famílias. Mataram nosso povo de uma maneira lenta, deram 200 reais de Bolsa Família por mês, roubando-nos infinitamente mais para regar os bolsos de políticos ao redor da América Latina. Drenaram o sangue dos sindicalistas que juraram defender, doando-o para financiar portos em outros países.

Tudo isso nos faz crer que a política no Brasil sobrevive de mentiras, de corrupção, de rasgos cada vez mais profundos nas feridas do nosso povo sofrido. Enquanto não tivermos a ousadia de gestar uma nova era, onde o malandro não é cultuado como esperto e o honesto não é debochado como “mané”, teremos um ciclo necrosado de homens que se acham no direito de matar seu povo em troca de uma casa à beira-mar. Eles fizeram suas próprias estradas para o limbo, construíram sobre o suor brasileiro seus castelos, sítios e tríplexes.

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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