O grito de uma venezuelana

Liberdade para a Venezuela

Por:Pedro Henrique
Colunas

24

Apr 2017

O grito de uma venezuelana

Na coluna dessa semana conversamos com uma venezuelana engajada nas manifestações contra Nicolás Maduro. Iremos nos referir a ela como “Alpha”, nome fictício que visa resguardar sua identidade. Mas esse é também um nome simbólico. Que ela seja a primeira — a Alpha — a encerrar o silêncio e o medo. A primeira a descer às masmorras e denunciar a tirania desse ditador bolivariano que está engolindo o seu povo.

Alpha é uma mulher de 58 anos, moradora do estado Zulia, envolvida com as manifestações, amiga de militares e políticos opositores a Maduro. Passa por dificuldades econômicas extremas, as mesmas dificuldades corriqueiras que a população de classe média e baixa vive na Venezuela atualmente. Os venezuelanos estão sendo calados e espionados, cada dia mais emudecidos em suas casas, sem direito algum de expressão, a não ser pelas redes sociais. Porém, ela nos confidenciou que mesmo nas redes sociais existe espionagem.

(Para entender a crise venezuelana mais a fundo recomendamos que leiam o texto: Venezuela: “o socialismo que deu certo”).

A entrevista foi realizada por WhatsApp e, por um pedido de Alpha, os prints da conversa não serão publicados. Colocaremos a transcrição das perguntas e respostas. Sua fala estará em itálico e a nossa em negrito — a tradução é livre. Tanto a nossa fonte, quanto o contato que nos apresentou à Alpha, serão mantidos em segredo.

As informações que ela relata, em muitos dos casos, são extraoficiais pelo motivo óbvio de que o governo venezuelano controla a mídia e mantém um sistema de repressão e espionagem dos opositores. A entrevistada relata mais de mil opositores presos, quase uma centena de mortos e outros desaparecidos.

Não vemos outra maneira de agir com justiça senão deixar com que ela fale abertamente, da forma em que ela deseja, com a liberdade que lhe falta em seu próprio país. Seria irresponsabilidade classificar os relatos como exagerados ou não, pois a Venezuela reprime os jornalistas, a mídia trabalha dia e noite com a censura em seu encalço, o governo cala seu povo de maneira ditatorial e os indivíduos são afugentados. Vale a pena ler o que Alpha tem a dizer.

 

Entrevista

ILMG – Você me autoriza a usar as informações que você está me passando? Guardando a sua identidade, é claro.

Alpha – Você pode usar minhas informações, mas não dizer o meu nome, como você disse coloque “Alpha”.

 

ILMG – Peço que responda as perguntas, de maneira direta, com experiências pessoais ou de amigos.

Alpha – Sim.

 

ILMG – Quais as dimensões dos protestos contra Nicolás Maduro na Venezuela?

Alpha – 99% dos venezuelanos não querem este regime castro chavista.

 

ILMG – Após o golpe de Maduro, existe controle de opinião, seja midiático ou pessoal, falta liberdade para a população?

Carecemos de liberdade de opinião, eles retiraram as TV’s de notícias, só nos inteiramos das coisas pelas redes sociais.

 

ILMG – Aqui no Brasil vemos que ainda existem aí pessoas que apoiam Maduro. Quem são eles?

Alpha – Ninguém. Ele possui apenas 1% da população que tem ameaçado.

 

ILMG – A força nacional está reprimindo a população desarmada com armas letais? Isto se confirma?

Alpha – Sim está reprimindo o povo desarmado, eu sou testemunha, pois sábado (15/04) tivemos uma grande marcha, mais de 6 milhões de pessoas e eu fui testemunha de como o exército lançou gás lacrimogêneo em uma marcha que havia muitos velhos, idosos e crianças, as pessoas apenas andavam e rezavam o Pai-Nosso. Isto é mais do que certo pois eu estava ali.

 

ILMG – Há dissidentes no exército, pessoas que não apoiam Maduro?

Alpha – Desde a noite passada (20/04) está se colocando contra Maduro, é o que eu ouvi, eu tenho um amigo coronel na Força Aérea que está me informando. Não posso dar nomes.

 

ILMG – Vocês já contabilizam o número de manifestantes mortos pela repressão de Maduro?

Alpha – Os números oficiais do governo são de 6 pessoas, mas a verdade que não tem sido aceita pelo governo é que já passam de 60 mortos, ontem à noite mesmo morreram 30 militares e assassinos contratados pelo governo.

 

ILMG – Esses militares mortos são aqueles contrários ao governo Maduro?

Alpha – Sim são contrários a Maduro.

 

ILMG – Existe algum tipo de espionagem do governo para descobrir os líderes das manifestações? Como estão sendo tratados os opositores?

Alpha – Sim existe espionagem e muito pelo grupo G2 que são cubanos, que tem nos vigiado. Te conto que são mais de mil pessoas inocentes presas por este governo.

 

ILMG – Alguma mensagem aos brasileiros?

Alpha – Pedimos que as forças internacionais, invadam a Venezuela e tirem do país o Maduro preso e todos os ministros, grupo G2, os assassinos e narcotraficantes, eu lhes imploro, tirem a ditadura de nosso país. Deus vos abençoe, Alpha. O que te escrevi é confirmado. Há militares contra, mas são poucos pois estão sendo espionados pelo G2.

 

A Venezuela está em guerra civil, ainda que a população não tenha se armado ou que não tenha recursos militares em seu apoio. Mesmo assim, a grande população declarou guerra contra a investida ditatorial de Maduro. A mulher desarmada que peitou o blindado da força nacional bolivariana é o símbolo dessa guerra desigual e mostra a coragem do virtuoso e bravo povo venezuelano.

A força do governo de Maduro reside apenas nos militares, entretanto, até mesmo este setor já mostra sinais de desgaste, começando a colocar em xeque a capacidade de governança do ditador. A informação de Alpha de que há dissidentes militares nas forças venezuelanas parece se confirmar através de algumas poucas fontes que existem no jornalismo oficial brasileiro. O Globo trouxe a informação de que, recentemente, militares opositores à Maduro foram presos — além de presos políticos e ativistas opositores, que também foram detidos. O G1 noticiou que em apenas alguns dias de manifestações foram mais de 100 ativistas contrários ao governo presos. O que não deixa o número de “mil opositores presos”, dito por Alpha, como algo exagerado ou descontextualizado da realidade. Muito pelo contrário.

Levando em conta que as manifestações são praticamente semanais — em alguns casos elas acontecem mais de uma vez por semana —, os dados indicados pela venezuelana parecem confirmar os fatos. Outras informações fornecidas por Alpha também parecem se confirmar, como o caso do G2, grupo controlado por Cuba e responsável por espionagem e contraespionagem. Suas atuações em solo venezuelano parecem ser mais reais do que mera especulação ou opinião inflamada. Aliás, tal relação já é antiga e já fora denunciada pelo El País em 2014.

As afirmações de Alpha são duras e de uma precisão real que mostra como a Venezuela se afunda num caos real e assustador. Hoje não restam dúvidas de que a o país caribenho vive uma ditadura, se afundando numa repressão militar sem igual na história democrática do país. O jornal Público, de Portugal, já havia relatado seu espanto com a crescente força militar repressiva do governo de Maduro e isso vem se confirmando. Na página “SOS Venezuela”, no Facebook, podemos acompanhar notícias, vídeos e relatos de pessoas que convivem com a tirania de Maduro. Relatos que muitas vezes não saem na mídia convencional e que reforçam as falas de Alpha, que enfatiza que as redes sociais são os únicos veículos de informação livre dos venezuelanos.

Que essa entrevista não seja apenas um grito no escuro, ainda que singela e curta. O medo de Alpha é mais uma tarja que o governo venezuelano lhe impôs, não deixando com que ela desse mais detalhes e por vezes se tornasse até mesmo hostil aos questionamentos mais profundos sobre a sua vida e atuação. Talvez, para muitos, será um relato desinteressante ou mentiroso, mas a nós parece ser uma voz destoante da maioria silenciada, uma coragem que se sobressai às outras e vem nos mostrar os frutos do marxismo bolivariano. Não haveria motivação para a exposição, não seria inteligente de sua parte mentir contra uma ditadura morando no país em que a ditadura acontece, não é inteligente denunciar o que ela denunciou vivendo num país em que a pena de ser opositor do governo é a prisão e a hostilidade militar. A única conclusão sensata que podemos levantar é de que seus relatos são verdadeiros ou ao menos transmitem as convicções de grande parte de seu povo.

A Venezuela caminha a passos largos para uma ditadura cada vez mais sangrenta. Fechar os olhos e fingir que está tudo bem é uma forma de ajudar a apertar o gatilho que todos os dias Nicolás Maduro insiste em puxar contra o seu povo. Que a ONU saiba disso antes que tenhamos mais uma Cuba. Antes que tenhamos mais uma ditadura arraigada na América Latina.

 

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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