O denominador comum dos empreendedores é não ter medo do fracasso

Por:Rafael Vargas Pontes
Colunas

16

Nov 2017

O denominador comum dos empreendedores é não ter medo do fracasso

Muitos acreditam que empreendedores são pessoas que ao acordarem num belo dia, tropeçaram ao sair da cama numa ideia que vagava por ali e se tornaram ricos com o desenvolvimento financeiro daquele tropeço. Puro acaso, pura sorte, dizem. Outros acreditam que empreendedorismo é uma atividade contemplativa, de análise do momento e espera pela oportunidade, como se, também, ao sabor do acaso as oportunidades aparecessem para pessoas aleatórias. E há ainda alguns que veem nos empreendedores as pessoas que corresponderam sempre corretamente a todas as provas do mercado, acreditando ser o empreendedorismo uma “teologia do sucesso”[i]. Por defenderem esta ideia desconectada da realidade, dividem as pessoas entre ganhadores e perdedores, sendo o céu dessa “teologia” uma vida cercada de bens materiais e felicidade, e o inferno relativo à ruína e ao fracasso financeiro.

Porém, diferentemente das formulações anteriormente mencionadas, o empreendedorismo não se perpetua por consecuções de acidentes, muito menos pelo atendimento exclusivo das necessidades daquele que empreende. Na realidade, o fenômeno se dá justamente quando um indivíduo coloca em primeiro lugar o serviço daqueles que o cercam, atendendo as necessidades destes, para então usufruir da contrapartida do serviço prestado. E olhando este fenômeno social pela ótica correta, é possível perceber que existem diversos tipos de sacrifícios por traz de quase todas, se não todas, as ações empreendedoras. Comumente chamamos esses sacrifícios de investimentos, os quais podem ou não render retornos financeiros. Observadores menos familiarizados acabam entendendo como investimento apenas o montante financeiro que é necessário para o desenvolvimento de um negócio e essa interpretação meramente financeira, faz com que abordagens não-holísticas ganhem força.

O ato de empreender, contudo, envolve esferas de investimentos com alto grau de complexidade na mensuração. Por exemplo, o conhecimento é um investimento altamente abstrato, mesmo quando o retorno financeiro não se realiza em um negócio, ele remunera o empreendedor de forma extraordinária. Toda vez que um indivíduo age para o desenvolvimento de um negócio, ele inicia sua ação com um conjunto de informações sobre o mercado, ou seja, um tipo de conhecimento. Nesse caso, obter lucro[ii] com essa ação é a confirmação de que o seu conhecimento não só era válido como também aplicável às necessidades dos demandantes de seus produtos naquele momento. Se por outro lado não se obtém lucro com os investimentos, incluindo o do conhecimento, em determinado negócio, mesmo assim, o indivíduo sai dessa experiência com uma nova conjuntura de informações que podem o tornar mais hábil em sua próxima empreitada. Empreendedorismo tem a ver com metanoia, ou seja, a transformação da maneira que se pensar a partir da expansão das informações essenciais disponíveis à mente. Como forma de constatação desta realidade acercada ação humana, tem-se os estudos de David Bayles e Ted Orland, sintetizados na citação abaixo:

O professor de cerâmica anunciou no primeiro dia que estaria dividindo a classe em dois grupos. Todos aqueles que estavam do lado esquerdo do estúdio, ele disse, serão avaliados somente pela quantidade que produzirem. Todos aqueles no lado direito, exclusivamente pela qualidade. Seu procedimento era simples, no último dia de aula, ele traria seus instrumentos de pesagem e pesaria os trabalhos do grupo da quantidade. Aqueles que produzissem cinquenta quilos em peças ganhariam A, 40 quilos B e assim em diante. Diferentemente, aqueles avaliados pela qualidade precisavam produzir apenas uma peça, e a mais perfeita ganharia A. Então, quando chegou o dia da avaliação das produções, um fato curioso foi notado. Os trabalhos de maior qualidade foram todos produzidos pelo grupo que seria avaliado segundo a quantidade. E a justificativa clara é que o grupo da quantidade estava ocupado demais desenvolvendo pilhas de trabalhos e aprendendo com seus erros. Enquanto o grupo da qualidade se pôs a teorizar sobre a perfeição e ao final não tinham muito mais para mostrar como resultado de seus esforços do que teorias grandiosas e uma pilha de argila morta.[iii]

Portanto, pode-se perceber que a conceituação de sucesso e fracasso de forma atemporal utilizada pela ideia da “teologia do empreendedorismo”, cai por terra, sendo que erros e acertos fazem parte do processo empreendedor. Como exposto por Bayles e Orland, o grupo que mais se expôs ao erro conseguiu, ante as circunstâncias e exigências do meio, atingir a expectativa do avaliador (no mercado tido como o consumidor) em uma ação genuinamente empreendedora. Uma vez que, entre fracassos e sucessos, foi percebido a partir da padronização dos acertos e eliminação dos erros, a possibilidade de atender às demandas do consumidor. Assim, o empreendedorismo real, transcende qualquer ideia teológica de segregação de winners e losers, sendo um instrumento de melhoria das condições sociais através da geração de soluções e riqueza, especialmente para os consumidores, através de um processo infinito de correção e melhoria. E o prejuízo financeiro em determinado período só não definirá o sucesso ou fracasso atemporal de um empreendedor, caso ele lide com as informações adquiridas no processo, criando novo conhecimento e implementando as melhorias necessárias em sua próxima empreitada.

Ficando claro que independente de suas aspirações primeiras, empreendedores compartilham da característica fundamental de não ter medo do fracasso, mas entendê-lo como uma etapa do método pelo qual é possível ter seus desejos atendidos, se dando através da geração de bem-estar e riqueza para aqueles que o cercam.

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[i] Referência ao historiador Leando Karnal em sua palestra no CCPL, durante um Café Filosófico. A qual já foi criticada por Hélio Beltrão.

[ii] Ao utilizar a palavra lucro, refiro-me estritamente ao retorno financeiro das operações.

[iii] Bayles, D. e Orland, T. (2001) “Art & Fear: Observations on the Perils (and Rewards) of Artmaking”. Santa Cruz and Eugene: The Image Continuum.

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Rafael Vargas Pontes

Rafael é Bacharel em Administração pela Faculdade Metodista Granbery e obteve o título de Master of Arts in International Politics com mérito pela Newcastle University. Atualmente cursa MBA em Finanças no Ibmec visando aprofundar sua pesquisa sobre os impactos financeiros do intervencionismo estatal nas empresas. Já atuou profissionalmente nas áreas de mineração, infraestrutura e saúde e hoje é consultor, professor e pesquisador, focando suas pesquisas nas áreas de Ciência e Filosofia Política, Política Econômica e Administração. É autor de artigos publicados em congressos internacionais como o International Cost Engineering Council e finalista do concurso de artigos da V Conferência de Escola Austríaca do Instituto Mises Brasil. Foi indicado ao Fórum Mineiro de Administração do CRA como case de sucesso dos cursos de Administração em Juiz de Fora. Voluntariou-se junto à Igreja Metodista em 2009 e 2010 em trabalhos nas favelas do Rio de Janeiro e na Estônia. É Ex-Presidente da Ala Jovem da Associação de Alunos e Ex-Alunos do Instituto Metodista Granbery. E atualmente é tutor do Clube José do Patrocínio, associação liberal/libertária que ajudou a fundar em Juiz de Fora - MG.

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