Nem tudo é política

Nem tudo é política

Por:Pedro Henrique
Colunas

13

Feb 2017

Nem tudo é política

Devemos pontuar de forma urgente que nem tudo é política. A sociedade não se resume a jogatinas em busca de poder ou trâmites ideológicos como alegava o filósofo francês Michel Foucault. Por mais incrível que possam soar estas afirmações, podemos amar nossas mães e beijar nossas esposas sem que tais atos sejam uma insurreição iluminista ou uma revolução socialista.

Existem campos muito bem arejados em nossa civilização altamente politizada, chamam-se: convivência, familiaridade, comunhão, etc. Muitos nomes podem ser dados àquela coexistência mista e desinteressada, não ligada a nenhum elo de poder ou manipulação política. Por mais que muitos filósofos e sociólogos possam ter espasmos ao ler este artigo, ouso ir mais a fundo: acreditem se quiser, mas nem tudo é um contrato social.

Por incrível que pareça você pode trocar o chuveiro da sua vizinha idosa sem que isso seja algum contrato ou pacto social. Pode se tratar apenas um favor, a boa e velha camaradagem que dispensa transações monetárias e conchavos interesseiros. A “Dona Rosa” — sua vizinha — não te dará nada em troca do chuveiro funcionando e você não perguntará se ela quer CPF na nota. Quem sabe, talvez, ela lhe dê um bolo de fubá, mas não como pagamento, mas como agradecimento. Sim, isso ainda existe em nosso mundo.

Parece que em algum canto escuso de nossa sociedade esquecemos que há em nós a predisposição para a vivência desinteressada e unicamente ligada por afetos e carinhos. Esta teoria de que tudo é política é bem conhecida pelos regimes totalitários — e pelos ditadores desses regimes. O “grande irmão” lhe cerca por todos os lados com seus olhos e tentáculos; tudo é do Estado, nada sem governo. Nesse mundo politizado uma cantada dirigida a uma garçonete pode ser uma afronta ao Estado, colher uma rosa no jardim pode ser um ato contrarrevolucionário e um espirro pode ser o sinal para que os rebeldes tomem Paris.

Devemos afirmar categoricamente: Marx não estava certo; nem tudo é luta de classes. Direita e esquerda, Tory e Whigs, Jacobinos e Girondinos, Democratas e Republicanos, não são eles os motores da história. Exercem muita influência, é óbvio, mas nunca como motor da história. Se acreditarmos que são eles quem montam o destino de todos, por que não chamá-los de Deus? Se eles decidem o que comeremos no café da manhã, qual o sentido da vida?

Esta histeria adentrou nossas mentes e hoje não conseguimos mais olhar para nossas esposas com um batom vermelho sem desconfiar que ela seja comunista. A cor de um batom em nossa sociedade preconiza a guerra ideológica, a bandeira do Japão pode ser o indício do golpe socialista. Mentalidades como essas reinam unânimes em muitos.

Por mais estranho que seja, existe sim aquela coisa chamada “união desinteressada”, o que não quer dizer, exatamente, que não há nenhum prévio interesse nas relações humanas. Mas não necessariamente eles são interesses políticos. A questão é que ao nos unirmos às nossas amadas, não estamos estruturando nenhum New Deal e nem premeditando nenhum golpe estatal.

Aristóteles, filósofo da Grécia Antiga, afirma que somos animais políticos (o sentido que Aristóteles dá à frase é diferente do utilizado no artigo, entretanto, o sentido literal serve-nos de exemplo). E ele está certo, pois o que mais seriam aqueles que só vivem sob a égide política, a não ser animais agindo por instintos pré-determinados por diretórios e ideólogos?

Exemplo disso foi o que ocorreu no velório da ex-primeira dama Marisa Letícia, morta no último dia 3 de fevereiro. O que o ex-presidente Lula fez no velório de sua esposa é desonroso, indigno e difamante. Como acima afirmei, nem tudo é, ou deveria ser, política.

Isso não significa dizer que ele não tenha sofrido com a perda, nem que não nutrisse um sentimento verdadeiro pela ex-primeira dama, até porque não existem aparatos para julgar tal fato. Mas fazer do caixão da própria esposa um palanque, do seu velório um comício, é o cúmulo da vigarice e da insensatez.

Usando do poder do microfone, Lula se aproveitou da natural pujança emocional do momento e culpou indiretamente a Lava-Jato pela morte de sua amada. Como se a investigação que o colocou no núcleo da maior corrupção sistêmica da história, fosse a culpada — direta ou indiretamente — por causar o acidente vascular cerebral (AVC) que vitimou sua esposa. Lula deveria ter pensado no bem-estar mental e corporal de sua família antes de colocar-se no centro de comando da sangria corrupta. Se a tristeza causasse AVC’s, teríamos uns 30 por ano; se ser réu causasse AVC’s as prisões estariam vazias.

Lula deveria, neste tempo que vos resta, viver com menos política. É possível tomar uma cerveja sem pensar no seu processo de fabricação. Dá para assistir o futebol do neto sem pensar que o mercado futebolístico deveria ser mais taxado. É viável até mesmo discursar num velório sem fazer dele um ato político.

Existem duas mentes que nunca deixam de pensar politicamente em algo: os ditadores que vivem cercados de ameaças de traições e contrarrevoluções; e os militantes e ativistas, que não conseguem olhar para um empresário sem vê-lo como um capitalista das fábricas de Manchester do século XIX.

Nem tudo é política, meus caros. Às vezes, direita e esquerda não passam de indicações meramente usuais para apontar uma rua ou um sapato na vitrine.

 

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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