Não estamos sozinhos no mundo – Um comentário sobre a Parada Gay

sociedade e parada gay

Por:Pedro Henrique
Colunas

26

Jun 2017

Não estamos sozinhos no mundo – Um comentário sobre a Parada Gay

Independentemente da ideologia de cada um, todos nós concordamos que devemos ter um mínimo de sensatez civil e regras de bom convívio coletivo. Homens que fazem o que bem entendem sem levar em conta a moralidade que os refreiam frente aos outros, tendem a serem ditadores dos espaços que frequentam. Todos os tiranos agiam como queriam sem achar que deviam se pautar por uma moralidade coletiva ou por regramentos comunitários. Da negociação de um terreno à aceitação de um pedido de casamento, existem regras e princípios a serem minimamente observados – jurídica e moralmente.

Se cada um fizer o que bem entender, sem nenhum freio moral ou ético — baseados no direito comum —, a existência social se tornaria impossível, ou, pelo menos, insuportável. É possível crer que, de liberais a socialistas, dentro das ênfases que cada um dá aos seus regramentos, todos nós temos essa convicção comum: é necessário um mínimo de ordenamento social para um bom convívio coletivo.

Baseado nessa máxima é correto afirmar, por exemplo, que não temos o direito de desfilarmos nus, às três horas da tarde, numa rua qualquer de nosso bairro. Por conta de uma convenção moral e cristã? Também, mas a questão não é essa, de saber donde vem o regramento que me pede pudor perante aos outros. É ter a consciência de que uma atitude, totalmente fortuita e desconexa da realidade, pode agredir visualmente e moralmente pessoas. Não temos o direito de invadir os espaços de outrem com promiscuidades e desejos particulares.

Uma dessas regras, inatas ao nosso caráter ocidental, é saber que nossos apetites e desejos sexuais se restringem às nossas intimidades e que nossos vizinhos, parentes e amigos nada tem a ver com eles. Ainda que na era da pornografia essa regra não seja muito bem respeitada, ainda é bom concebermos que a sexualidade humana não foi feita para ser mostrada ou exercida em praças públicas. Camile Paglia afirmou no livro Sexual Personae que um dos sintomas finais da decadência de uma sociedade é justamente a sua confusão sexual e a perda de pudor social. Na Grécia antiga isso preconizou sua queda, o que também aconteceu na Roma antiga. Isso seria, novamente, alguma espécie de moralismo cristão? Não, são constatações históricas. Parece-nos que uma sociedade que está mais disposta a mostrar sua nudez e construir lupanários, é uma sociedade que não está pronta para pensar coletivamente e nem para respeitar as intimidades individuais de maneira justa. Menos ainda para se preocupar com as defesas e as degenerações de suas nações. Parece-nos, também, que quando os bárbaros invadiam Roma, a preocupação dos aristocratas, militares e imperadores era copular com suas concubinas e não defender suas fronteiras.

Outra regra social da qual todos nós deveríamos levar em conta é o respeito para com certos setores da sociedade. Isso é seletismo social, diriam alguns, mas não é. Fomos forjados numa civilidade cujo caráter disponível ensina-nos a sempre estarmos dispostos a ceder nossos lugares nos ônibus aos mais velhos e às mulheres grávidas. Nossa consciência coletiva, forjada numa moral judaico-cristã — gostemos disso ou não disso —, nos diz que a violação sexual de uma criança é abominável, assim como o sexo não consentido com uma mulher. São princípios régios de nossa sociedade que moldaram e ainda moldam nossa comunidade, prefigurando-a para uma convivência harmoniosa dentro das possibilidades.

Tendo tudo isso em conta, é possível dizer, por exemplo, que a Parada Gay, tal como ela vem acontecendo ano após ano, não é minimamente aceitável numa sociedade organizada. Não se trata de uma argumentação religiosa ou de moralismos tolos, se trata de bom senso e pudor social. Com uma rápida investida ao Google, podemos constatar nas imagens das Paradas Gays situações que normalmente seriam criminalizadas em qualquer sociedade organizada: sexo em público, nudez explícita às 15 horas na maior avenida do país em frente às crianças e velhos – tudo isso sem nenhum pudor ou respeito mínimo.

Não é preciso ser cristão para se opor a isso, é necessário tão somente a sensatez. Não é socialmente desejado que nem heterossexuais e nem homossexuais desfilem nus na frente de nossos filhos, seja na Parada Gay ou no Carnaval. Isso é homofobia? Preconceito? Não! É senso de moralidade social. Se, por acaso, eu começar a andar nu na frente de crianças, não demorará muito para que eu seja preso e indiciado, correto? Por que tal atitude então é aceita na Parada Gay? Eles possuem licença para serem imorais? Estão acima das leis? São mais iguais que os demais? Ah, Orwell, se soubesse como fostes profético.

A sexualidade não foi feita para as ágoras, rincões, avenidas e praças públicas. Não se trata de reprimir apetites sexuais ou de impedir a expressão social dos homossexuais. Trata-se de perceber que os egos e escolhas sexuais de alguns não estão acima da sociedade inteira. Homossexuais e heterossexuais não devem agir com promiscuidade em público, não devem sair nus em avenidas públicas. Se nós seremos rechaçados como preconceituosos por defender a sensatez coletiva, então acabou a sociedade organizada, voltemos para as florestas, montanhas e desertos. O indivíduo incapaz de respeitar a sociedade não pode esperar da sociedade algum respeito; não há reciprocidade.

A vida social requer regras e moralidades que determinem aquilo que podemos fazer sem agredir a liberdade e a ética alheia. Sem tais freios estaremos em pleno caos social onde grupos e/ou indivíduos sobreporão à comunidade e seu bem-estar em favor de seus gostos supremos.

Vivemos na era em que o relativismo social ganhou ares de heroísmo, qualquer coisa que aponte para uma ordem de bom convívio é vista como burguesa, opressora, etc. Entretanto, sejamos um pouco mais adultos, abdiquemos por um instante apenas da mentalidade pueril de uma sociedade guiada pelo “amor livre” — o jargão pseudo-acadêmico para barafunda imoral. Não é lícito, e nem deve ser visto com normalidade, uma passeata onde homens e mulheres se colocam nus em frente às crianças e aos velhos às 15 horas – e isso não tem nada a ver com os atos sexuais deles em suas intimidades. Que borbulhem de amor, mas que não o façam em público, repitamos: sendo eles héteros ou homossexuais.

Ainda que liberais, devemos manter a sensatez em dia. O mercado e a economia fluem de maneira livre, mas Adam Smith já dizia que havia uma mão invisível que conduzia as leis da economia. Se acharem conveniente, pensemos na moralidade social como uma mão invisível que mantém a existência comunal minimamente aceitável. Num mundo socialista, ou num mundo liberal, pedimos apenas que nossos filhos e velhos sejam respeitados nas avenidas públicas. Somos homofóbicos por isso?

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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