Não Deturparam Marx

Por:Rodrigo Jungmann
Colunas

18

Aug 2016

Não Deturparam Marx

Marx foi deturpado? Bem, vamos por partes…

 

Tomo como assente o fato de que o comunismo mata. E que matou em pouco mais de um século de existência muito mais pessoas do que qualquer outra forma de organização econômica e social. Não pretendo perder mais do que uns poucos parágrafos para rebater as alegações revisionistas de uma certa historiografia esquerdista de quinta categoria.  A julgar pelos textos que já chegaram às minhas mãos, os proponentes da tese de que o comunismo “não matou tanto assim” são invariavelmente comunistas a citar outros comunistas num exercício autofágico permanente e sem qualquer consulta a informações externas aos seus próprios textos.

A verdadeira natureza do comunismo foi estabelecida para além de qualquer dúvida, e com farta consulta a fontes primárias, por historiadores competentes, em cujo rol significativamente, se incluem alguns comunistas arrependidos. Nesta lista figuram militantes que um dia acordaram para a realidade, tais como Stephane Courtois, Nicolas Werth, e os demais autores do Livro Negro do Comunismo. Nesse elenco de notáveis estão presentes escritores do quilate de Robert Conquest, Richard Pipes, Orlando Figes, Robert Service, Archie Brown, Anne Applebaum, Norman Davies, Joshua Muravchik, Humberto Fontova e até mesmo o especialista em morticínios, o auto-nomeado atrocidologista Matthew White, entre tantos outros.

À luz do que é provado nos escritos desses senhores, não há como negar em boa-fé que o comunismo tenha sido, em todos os países em que foi adotado e sem uma única exceção, uma usina monstruosa de produção de pilhas de cadáveres. Já nem me ocupo aqui da ineficiência econômica intrínseca ao sistema. Para meus propósitos imediatos, deixo de parte a ubiqüidade da censura e da ausência das liberdades tidas como sagradas na Civilização Ocidental. Pouco caso faço, pelo momento, do estado de partido único.

Segundo os melhores especialistas em retórica, é desnecessário delongar-se em argumentos subsidiários quando se tem pouco tempo ou espaço e um único argumento é quanto basta. Reitero. O comunismo mata. A menor estimativa de fonte respeitável com que já me deparei está contida no Grande Livro das Coisas Horríveis, do já citado Matthew White. O autor cautelosamente nos fornece a cifra de 70 milhões de almas. O Livro Negro do Comunismo estima a carnificina em cerca 100 milhões de vidas extirpadas – e em tempos de paz. Houvessem sido “apenas”  70 milhões de seres humanos – por execuções, trabalhos forçados ou fome, alguém ousará dizer que o comunismo não matou tanto assim?

Assentados esses preliminares, eis-nos aqui finalmente às voltas com o tema levantado pelo título deste artigo.

Como todos sabem, o comunismo moderno é de clara inspiração marxista. Comunistas os há de todos os matizes. Entre aqueles a quem desejo chamar de “comunistas minimamente sãos” deparamo-nos com os que já desistiram de negar a realidade dos fatos históricos e se limitam, por assim dizer, a pedir mais uma chance, sob a alegação, infindavelmente reiterada, de que o comunismo real teve pouco ou nada a ver com as ideias de Marx e de seu colaborador Engels. É desse tipo de gente que parte o chavão bradado vezes sem conta e ad nauseam: “Deturparam Marx”.

Como podemos responder a essa alegação? A meu juízo, impõem-se ao menos três linhas de argumentação. Em primeiro lugar, urge ressaltar, desde já, que não se contavam na categoria dos imbecis ou dos analfabetos os intérpretes de Marx e Engels que buscaram implementar suas ideias na prática. Lênin, advogado de formação e leitor ávido do corpus marxista, era um homem singularmente dotado do ponto de vista intelectual. Stálin não se formou em nada, mas, ao contrário de um mito persistente, foi um homem de considerável cultura, em cuja biblioteca pessoal, segundo seu maior biógrafo, Simon Sebag-Montefiore, se contavam alguns milhares de volumes. É certo que Mao Tsé-Tung foi um teórico medíocre e que, como tal, teve sua obra desdenhosamente tratada por Leszek Kolakowski em seu monumental Main Currents of Marxism. Ainda assim, não faz sentido negar os seus dotes mentais. Nem os do advogado Fidel Castro. E muito menos os dos comunistas Ho Chih Mihn e Pol Pot, que receberam primorosa educação na metrópole colonial dos seus países.

E assim o padrão se repete. Pessoas inteligentes e cultas, por alguma razão misteriosa, simplesmente não conseguem entender ou cumprir o recôndito – e supostamente benigno – ideário marxista. Mas isso é mesmo possível? Se o admitirmos, temos de reconhecer de imediato que há um problema insanável no Marxismo. Com toda a evidência, seria por alguma razão inerente à sua própria natureza, o corpo teórico mais deturpável de que se tem notícia. O amável leitor, a quem não há de faltar aquele robusto bom-senso e apreço pela realidade, encontradiço em toda sorte de gente, das pessoas mais humildes às mais cultas, não se furtará à conclusão de que, se um ideal é, de tal sorte, e, por sua própria natureza, tão infalivelmente deturpável e deturpado, claro está que esse ideal não vale rigorosamente nada.

Resta-nos considerar dois outros aspectos.

O comunismo não negou, mas, muito ao contrário, implementou fielmente a determinação marxista de abolir tanto quanto possível a chamada “propriedade privada dos meios de produção”.

O ponto crucial, portanto, é que o comunismo abole qualquer separação entre poder político e poder econômico. Como disse o Prof. Olavo de Carvalho em inúmeras manifestações públicas, por escrito ou em vídeos, o poder econômico dos capitalistas só lhes pode ser tirado por um poder político ainda mais agigantado do que aquele em vigência na ordem burguesa suplantada. E, no caso em análise, veremos que o que só pôde surgir pela força, só se pode manter pela força, visto que o comunismo só pode vigorar se pela força for mantida a separação entre as duas esferas de poder contrastantes que fazem a liberdade pulsar nas democracias capitalistas. É que, extinta a distinção entre poder político e o poder econômico, segue-se inapelavelmente que um indivíduo oprimido pelo Estado não se pode socorrer na própria riqueza ou naquela de seus possíveis defensores no mercado livre. E o reverso é verdadeiro. Nas democracias capitalistas, mesmo os mais pobres podem buscar o abrigo do Estado, confiando-se num judiciário independente. Ora, no comunismo, não há judiciário independente. Comunismo, como já o disse tão sucintamente o Prof. Olavo de Carvalho, é “não ter para onde correr”.

Como todos sabem, um chavão comum entre esquerdistas de matiz diverso, expõe-se no seu hábito de fazer pouco caso das instituições burguesas, que, haveriam, segundo se diz, de necessariamente atender da forma mais servil os interesses da classe dominante. Não vi jamais entre os que bradam esse chavão a mais remota capacidade de explicar por que motivo a justiça brasileira costuma com grande frequência dar ganho de causa aos trabalhadores e não aos seus patrões nas lides trabalhistas. Ainda mais difícil, sob essa ótica, seria explicar por que o bilionário investidor Donald Trump foi, certa feita, processado   por uma senhora idosa de condição modesta e perdeu o litígio em última instância. Considere ainda, caro leitor que mora num país em que vige o direito à propriedade privada, os seguintes fatos. Nem Eike Batista, com todos os seus bilhões, pode lhe tomar sua casa contra a sua vontade. Nem Bill Gates, em toda a sua glória, pode simplesmente apossar-se a bel-prazer da fazenda de um caipira no Texas. Coisa totalmente diversa se deu nos países comunistas. Figuras tão bem conhecidas como Lenin, Stalin, Che Guevara, Fidel Castro, Ceausescu e outros tantos, uma vez implantados no poder, muito simplesmente demandaram para si mesmos dachas, mansões, ilhas particulares e palácios nababescos, sem que seus moradores anteriores lhes pudessem oferecer qualquer resistência, seja de ordem física, seja de ordem jurídica.

 

Por fim, àqueles que sustentam que Marx e Engels foram ao menos profundamente bem-intencionados e que seu ideário humanista e benévolo foi traído pelos homens práticos que teriam se esmerado em deturpá-lo, umas poucas citações de suas obras são tudo o que basta para nos livrarmos dessa edulcorada visão. Marx e  Engels simplesmente   jamais se empenharam por nenhum ideal humanitário.

 

Não me ocuparei longamente do fato de Marx ter vivido por quase toda a sua vida adulta numa dependência financeira parasitária de seu amigo Engels, abastado filho de um rico industrial. Deixarei de parte o fato de ele ter engravidado a empregada que serviu a sua família em Londres, sem jamais ter assumido a paternidade do menino proletário. Será desconsiderado até mesmo o Marx farsante, aquele que, em O Capital, deliberadamente manipulou as estatísticas acerca da condição da classe operária inglesa, tentando fazê-la parecer pior do que realmente era, como o demonstrou cabalmente Paul Johnson em seu primoroso estudo Intellectuals. Todas essas acusações, embora perfeitamente verdadeiras, poderiam levar alguns incomodados a me lançar a pecha de usuário de uma falácia de ad hominem.  Por tudo isso, meu foco será o exame do que foi inequivocamente dito por Marx e Engels em suas próprias palavras.

 

Neste ponto, valeria lembrar o leitor de que a alegação de que alguém teria deturpado Marx sugere que as belas intenções de Marx foram de alguma maneira traídas. Mas como haveríamos de atribuir intenções nobres a um autor em cujas obras são encontradas declarações tenebrosas que não diferem muito no conteúdo de assertivas de teor semelhante às de Hitler em Mein Kampf?

 

Há uma certa ironia em notar que os movimentos negros se socorrem do pensamento marxista. Talvez os seus líderes não tenham sido informados de que Marx se referiu a Ferdinand Lassalle, um rival nas hostes socialistas, como alguém cujo formato craniano revelaria uma ancestralidade negroide e cuja “capacidade de importunar é semelhante à de um crioulo” (Carta de Marx a Engels, 30 de julho de 1862, volume 41  dos Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, MECW, p. 388) .

 

Talvez não saibam os líderes do movimento negro que Marx  exaltou de forma explícita a manutenção da escravidão nos Estados Unidos em sua polêmica contra Proudhon, intitulada A Miséria da Filosofia. Ora, a Quarta Observação, contida no segundo capítulo da obra referida, nos traz o endosso de Marx à escravidão. Lá se lê que a “escravidão é uma categoria econômica da maior importância”, cuja abolição faria dos Estados Unidos “um país patriarcal” e levaria a América a desaparecer do “mapa das nações”. As citações se encontram na p. 137,  volume 4, dos  Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, MECW). Engels se expressou de maneira ainda mais chocante acerca da raça negra. Um certo Paul Lafargue pretendeu concorrer a uma vaga no conselho de um distrito parisiense que continha um zoológico. Em carta dirigida à mulher de Paul Lafargue, datada de 26 de abril de 1887, Engels não hesitou em afirmar que  “Estando na sua qualidade de crioulo num degrau mais próximo do reino animal do que o resto de nós, ele  é indubitavelmente o representante mais apropriado para aquele distrito” . A carta de Engels a Laura Lafargue está no volume 48,  p. 52,  dos Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, MECW).

A isso se poderia naturalmente obstar que Marx e Engels não eram muito diferentes de um europeu branco comum do seu tempo. Mas o que dizer da sua aversão antissemita que Marx nutria por seus ancestrais judeus? Em seu ensaio “Sobre a Questão Judaica”, Marx não hesita em denegrir a fé judaica e o povo judeu. Algumas citações servirão para ilustrar o ponto: “O dinheiro é o Deus mais ciumento de Israel e nenhum outro Deus pode competir com ele”, e ainda “Vamos considerar o judeu real, o judeu mundano – não o judeu do Sabá, como o faz Bauer, mas o judeu do dia-a-dia. Qual é a base secular do judaísmo? A necessidade prática, o interesse pessoal. Qual é a religião mundana do judeu? O trabalho rasteiro do mascate. Qual é o seu Deus mundano? O dinheiro”. O artigo completo está no volume 6 dos Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, MECW, pp. 146 a 174). Vê-se que o desprezo de Marx pelo povo judeu prefigura o tipo de linguagem estereotipada encontrada na propaganda nazista.

 

Ora, dirão talvez que Marx, como tantos judeus secularizados ilustres, tinha algum tipo de relação conflituosa com sua origem étnica, que porventura nos daria algum motivo para relevar essa passagem.

 

Não creio, contudo, que haja justificativa possível para o entusiasmo de Karl Marx por ações de terror. Segundo Marx, em seu artigo para a Nova Gazeta Renana, n. 136, datado de novembro de 1848 , “o próprio canibalismo da contrarrevolução convencerá as nações de que há um único modo pelo qual as assassinas dores mortais da velha sociedade e os sangrentos espasmos do parto da nova sociedade podem ser abreviados, simplificados e concentrados, e que esse modo é o terror revolucionário”.  Não se diga que me valho só de traduções. Esta passagem, tomada do artigo “Sieg der Kontrerevolution zu Wien”, “A Vitória da Contrarrevolução em Viena” está disponível na página 457 da coleção Karl Marx Friedrich Engels Werke, volume 5, Dietz Verlag, Berlin.

A isso se poderia obstar, é claro, que o terror preconizado aqui por Marx é uma simples resposta ao prévio terror contrarrevolucionário. É sem dúvida uma pena para os marxistas o fato de que seu herói advogava o mais duro tratamento extrajudicial possível para os seus inimigos vencidos e já prostrados diante da revolução. Em uma mensagem para o Comitê Central da Liga Comunista, publicada em março de 1850 como “Ansprache der Zentralbehörde an den Bund vom März”, Marx se expressou em palavras que seriam endossadas por qualquer monstro comunista do Século XX: “Longe de nos opormos aos chamados excessos – casos de vingança popular contra indivíduos odiados ou contra prédios públicos com os quais estão associadas memórias odiosas, o partido dos trabalhadores deve não apenas tolerar tais ações como dar-lhes direção”. (Karl Marx Friedrich Engels Werke, volume 7, p. 247, Dietz Verlag, Berlin).

 

Engels, por seu turno, não sofreu qualquer reprimenda de Marx, o editor-chefe da Nova Gazeta Renana, quando em seu artigo “Pan-eslavismo Democrático” apresentou o “ódio aos russos” como a “paixão revolucionária principal dos alemães” e quando concluiu este artigo exigindo  uma luta mortal contra os “eslavos traidores da revolução”, uma “luta de extermínio e terror implacável – não no interesse da Alemanha, mas nos interesses da Revolução” (Collected Works of Karl Marx and Frederick Engels, volume 8, p. 362). Mais do que uma apologia do terror, encontramos aqui uma defesa explícita do genocídio. Não há qualquer razão para crer que Marx se oporia a uma tal manifestação assassina, publicada num jornal que dirigia, sem que se tenha jamais registrado de sua parte o mais tímido protesto.

Diante do exposto, o bem conhecido telegrama de 9 de agosto de 1918 em que Lênin determinava que seus subordinados se entregassem a uma campanha de “terror implacável contra kulaks, padres e guardas-brancos”, tidos como elementos contrarrevolucionários, não se revela como uma deturpação dos ideais de Marx e Engels. (Telegrama para Yevgenia Bosch, Lenin Collected Works, Progress Publishers, 1971, Moscou, Volume 36, página 489).

Claramente, nenhum Lenin, Stalin, Mao, Guevara ou Pol Pot deturpou a mensagem de Marx. Antes, foram seus hábeis executores e fiéis depositários.

 

Rodrigo Jungmann

Doutor em Filosofia pela University of California – Riverside

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