A Justiça social sob a ótica de um liberal-conservador

Por:Pedro Henrique
Colunas

17

Oct 2016

A Justiça social sob a ótica de um liberal-conservador

Se há algo na política que me deixa invectivado é a crença de que as atitudes de cooperação sociais devem ser somente de diretrizes públicas. A crença de que as mudanças devam vir sempre das instituições oficiais e nunca da sua iniciativa pessoal, nunca de uma mudança de caráter individual.

Os primeiros cristãos tornaram-se, de certa maneira, “virais”, pois, através de seus atos, “contaminaram os ambientes públicos”. Ou seja, mudaram a concepção moral e ética de quase todo o ocidente, iniciando, não por atitudes políticas, não tomando o poder por revoluções e instaurando sistemas governamentais ou regimes imperiais, mas simplesmente, doando pães aos pagãos e adotando viúvas e órfãos. Sem nenhum assistencialismo público.

Aquilo que fez com que as filosofias e crenças dos cristãos se tornassem padrões quase que universais éticos e morais foram suas atitudes íntimas, não suas pregações públicas — primeiramente dizendo. Suas atitudes individuais convenciam com a prática. Eram atitudes tão discrepantes das atitudes da maioria das pessoas, que facilmente conquistavam a atenção daqueles que os rodeavam. São Francisco de Assis dizia: “Pregue. Se necessário, use palavras”.

A misericórdia, a partilha do pão, a caridade sem distinções, a pregação do amor mútuo e o tratamento cuidadoso e zeloso pelos marginalizados fizeram com que sistemas políticos, como o Romano, se rebelassem contra esta nova doutrina religiosa. O espanto causado por suas ideias e a radicalidade de suas práticas caridosas conquistaram muitos, ao mesmo tempo que despertaram a ira de outros. Por fim, aos poucos, os Estados e impérios tiveram que se dobrar frente às doutrinas e práticas desta nova fé. É bem verdade que, depois, muitas coisas se corromperam, sendo necessário que, por muitas vezes, os cleros e reformadores se levantassem e buscassem a inspiração inicial de suas crenças. Entretanto, parece-nos que a caridade, o amor mútuo, a família como base social, a prática moral e ética, entre outras concepções, foram institucionalizadas num processo natural de absorção daquilo que a humanidade, durante os séculos que se seguiram, assimilou como sendo basais para o prosseguimento da ordem civil.

Mas a intenção aqui não é contar a história do cristianismo e nem advogar a seu favor, mas sim refletir sobre as atitudes políticas de nosso século. Como o ocidente foi colonizado por cristãos, creio que esta abordagem seja plenamente justificável — e os paralelos argumentativos que irão se seguir a justificarão ainda mais.

Na política moderna há o modelo de caridade e os discursos partidários que se espalham sobre o pilar da pobreza e da mendicância. O que mais temos na sociedade atual são discursos contra a miséria que vêm de homens que viram os rostos ao passarem por um medicante, comunistas que gritam para o Estado sanar a fome do pobre enquanto deixa o seu vizinho sem leite e pão.

É complexo falar em caráter, pois, é sempre algo muito reservado e, obviamente, eu falo de uma maneira geralista. O que significa que não são todos os comunistas que são hipócritas e que não são todos os que norteiam sua moral na fé cristã, podendo inclusive ser ateus ou agnósticos, sejam caridosos. Todavia, vejo que o modo de fazer política em nossa época constitui-se do clamor pelas bonanças do Estado ao passo que nos mantemos, enquanto indivíduos, indiferentes em nossos atos particulares; a geração que ama a humanidade e ignora o mendigo.

Isto gera diversas consequências. Primeiramente, discursos vazios: homens que pregam contra o capital e que são acumuladores de riquezas; outros que sobem em palanques para chorar pela vida miserável da D. Maria, no interior do Maranhão, mas que não movem uma palha para dar a ela sequer uma cesta básica — a não ser que ela vote nos ditos cujos, é claro. É a maldita crença de que o responsável pelo sofrimento do mendicante é unicamente do Estado. Não, a responsabilidade por aquele que passa fome também é minha. É meu dever ajudar aquele que sofre com a fome e com as condições sub-humanas. Ser indivíduo não gera em mim a necessidade de ser individualista, ser uma pessoa emancipada não exclui minha consciência social. A compaixão e a cooperação mútua são alguns dos pilares sociais que diferencia nossa civilização da dos bárbaros, por exemplo.

Se nosso instinto nos manda pular em um rio para salvar um desconhecido que se afoga é porque nossa substância mais íntima nos pede que nos abstenhamos de nós mesmo no intuito de salvar a vida de um outro que faz parte da mesma espécie da qual sou constituinte; alimentar um ser humano que passa fome deveria nos ser instintivo, elementar e substancial. Então, hierarquicamente dizendo, alimentar o faminto é um dever do indivíduo, antes de ser do Estado; ainda que não haja Estado, alimentar uma criança faminta nos será um ato vocacional, um imperativo.

A hipocrisia dos partidários de políticos populistas está em usar do pobre como palco para seus discursos vazios. Clamam e gritam aos ares as mais belas e vazias pregações pela justiça social, enquanto não abrem a carteira nem para pagar um pastel de feira para o mendigo que está deitado do outro lado da praça, sendo obrigado a ouvir suas palavras vazias.

Enquanto não entendermos que é nosso papel individual, como Homens que somos, diminuir a penúria de outrem, vangloriarmos o bolsa-família é hipocrisia. Pessoas que jogam dois reais para sanar suas consciências, sem ao menos olhar no rosto de quem está recebendo; pessoas que ajudam porque há fotógrafos, jornalistas ou mesmo amigos ao seu redor, nada mais são do que filantropos de palco.

Obviamente que o Estado não deve ficar indiferente aos necessitados, ajuda-los é o que se espera de uma ordem social que tenha um mínimo de princípio moral em suas égides; não obstante, desconfio muito dos justiceiros sociais e das políticas que saem destes. Chego a pensar que, se possível for, é mais digno passar adiante, de forma educacional, os conceitos morais da compaixão e da cooperação mútua, a deixar ao cargo do Estado este intento. Prefiro ir eu mesmo à casa de meu vizinho e deixar a ele um saco de pão e um contato para emprego, a dar meu subsídio ao Estado para que ele talvez o faça. Me parece que a história nos mostrou suficientemente que governos nunca aprenderam a realizar corretamente a operação de divisão. A eles cabe somente a função de igualar as condições de sobrevivência e de dignidade, garantir os direitos e os deveres do ordenamento civil.

A verdadeira justiça social proporcionada pelo Estado está no homem ter o alimento necessário conquistado por sua labuta; justiça social está na segurança necessária para o indivíduo ter assegurado seu direito de ir e vir; está na garantia do direito à própria vida e à propriedade material. Eis a justiça primordial numa sociedade. Garanto-lhes que se 10% é função do Estado, o restante trata-se das capacidades individuais de suar, superar barreiras e seguir em frente após os fracassos que já são certos na vida de todos.

Quem vê alguém passando fome e diz: — para si ou para outros: “precisamos que o Estado olhe isto; precisamos de políticas sociais verdadeiras”, quando assim age, imediatamente se isenta de sua função social  e coloca em xeque suas filantropias estadistas e seus discursos de justiça social. O primeiro passo ao ver alguém passar fome é dar-lhe o que comer. Tudo isso na quietude, sem fazer alardes hipócritas. Faça isso e nunca use de um miserável como palanque para sua política partidária. Isso é cristianismo? Não, me parece mais ser algo parecido com “coerência”.

Antes de ser dever do Estado alimentá-lo, é seu dever como ser humano não se abster em ajudá-lo. Pare de vomitar seus discursos piegas sobre a miséria social e a fome se você passa ao lado de um mendicante e desvia o olhar; se seu filantropismo não passa de palavreados vazios em diretórios de universidades e em posts de Facebook. Algo realmente está muito errado em sua congruência política e pessoal.

Convenço-me a cada dia que minha função na terra é construir minha vida na dignidade certeira de atitudes consonantes aos meus discursos. Isto exige de mim uma vida voltada para o outro, uma disposição ferrenha de dar o melhor de mim como indivíduo e como integrante de uma sociedade de homens livres. Preocupo-me pouco com que o Estado deveria prover-me, ainda que, muitas vezes, precise dele por questões estruturais da sociedade. Ao final, eu o pago por isso. O que me interessa verdadeiramente, meus caros, é fazer da minha existência a mais harmônica possível com meus discursos, ainda que falhas possam — e certamente irão — surgir. Sinto que devemos calar nossas bocas se a nossa justiça social é clamada ao vento enquanto nossos olhos se tornam cada dia mais indiferentes aos infortunados.

As ideologias modernas formaram revoltados contra a pobreza que ignoram os pobres.

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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