A influência Cristã no Mundo Ocidental: Liberdade e Propriedade

A influência Cristã no Mundo Ocidental: Liberdade e Propriedade

Por:Lucas Pagani
Colunas

23

Feb 2017

A influência Cristã no Mundo Ocidental: Liberdade e Propriedade

O historiador Maurício G. Righi, no prefácio do livro Criação do Ocidente de Christopher Dawson, nos traz a perspectiva da tese proposta por Dawson de que só podemos compreender a história de um povo ou sociedade analisando sua religião. Nas palavras de Maurício Righi:

“Na história sabemos que inexiste civilização que não tenha sido edificada num arcabouço religioso, sobre o qual todas as sociedades humanas originariamente se estruturaram”[1].

Toda civilização é permanentemente influenciada por alguma religião. A sociedade ocidental, por sua vez, é influenciada pelo cristianismo com seus valores, princípios, instituições, comportamentos, costumes etc. No decorrer do tempo, as mudanças ocorridas na cultura preservaram ou mantiveram sua tradição em um grau maior ou menor. Fato é que algo sempre permaneceu. Trata-se de modificações ao invés uma refundação. A história não é feita somente de uma sucessão de êxitos, e estes são mais frequentes quando decidimos prudentemente o que avançar ou preservar. A influência cristã existe no Brasil desde a colonização portuguesa iniciada no século XVI. Ao Rei era dada a incumbência de auxiliar o Império e também a fé, por isso, nossa formação deu-se sob o catolicismo.

Sobre a tradição, o dramaturgo estadunidense T.S. Elliot diz:

“Tradição não é única, ou mesmo primeiramente, a manutenção de certas crenças dogmáticas; essas crenças vieram a ganhar forma vivida no decorrer da formação de uma tradição. O que chamo de tradição abrange todas aquelas ações usuais, hábitos e costumes, que vão do rito religioso mais significativo ao nosso modo convencional de saudar um estranho, que representam os laços de sangue de um “mesmo povo que vive num mesmo lugar”. Encerra muito do que pode ser chamado de tabu – tal palavra pode ser utilizada em nossa época em um sentido exclusivamente depreciativo é, para mim, uma curiosidade de algum relevo. Tornamo-nos conscientes desses detalhes, ou conscientes de sua importância, geralmente, só depois de terem caído em desuso, como tomamos ciência das folhas de uma árvore quando o vento de outono começa a fazê-las cair quando cada uma delas já perdera a vida”[2]

O que permitiu a cultura romana e a religião cristã como movimento cultural prosperarem, foram os pequenos polos monásticos e a descentralização dos manuscritos daquela época. Em pouco tempo, os monastérios começaram a se tornar centros e abrigos para aquele que quisesse lá se instalar. A vida medieval começou a girar em torno desses mosteiros, o que deu a ideia de renascimento das cidades. Com o bem conviver com as leis dos monastérios, surgiram as guildas, os artesãos e toda uma nova vida, uma vida em unidade. Christopher Dawson registra esse momento da seguinte forma:

“Foi essa integração de organização corporativa, função econômica e liberdade civil que tornou a cidade medieval, como Troeltsch destaca, a mais completa expressão dos ideais sociais da Idade Média, como podemos atestar em sua forma mais altamente desenvolvida: nos escritos de Santo Tomás de Aquino e de seus contemporâneos. A filosofia política medieval foi dominada pelo ideal de unidade.[…]Essa unidade formava um complexo organismo hierárquico, um corpo com muitos membros, cada um com uma função vital a realizar, cada um com seu próprio cargo e ministério a serviço do todo. Essa doutrina de sociedade envolve, em cada estágio, o princípio da subordinação hierárquica, mas, diferentemente da teoria aristotélica, ela não envolve uma subordinação totalizante, muito menos a instituição da escravidão. Cada indivíduo, membro do todo, é um fim em si mesmo, e seu ofício particular, ou ministério, não é somente uma tarefa social compulsória, mas, sobretudo uma forma de prestar serviço a Deus, por meio da qual o sujeito compartilha da vida de todo o corpo social.”[3]

Com a descrição de Dawson, entendemos que os princípios de livre associação e propriedade são ligados diretamente à cultura cristã. O que nós entendemos por liberdade e propriedade tem profundas raízes nas sociedades medievais e nos princípios cristãos.

Na carta Encíclica Centesimus annus do Papa João Paulo II podemos notar esses princípios sobre a cultura:
“Não sendo ideológica, a fé cristã não presume encarcerar num esquema rígido a variável realidade sócio-política e reconhece que a vida do homem se realiza na história, em condições diversas e não perfeitas. A Igreja, portanto, reafirmando constantemente a dignidade transcendente da pessoa, tem, por método, o respeito da liberdade[…]O homem é, acima de tudo, um ser que procura a verdade e se esforça por vivê-la e aprofundá-la num diálogo contínuo que envolve as gerações passadas e as futuras[…]Neste contexto, convém lembrar que também a evangelização se insere na cultura das Nações, sustentando-a no seu caminho rumo à verdade e ajudando-a no trabalho de purificação e de enriquecimento.”[4]
Porém, João Paulo II adverte acerca da questão da liberdade da seguinte maneira:

“[…] a liberdade só é plenamente valorizada pela aceitação da verdade: num mundo sem verdade, a liberdade perde a sua consistência, e o homem acaba exposto à violência das paixões e a condicionalismos visíveis ou ocultos. O cristão vive a liberdade (cf. Jo 8, 31-32), e serve-a propondo continuamente, segundo a natureza missionária da sua vocação, a verdade que conheceu.”[5]

Não obstante a defesa da liberdade, João Paulo II mostra a defesa propriedade privada como sendo:

“Este direito, fundamental para a autonomia e o desenvolvimento da pessoa, foi sempre defendido pela Igreja até aos nossos dias.”[6]

Os valores de liberdade e propriedade propostos pelos pensadores da Escola Austríaca – em especial de Ludwig Von Mises e Friedrich August Von Hayek – é originado nos seios da civilização ocidental que, por sua vez, possui uma influência inegável da ética judaico-cristã. Sendo assim, os simpatizantes da Escola Austríaca poderiam ter uma relação mais amistosa com a instituição que fornecera seus valores mais fundamentais: Os Direitos Naturais.

 

[1] RIGHI, Maurício G. Meta história e História. In: Criação do Ocidente: A religião e a Civilização Medieval. Trad. Maurício G. Righi. São Paulo: É realizações, 2016. p.9.

[2] T.S Eliot, After Strange Gods: A primer of Modern Heresy. London, Faber and Faber, 1934, p. 18.

[3] DAWSON, Christopher. Criação do Ocidente: A religião e a Civilização Medieval. Trad. Maurício G. Righi. São Paulo: É realizações, 2016. p. 212-213.

[4] Carta Encíclica Centesimus Annus (No centenário da Rerum Novarum). São Paulo: Loyola, 1991.

[5] Ibidem.

[6] Ibidem.

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