O Futebol Feminino e a Hipocrisia

Por:Leandro Marcondes
Colunas

25

Aug 2016

O Futebol Feminino e a Hipocrisia

 

Durante as olimpíadas foi bastante comum ouvir questionamentos sobre a disparidade das remunerações do futebol masculino em comparação com o feminino.

A torcida brasileira, decepcionada com as atuações da equipe masculina nas primeiras rodadas, abraçou a equipe feminina na esperança por uma medalha. Ao fim dos jogos a situação acabou se revertendo e o assunto foi deixado de lado, mas não poderíamos deixar de falar um pouco sobre um tema que obteve tanto destaque nas redes sociais.

 

Por que as mulheres ganham menos? A própria lei de oferta e demanda pode explicar a disparidade entre salários do futebol feminino e masculino, já que quanto maior é a demanda por um esporte, maiores serão os valores de seus ingressos, camisas, cotas para televisão, patrocínios e, conseqüentemente, os salários dos atletas (que são pagos proporcionalmente ao lucro que as empresas obtêm através daquele esporte, time ou mesmo certos atletas que praticam o esporte).

Posso explicar este argumento através de algumas perguntas: Quantas vezes você já foi a um jogo de futebol feminino? A quantos jogos você já assistiu pela televisão? Já comprou produtos de times de futebol feminino? Agora faça as mesmas perguntas trocando “feminino” por “masculino” e compare as respostas. Entendeu a diferença de salários? Ainda não? Vou explicar melhor.

A disparidade entre eles começa nas preferências dos próprios indivíduos. Os jogos do Campeonato Brasileiro de Futebol masculino possuem audiências superiores ao futebol feminino, que conta com o mesmo campeonato, sendo ambos transmitidos tanto em canais fechados (SporTV) como abertos (TV Brasil). A audiência do futebol feminino no Brasil é pífia, o que torna os investimentos no esporte poucos atrativos. A ausência de público nos jogos também é um problema, tanto pela baixa renda gerada para os times como, mais uma vez, como consequência, o afastamento de possíveis investidores no futebol feminino.

O Campeonato Brasileiro de Futebol feminino tem um publico baixíssimo se comparado até com outros esportes também femininos, como o voleibol. No dia 20 de maio de 2016 aconteceu a final do campeonato brasileiro de futebol feminino no estádio Anísio Haddad – São José do Rio Preto (SP), com o Flamengo se sagrando campeão pela primeira vez do campeonato ao vencer a equipe do Rio Preto por 2 x 1. O jogo foi transmitido pelo canal SporTV na televisão fechada e pela TV Brasil na televisão aberta. O público presente no estádio foi aquém de 1000 pessoas, o que, para uma partida final de Campeonato Brasileiro de Futebol, com a entrada franca, é inimaginável encontrar um estádio quase que completamente vazio como ficou o Anísio Hadad no dia, mostrando o total desinteresse dos brasileiros pelo esporte na categoria feminina.

No futebol masculino as maiores fontes de renda vêm da venda de jogadores, contratos de direitos de transmissão para a televisão, da venda de ingressos, de patrocinadores e das vendas de produtos relacionados ao futebol masculino em geral.

No futebol feminino não existem incentivos suficientes para grandes investimentos em patrocínios para os clubes ou contratos de transmissões de jogos, por exemplo. Justamente porque a visibilidade, a audiência desta categoria do esporte é muito baixa. É um reflexo da baixa procura por parte d e espectadores.

Lembre-se, não é porque as grandes empresas de TV transmitem os jogos que as pessoas assistem, é porque as pessoas assistem que as empresas transmitem os jogos. Portanto, há certa ingenuidade em acreditar que o futebol feminino não é tão relevante quanto o masculino ou não paga os mesmos salários por causa de uma suposta indiferença da grande mídia com o a modalidade feminina.

Como disse no início, foi bastante comum, nos dias de Olimpíadas, vermos memes e textos no Facebook fazendo uma comparaççoes entre Neymar e a jogadora Marta. Média de gols pela seleção, títulos, prêmios de melhor do mundo versus a diferença salarial entre eles foram colocados em destaque por todos os cantos.

Assim como demostrei acima, o caso dos dois não é diferente. O salário de Neymar será muito maior que o de Marta por questões endógenas ao mercado.

Para uma jogadora de futebol feminino, o salário de Marta é extremamente alto, chegando a mais de um milhão de reais por ano (Pago pela Coca Cola e Puma), uma verdadeira conquista se comparado ao das atletas da mesma categoria. O alto salário da jogadora é bancado por patrocinadores, já que mesmo jogando nos últimos anos em países como Canadá, Suécia, Estados Unidos, dentre outros, os times de todos estes países também enfrentam dificuldades financeiras, sendo que muitos deles encerraram sua participação no futebol feminino ou as ligas de alguns destes países foram simplismente canceladas no decorrer dos jogos por falta de renda.

O futebol feminino é pouco valorizado no mundo inteiro, não se restringe a alguns países. Os Estados Unidos, que constantemente é mencionado como um país que valoriza o esporte, teve a sua liga feminina cancelada em 2012, onde a jogadora Marta que atuava pelo Western New York Flash, e teve que se transferir para a Suécia. Enquanto o futebol feminino passa por momentos extremamente difíceis, e repito, por questões de dinâmica básica de mercado, o clube de futebol masculino Barcelona, que paga o salário do jogador Neymar, bate recordes de arrecadação a cada ano. O clube fechou as temporadas de 2014/2015 com uma receita de 608 milhões de euros e um lucro estratosférico de 15 milhões. Nesta última temporada ouve novo recorde de arrecadação, 678.9 Milhões. Isto é mais que o suficiente para explicar a diferença salarial entre salários de jogadores e jogadoras de futebol.

Mas militantes feministas têm, ultimamente, culpado o baixo sucesso do futebol feminino ao sexismo existente na sociedade. Fato é que nem mesmo as mesmas militantes se interessam pelo esporte. O baixo público e audiência do futebol feminino não podem ser atribuídos somente aos homens, já que as mulheres são metade da população mundial e, nem por isso, os estádios recebem públicos volumosos nos jogos femininos.

Aliás, até onde sabemos, na maior parte do mundo (e certamente nos países mencionados neste texto, e dentre eles incluo o Brasil) as mulheres têm total liberdade para frequentar e assistir aos jogos, mas nem por isso o fazem.

Não afirmo aqui de maneira alguma que esta seria uma obrigação das mulheres, como “companheiras de gênero”. Mas daí a atribuir o baixo salário das atletas femininas ao machismo é pura irracionalidade. Se os movimentos feministas esperam que homens ou mulheres dêem audiência ao futebol feminino por pressão, colocando a eles as seguintes opções: assistir aos jogos ou serem tachados de sexistas, esses movimentos nada mais fazem que ferir os princípios básicos de liberdade escolha dos indivíduos e, pior, ultrapassando a linha que os separa de “revolucionários” para a dos tiranos.

O futebol feminino vem crescendo nos últimos tempos, mas só consegue ter alguma mobilização de público de quatro em quatro anos, quando é realizado o torneio olímpico. O esporte ainda carece de investimentos em campeonatos e torneios, investimentos estes que só virão com uma maior audiência.

Não existe atalho para o sucesso, e não serão textos de Facebook ou protestos feministas culpando o machismo que irão de alguma forma mudar a situação atual das jogadoras. Se alguém quiser mesmo ver o futebol feminino se destacando tanto quanto o masculino, a única via é a mobilização natural e respeitosa por parte público, indo aos jogos, assistindo às partidas, consumindo produtos patrocinados. Somente assim o sucesso midiático e, por consequência, o financeiro virão.

Aos que defendem uma maior visibilidade e maiores salários das atletas no esporte sem ao menos ter dedicado algumas horas para acompanhar o trabalhodas meninas algumas vezes ao ano, só tenho uma coisa a dizer: estás sendo hipócrita.

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Leandro Marcondes

Graduando Engenharia de Produção pela FIP-MOC, voluntário em causas em defesa das liberdades individuais e econômicas. Cofundador do grupo de estudos liberais O Quinto.

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