Fidel: a verdadeira face de um tirano

Por:Pedro Henrique
Colunas

09

Dec 2016

Fidel: a verdadeira face de um tirano

 

Morreu Fidel Castro, um dos homens mais influente da América Latina desde os anos 1950. Idolatrado por alguns, odiado por outros, reverenciado como sendo um deus do olimpo caribenho por mais alguns.

Mas se nos apegarmos aos fatos pormenarizados, relatos de cubanos comuns, jornalistas, presos político, homossexuais, podemos verificar qual concepção está mais próxima de quem realmente foi Fidel Castro.

Fidel fez sua revolução armada, de cunho comunista, na da década de 1950 (1953 a 1959, para ser mais exato). Ele tinha uma diretriz de ação baseada na revolução leninista de 1917 e uma práxis estatal próxima à de Stálin nos seus anos de ditador da União das Repúblicas Federativas Soviéticas. Ou seja, a revolução através do aparato militar, ditatorial e repressivo ao nível máximo. Tal revolução possuiu como característica inicial a abolição de qualquer sistema de julgamento promulgado em códigos penais ou constituições em vigor. As diretrizes de julgamentos eram feitas simplesmente pelos egos revolucionários, as condenações eram decretadas por homens sem preparo jurídico algum: possuíam apenas o sopro revolucionário e os apontamentos da ideologia marxista como parâmetros de uma jurisprudência vinda direto da aclamada URSS.

Aliás, sobre a relação de Fidel com a antiga URSS vale a pena ler a entrevista de Toma Borge com o ex-ditador sobre Stálin e a URSS, em 1992, logo após a queda da URSS[1]. Fidel estava nitidamente incomodado em concordar com Stálin. Em muitos casos, ele afirmava que Stálin cometeu horrores, mas que foram necessários para a URSS e para os comitês comunistas que dependiam dos soviéticos. Ou seja, “ele cometeu horrores, mas houve acertos, então tudo bem”. Lembrando que Fidel discordar de Stálin era perigoso na época de ouro da URSS. A segurança da ilha com relação aos países aliados dos EUA era garantida pelo temor de uma guerra contra a União das Repúblicas Socialistas; os Estados Unidos era o principal inimigo dos comunistas por ser um país declaradamente capitalista e, em vários termos, liberal. O pacto nuclear é um exemplo da dependência de Cuba frente ao antigo império Soviético, sem falar da subsistência do conteúdo revolucionário e a correspondência doutrinária entre os dois países que chegava ao nível simbiótico. Não havia como Fidel criticar Stálin publicamente sem que isso gerasse sanções diretas dos soviéticos. O comunismo não suporta críticas.

Após a queda da URSS houve um movimento dos órgãos internacionais em aceitar a ditadura cubana como um governo legítimo, tanto que a própria Organização das Nações Unidas – ONU passou a denominar Fidel como “presidente” e não como ditador; movimento de aceitação esse que garantiu a soberania do ditador até sua morte — e possivelmente garantirá a sobrevivência da ditadura durante muitos anos ainda[2].

No livro: Antes que anoiteça[3], de Reinaldo Arenas, o autor nos relata as arbitrariedades dos julgamentos e as condenações que eram feitas sem nenhum tipo de possibilidade de defesa por parte dos réus. Quando havia julgamentos, estes eram somente alegorias, sem nenhum compromisso com a verdade, já que o réu não possuía direito a defesa. Antes do teatro chamado “julgamento” começar, todos já sabiam que o infortunado acusado já estava previamente condenado à morte ou ao trabalho forçado nos diversos campos de concentração cubanos, uma cópia caribenha dos gulags.

Assim sendo, os mortos por Fidel se avolumavam em torrentes grandiosas de nomes e corpos anônimos. Mortos sem registros, corpos descartáveis, jogados em valas comuns.

Não podemos deixar de dar atenção a uma outra parte da história suja da ditadura Cubana: os famosos “Paredóns” de Fidel (conhecidos na década de 60 como Fidel Paredóns). Tal prática tratava-se de fuzilamentos em grupo dos inimigos da revolução cubana. Matou-se entre 3820 a 16000 pessoas, de acordo com a bibliografia adotada (na década da tomada do poder e nos anos seguintes, a ausência de documentação secretamente guardada por Havana dificulta a mensuração exata, mas os maiores historiadores e especialistas em história cubana dão números muito dispersantes[4]). Ao fim e ao cabo, são mais dados da brutalidade do regime de Fidel.

Eram fuzilados pela revolução de cubana, sem nenhum tipo de piedade ou humanismo, os considerados contrarrevolucionários e os desertores.

Humanismo, aliás, tão grandiosamente berrado atualmente em parlengas tolas, humanismo esse tão reverenciado pelos admiradores do El capitán Fidel…  Ignorância histórica ou cegueira ideológica? Eu ainda me questiono.

Números oficiais são praticamente inexistentes. Apenas por alguns escassos documentos que foram vazados com dados de arquivos cubanos[5], sabemos que o “regime” de Fidel foi responsável por 5.775 execuções por fuzilamento, 1.231 assassinatos extrajudiciais, 984 mortes na prisão e 200 pessoas desaparecidas”[6]. Tais números encontram-se no livro The Black Book of Cuban Communism, de Armando Lago e no “Cubaarchive.org”. Cabe citar também o impressionante número de “20 mil oponentes políticos atrás das grades”, segundo a jornalista Flávia Marreiro[7]. Para fins de conhecimento, é bom citar outros dados alternativos para tal tirania do ditador: no livro Para entender a inquisição, do Prof. Felipe Aquino, ele cita os dados do jornalista e historiador, Hugo Studart. Dados esses que nos dão uma dimensão da carnificina de Fidel. O historiador Studart aponta, 56.212 fuzilados, 1.163 assassinados extrajudicialmente, 1081 presos políticos mortos nas prisões por conta de maus tratos, 77.824 mortos ao tentar fugir da ilha, somando 136.288 assassinatos colocados na conta de Fidel Castro e seu governo. Tais números são tirados do relatório da Câmera Ibero-Americana de Comércio/Stanford Research Institute[8].

Ainda que tais dados ao serem comparados possam parecer muito distantes, a realidade é que a sublimação dos reais dados e a intransponível barreira da segregação da clareza democrática e da limpidez de uma verdadeira liberdade naquela ilha, nos impede de encontrar dados mais assertivos no que se refere a certezas metódicas de pesquisa. Se não posso fornecer dados metodologicamente mais exatos, não se trata de um erro de pesquisa ou de imprudência de minha parte, mas, sim que Cuba é uma ditadura, e como todas as ditaduras, teima em esconder suas vergonhas.

Além disso, ao citarmos tais estatísticas, devemos levar em conta mais alguns fatores: primeiro, no início da revolução a documentação não era uma prioridade — se é que era ao menos uma preocupação —; segundo, guardar os números de mortos pela revolución seria como guardar arquivos que poderiam incriminá-los posteriormente, o que, certamente, não era algo desejado; terceiro, nos primeiros anos, quando ainda estavam tentando deportar Fulgêncio do poder, Fidel não possuía o pleno aparato estatal de Cuba. Sendo assim, esperar números e documentos oficiais que confirmem os crimes de Fidel é uma inocência lancinante; e, por fim, mesmo após assumir o poder por golpe ditatorial, não fazia sentido algum o governo liberar documentos com todas as suas ações ilegais e todas as suas execuções extraoficiais. Perguntem-se: por que o governo cubano liberaria para o conhecimento mundial documentos que o incriminassem?

Verbi gratia, relatos de pessoas que passaram pelas prisões cubanas mostram uma realidade apocalíptica, onde os encarcerados dormiam no chão de pedra, muitos não tinham direito a banho de sol e alimentação, torturas diárias e execuções eram realizadas corriqueiramente. Outro exemplo é dado por Humberto Fontova em seu livro Fidel: o tirano mais amado do mundo[9], em que o mesmo trata do fuzilamentos de famílias inteiras em alto mar. Estes fuzilamentos eram realizados por meio helicópteros, para evitarem que famílias fugissem do “paraíso comunista” e aumentassem o número de delatores da miséria e opressão da ilha de Fidel. Muito sobre estes relatos só saberemos através de fontes alternativas, nunca a partir do próprio governo cubano.

Enfim, não esperem dados oficiais dando conta do tamanho da barbárie para confirmarem a tirania de Fidel — ainda que os escassos dados oficiais nos deem uma farta ideia do que ocorreu. A ausência de dados é um drama antigo de historiadores e jornalistas que querem relatar a vida, economia e repressão em Cuba.

Sendo assim, podemos esperar mares de mortos muito maiores do que as torrentes afirmadas por Armando Lago. Os primeiros anos da revolução foram os mais cruéis, Fidel fuzilava a todos que seu instinto revolucionário apontava como suspeitos ou criminosos. Fotos e mais fotos são provas cabais para tais fatos.

“Sim, fuzilamos e continuaremos fuzilando sempre que necessário”, disse Che Guevara representando Cuba na ONU em 1964[10].

A confissão de uma barbárie, uma confissão diante do mundo e das nações que diziam prezar pela ordem e pelos direitos humanos, e nada foi feito.

Devolveram Che para a ilha cubana para que, junto com seu fiel escudeiro, Fidel, ele continuasse a fuzilar a ermo. O mar de mortos por Fidel e toda a sua revolução foi certamente o maior genocídio em massa nas Américas (do Norte, Central e do Sul) nos tempos modernos. Posso afirmar com plena certeza tal fato, mesmo com a escassez de informações advinda da ilha, pois a conjectura de tal afirmação não me parece em nada absurda. Não temos dados oficiais, mas temos a certeza dos milhares de relatos facilmente encontrados na internet, livros, periódicos, documentários e nas bocas e memórias daqueles que lá viveram ou ainda vivem.

Fidel perseguiu os gays de uma maneira similar a uma caça de animais. Reinaldo Arenas, que além de poeta era homossexual assumido, nos dá um testemunho aterrorizante sobre o tratamento do Estado cubano aos gays: “[…] a bicha de coleira; este era o tipo de homossexual escandaloso que constantemente era preso em uma sauna ou praia. O sistema fazia com que ele usasse, conforme pude verificar, uma coleira que estava constantemente em seu pescoço; a polícia o prendia com uma espécie de gancho e ele era levado assim para os campos de trabalho forçado”[11]. Os homossexuais foram perseguidos por todo o país, o sistema de vigilância, muito bem conhecido pelos cubanos. Faziam com que denúncias levassem as autoridades até os homossexuais, daí em diante havia muitas maneiras de lidar com o caso: a prisão, a coleira de identificação e de humilhação, ou até a morte, como muitas vezes foi descrita pelo autor já citado.

Um estudo jurídico[12] sobre as arbitrariedades criminosas feitas contra os homossexuais em Cuba foi feita pela universidade de Toronto. Tal estudo nos permite conhecer as diversas facetas das absurdas leis contra os homossexuais e como funcionava o aparelho de repressão. Muitos sites dão o número de 10 mil homossexuais expulsos de Cuba[13], ainda que tal informação não possa ser confirmada com números oficiais — pelos mesmo problema que acima afirmamos —, é bem provável a sua veracidade. O próprio Reinaldo Arenas foi deportado com um visto que vinha carimbado “Homossexual”. Ele afirmou que inúmeros outros já haviam relatado tal situação. E justamente por ser homossexual que ele foi expulso do país. Além de existir outros relatos recorrentes de fugitivos que nos dão uma perspectiva da veracidade dessas afirmações.

Maiores restrições são fatídicas. A pobreza fora das cidades modelos cubanas é visível. Pouco se sabe dos municípios interioranos, mas sabemos que campos de trabalho forçado são reais. E a famosa caderneta de restrição de compra, situação de racionamento que esperamos numa sociedade pós-guerra ou pós-apocalíptica, em Cuba é uma realidade vivida há décadas[14].

Mas a prova mais potente da sevícia ditadura cubana são as comuns tentativas de fuga da ilha para os Estados Unidos. Os partidários do ditador dizem que isso se dá pela ilusão capitalista criada pelas mídias Pop norte-americanas, o que é, no mínimo, um argumento risível. Depois dos membros do Partido Cubano, os mais fiéis a Fidel são os artistas americanos (sic). De outubro de 2014 a junho de 2015, “27.296 cubanos entraram nos EUA, de acordo com números concedidos à instituição pelo Escritório de Alfândegas e Proteção Fronteiriça dos Estados Unidos”[15]. Tais dados mostram que as tentativas de fuga da ilha não se restringiram às décadas de 1970, 80 e 90, como muitos dizem. O fato é que, mesmo com a reaproximação pateta dos EUA com a ditadura da Ilha, a fuga para os EUA é assustadoramente recorrente ainda nos dias atuais. Além, é claro, dos corriqueiros pedidos de asilo político feito por atletas e diretores nas competições esportivas mundiais.

O fantasioso mito do paraíso caribenho se desmantela com tais dados.

Ninguém em sã consciência foge do paraíso para o inferno. Ninguém em sã consciência arriscaria a vida para cortar, muitas vezes a nado, o Pacífico até a costa americana de Miami beach se, de fato, Cuba fosse local razoável para se viver[16].

Paraíso aclamado pelos livros didáticos brasileiros, creio que esta Cuba só exista realmente em nossos livros didáticos. Neste ano, desde “1º de outubro, mais de 3,5 mil cubanos chegaram às costas dos Estados Unidos”[17], segundo a jornalista Lizette Alvarez, do The New York Times.

Enfim, de Cuba, basta sabermos que, para sair de lá, é preciso fugir, e que muitos preferem morrer tentando do que ficar mais um dia na Ilha.

O resto é retórica vadia, palavreados sem sentido, justificações estapafúrdias.

Fidel criou um mundo paralelo para seu ego revolucionário, idolatrando homens genocidas como Lênin e Stálin; ele fez de uma ilha um forte ideológico em que toda  a sorte de barbáries acontecem dia e noite. Onde está e esteve a ONU para dar conta desses genocídios e abusos? Quando os Direitos Humanos irão visitar as masmorras Cubanas? Nunca lí uma nota de repúdio dos direitos humanos às mortes aleatórias em Cuba, nem pelo desumanismo de suas prisões. Entretanto, já vi estas mesmas pessoas virem ao Brasil dar pitacos e aconselhar nossa polícia a não mais trabalhar com armas de fogo — dada a “truculência” de nossa força policial. É, no mínimo, absurdo, idiota e totalmente surreal tal comportamento; a parcialidade e cegueira ideológica dos órgãos mundiais frente à ditadura cubana chega a ser um insulto às mentes mais razoáveis e coerentes.

Não me darei ao trabalho de entrar no mérito dos americanos que amam Fidel, apenas gostaria de lembrar a vocês de que, na década de 1960, tal ditador apontou mísseis nucleares para vossas têmporas.

Enfim, este é o Fidel que não mostraram a vocês, esta é a Cuba que vocês não encontrarão nos livros do MEC.

Basta la revolución.

 

Referências:

[1] http://barcelona.indymedia.org/newswire/display/412338/index.php

[2] Sobre as relações históricas entre esses países também vale a pena a leitura da seguinte obra: SERVICE, Robert. Camaradas: uma história do comunismo mundial, Difel: Rio de Janeiro, 2015

[3] ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça, 1ª ed. Rio de Janeiro RJ: Edições Best Bolso, 2009

[4] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2103201007.htm

[5] http://Cubaarchive.org/wordpress/es/

[6] http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDR81909-6013,00.html

[7] http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2103201007.htm

[8] AQUINO, Felipe. Para entender a inquisição, 3ª Ed, Cléofas: Lorena SP, 2010, p. 273

[9] FONTOVA, Humberto. Fidel: o tirano mais amado do mundo, Leya: São Paulo, 2012

[10] http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/documentos/discurso-de-che-guevara-na-onu-em-que-faz-a-apologia-dos-fuzilamentos/

[11] ARENAS, Reinaldo. Antes que anoiteça, 1ª ed. Rio de Janeiro RJ: Edições Best Bolso, 2009, p. 106

[12] http://ihrp.law.utoronto.ca/utfl_file/count/documents/SOGI/Cuba_SOGI_2009.pdf

[13] Alguns dos sites citados: http://www.ilisp.org/noticias/ditador-socialista-assassino-e-homofobico-fidel-castro-morre-aos-90-anos/;

http://www.ggb.org.br/Cuba_livre.htm;

http://revistaesbrasil.com.br/index.php/materias/129-atualidades/10686-morre-fidel-castro-o-revolucionario-Cubano

[14] Para saber mais: CUMERLATO, Cirinne; ROUSSEAU, Denis. A ilha do doutor castro, Peixoto Neto: São Paulo, 2001

[15] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/10/imigracao-Cubana-dispara-nos-eua-apos-restabelecimento-de-relacoes.html

[16] A distância em linha reta de Havana a Miami beach é de 372,19 km

[17] http://internacional.estadao.com.br/noticias/geral,aumenta-o-numero-de-Cubanos-que-tenta-migrar-para-os-estados-unidos,1877831

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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