A esquerda, os pobres e a falsa caridade

A esquerda, os pobres e a falsa caridade

Por:Yuri Dornelas
Colunas

05

Oct 2017

A esquerda[i] é formada por ideologias diferentes, mas que têm em comum a valorização da igualdade. No Brasil, durante muitos anos, ela clamou para si o monopólio das virtudes. Ser de esquerda era ser do bem, era pensar no próximo, era estar preocupado com os menos afortunados e com os pobres. Esse fenômeno pode ser explicado, em parte, pelo regime militar. Como a ditadura foi de direita, qualquer tipo de oposição a ela era classificada como de esquerda – e visto como algo bom. Mas agora, após dominar o cenário político e o ambiente acadêmico, a esquerda vem aos poucos perdendo espaço. As pessoas estão cansadas dos discursos demagogos, do politicamente correto, da falta de diálogo e da intolerância esquerdista.

Uma das principais pautas da esquerda é que o estado[ii] deve suprir as necessidades dos menos afortunados. Todos devem ter o direito à saúde, alimentação, educação, segurança, etc. De fato essa é uma ideia muito bonita. Afinal, quem não deseja que todos possam ter uma vida digna, com acesso a aspectos básicas da sobrevivência? O problema é a execução disso.

Todo direito implica em dever. Se todos os seres humanos têm o direito à vida, isto é, ao próprio corpo, então todos têm o dever de respeitar a vida alheia. Agora, se todos têm o direito à saúde, quem tem o dever de supri-la? Se temos o direto a educação, quem tem o dever de nos fornecer educação? Pode-se responder a essas perguntas dizendo que o estado nos garantirá esses direitos. Mas a pergunta agora é: de que forma?

O estado é a instituição social que detém o monopólio do uso da força e da violência sobre determinada área territorial. É a única organização social aceita para obter sua receita não pela produção e troca voluntária de serviços, mas sim pela coerção social. Então, a forma que o estado tem de nos garantir qualquer coisa é pelo uso de armas e de detenções (ou ameaças destas).

O sociólogo alemão Franz Oppenheimer (1864-1943) apontou que existem apenas duas formas de adquirir riqueza: a primeira seria através da troca e da produção, o que ele chamou de “meio econômico”. Já a segunda seria mais simples, na medida em que não requer produtividade por parte dos indivíduos, é a forma do confisco de bens e serviços, na qual ele denominou de “meio político”. O caminho natural para a sobrevivência e a prosperidade do homem é o uso pacífico de sua energia e razão, o “meio econômico”. O meio coercitivo político é antinatural, parasitário, apenas retira a riqueza.

Isso é o que a esquerda defende, o “meio político” como via para ajudar os pobres. Apesar de o desejo de ajudar os menos afortunados ser algo muito bonito, fazer caridade obrigando os outros a pagarem por ela através do uso da coerção é falsa caridade, é um falso altruísmo. O estado só nos pode garantir saúde, educação, segurança e qualquer outra coisa se antes retirar-nos os frutos de nossos trabalhos. Qual é a virtude e a moral em tirar de uns para dar a outros?

Além disso, o assistencialismo estatal desencoraja a caridade, pois as pessoas passam a ter menos dinheiro disponível para uma possível doação já que os impostos confiscam parte de sua riqueza. Nas palavras do economista estadunidense Murray Rothbard (1926-1995): “O ‘meio político’ desvia a produção para um indivíduo – ou grupo de indivíduos – parasita e destrutivo; e este desvio não só subtrai da quantidade produzida como também reduz o incentivo do produtor para produzir além de sua própria subsistência”.

Ser de esquerda e se achar superior, bondoso, caridoso ou altruísta por defender ajuda estatal aos pobres não faz o mínimo sentido. Afinal, como dito anteriormente, qual a moral de tirar de uns para dar a outros? Não existe virtude na coerção. Se quiser ajudar, ajude com os próprios recursos ou faça com que mais pessoas tenham vontade de ajudar. As palavras “caridade” e “ajuda” não podem preceder a palavra “forçada”. Elas só fazem sentido se forem voluntárias.

 

Referências

A anatomia do estado – Murray Rothbard

Democracia, o Deus que falhou – Hanns Hermann Hoppe

[i] “Esquerda” nesse artigo será tratada de forma ampla. É claro e evidente que existe diferenças entre as ideologias classificadas de esquerda.

[ii]Por preferência do autor a palavra “estado” será grafada com letra minúscula durante todo o texto.

 

The following two tabs change content below.
Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais. Graduando em Economia pela Universidade Federal de Juiz de Fora e coordenador local do Students For Liberty Brasil. Libertário entusiasta da Escola Austríaca de Economia e do Objetivismo de Ayn Rand.

Latest posts by Yuri Dornelas (see all)


Comente com o Facebook

Compartilhe:

contato@ilmg.org.br