A Ditadura dos Tolerantes

Por:Pedro Henrique
Colunas

27

Aug 2016

A Ditadura dos Tolerantes

 

Quando falamos de tolerância, nós presumimos muitas coisas. Que há um lado numa disputa ideológica ou religiosa que necessita de mais receptividade social, que a sociedade necessita compreender as razões de ser de outras visões políticas, por exemplo. E que o contrato social humano, prevê em sua cláusula democrática, que convivamos com diferentes opiniões e pontos de vista, num clima mais harmonioso possível. Ótimo, se é isso que compreendemos como tolerância, pois bem, estamos nos entendendo. Mas, é bom afirmar: nem sempre as coisas caminham na prática como são previstas na teoria.

A humanidade sempre caminhou entre opiniões conflitantes. Evoluímos socialmente ao ponto de, com resoluções racionais e postulações políticas, chegarmos a um senso racional que nos diz: não é bom guerrear por ideias, pois, numa guerra, nunca ninguém sai verdadeiramente vencedor. A partir desse ponto de vista a tolerância é extremamente válida e realmente frutífera para uma sociedade que se pretende minimamente democrática.

Não obstante, como sempre, o homem consegue pegar um bem e transformá-lo em mal. As paixões individuais e as ideologias políticas estão usando desse princípio democrático extremamente vital à sociedade como armas de revolução social.

Como bem apontou Russell Kirk e, anteriormente, seu mestre Edmund Burke, nunca se fará revoluções sem que se use aparatos totalitários. Sejam eles aparatos culturais impositivos, militares ou educacionais. E, como bem constatou George Orwell, a linguagem é um desses terríveis aparatos doutrinais e ditatoriais.

Feitas estas considerações, podemos ver que, nos diretórios feministas ou nos congressos socialistas, criam-se novos termos e distorcem outros para que, através de assimilações despercebidas, os vocabulários científicos e sociais de uma nação inteira se tornem aparatos revolucionários de determinados grupos. Sem se dar conta, a população inteira usa e propaga certos termos criados para fins políticos determinados; usam e fazem de seus discursos cotidianos verdadeiras apologias a determinadas visões político-sociais, mesmo sem o perceber.

George Orwell, em sua estupenda obra: 1984, mostrou-nos, em nuances magníficas, como é possível que um vocabulário seja montado para que uma ideia prevaleça como a única possível. Esta estratégia ditatorial é extremamente eficaz, faz intelectos promissores tornarem-se meras amebas ou robôs programados; tudo isso através da “nova fala social”.

Termos como: homofobia, islamofobia, transfobia, e, pasmem: “eurofobia”— como elegantemente o G1 nos brindou — tornaram-se denominações taxativas com o único fim de emudecer determinadas contraposições. Ou seja, tais termos, além de serem amorfos sintaticamente falando (Euro = Europa ou europeu + Fobia = medo ou aversão), elas possuem o poder de anularem qualquer debate.

Por exemplo, eu sou contrário à parada gay, não por preconceito aos homossexuais em si, ou qualquer tipo de aversão às suas escolhas, mas por motivos de sanidade social. Uma passeata que expõe corpos nus em uma verdadeira praça de atos obscenos, às quinze horas, na maior avenida do país, não necessita de argumentos preconceituosos para gerar oposições, basta tão somente o bom senso.

Todavia, estes poucos e corajosos opositores, ao apresentarem seus argumentos, abruptamente são calados. Calados por argumentos contrários, perguntariam vocês; argumentos tão sólidos e excepcionais que tréplicas seriam impossíveis. Seria isso? NÃO. São calados por um processo de adjetivação medonho e totalitário que impede qualquer desenvolvimento de raciocínio ou de debate.

Ao terminar seus argumentos — quando ele consegue terminar —, o opositor é logo embatucado por gritos ensurdecedores que dizem: “homofóbico”, “patriarcalista”, “conservador”, “reacionário”, entre outras sentenças. Através desses aparatos birrentos e ditatoriais, os que se opõe ao lobby promovido, são logo descartados como escórias, extremistas e/ou preconceituosos.

Não havendo espaços para as ideias opositoras, não há também espaço para o debate. A consequência imediata desses fatos é a morte da democracia, e é justamente sobre o solo em que a democracia falece que há de nascer a ditadura.

Neste processo, aqueles que não seguem as cartilhas ditatoriais dos centros acadêmicos, dos partidos e dos congressos comunistas, são rebaixados a inimigos da liberdade. Não obstante, aqueles encarregados de taxá-los como tais, são os mesmos que usam de gritos e terror, que cobrem os rostos nas manifestações, e que não deixam que opositores argumentem. Eis os paladinos da liberdade, aqueles que querem ser livres desfilando sobre homens emudecidos pela tarja do politicamente correto, pelo “cala boca” dos defensores da democracia.

Basta que alguém esteja contra as tendências midiáticas e ideologias assumidas como dogmas políticos, para que as taxações ideológicas e os silenciadores sociais sejam acionados. O Reino Unido resolveu deixar a magnânima e inútil União Europeia: pronto, no outro dia já havia uma nova palavra no vocabulário socialista para denominarem aqueles que se opunham à UE: “eurofóbico”.

Tal aparato é extremamente desonesto. Ninguém minimamente sensato ouviria os argumentos de um nazista, pois, a história e a humanidade condenaram as práxis e as teorias do nazismo. Com isso, não dar ouvidos ao nazismo é como não dar ouvido às ideias de um homicida. Assim sendo, o socialismo reinante nas mídias e academias tentam condenar o conservadorismo e o liberalismo em montantes ideológicos iguais aos do nazismo. Como se pensar “conservadoramente” ou “liberalmente” fosse um crime per se, assim como é com o pensamento nazista. Desta maneira, a Revolução Cultural Marxista, tenta incutir de forma doutrinadora na mente popular certas formas ideológicas de ethos e práxis, fazendo-nos crer que suas ideias são o arquétipo de bondade e inteligência social. Ou seja, o simples fato de me opor às atitudes e ideias desses grupos marxistas me tornaria um preconceituoso, digno de repulsa e taxações violentas. O simples fato de me opor ao marxismo me torna, automaticamente, um nazista, ou um fascista; sem se darem conta que há muito do marxismo no próprio nazismo.

Nesse pronto, quando a sociedade automaticamente excluir uma posição, encaixando-a no molde pressuposto de: homofobia, islamofobia e etc., ali cessará o debate e todos condenarão o opositor sem que haja o mínimo esforço de ouvi-lo. Alí cessará toda e qualquer forma de democracia. Enquanto a população fizer essas intitulações de maneira automática e compulsiva; alí estará a ditadura velada na qual viveremos, ditadura da qual nos orgulharemos, pois, nela, supostamente seremos livres.

Eles dirão que isto é tolerância, entretanto, nada mais é que uma estratégia muito bem elaborada para calar aqueles que pretendem fazer objeções às ideias alheias. Uma tolerância que constrói um Index de proibição, que exclui o contrário numa espécie de reacionarismo abobado.

Se sou contra o lobby gay, logo, sou homofóbico; se sou contra a imigração desmedida, logo, sou islamofóbico. E por esses caminhos totalitários a sociedade caminha. Resumem toda uma gama de debates sociais, com enormes conhecimentos estruturais, num simples ditar irracional de termos; calam as bocas de estudiosos e homens de letras, pois, eles, simplesmente não seguem os dogmas políticos instituídos.

Fazem tudo isso em nome da grande e aclamada “tolerância”. Pedem a nós, pessoas de mínima sensatez, que engulamos o batizar dos termos que nos são impostos. Em pouco tempo viveremos num mundo com medo de se opor a qualquer tipo de insanidade feita em nome da “tolerância”. As vozes dos poucos corajosos opositores que restarão serão calados por gritos militantes, por programas televisivos vendidos às ideologias reinantes e por uma academia cercada por palacetes partidários.

Os mártires deste século serão marcados no ferrete da ditadura dos lobbys. No futuro, quando estivermos tentando expressar nossas inconformidades, lembraremos que, o que expressaríamos, já está condenado pela jurisprudência comunista como sendo: homofobia, transfobia ou islamofobia. Aí, então, nos calaremos com o medo do ultraje social. Haverá, num futuro muito próximo, o terrível e jamais pensado medo de nos expressar livremente. A fobia, esta sim verdadeira, de nos opormos a qualquer coisa posta pelo comitê dos “corretos” dos “tolerantes”.

No século em que vivemos, nossos filósofos, historiadores e sociólogos, estarão debatendo novelas e revistas de fofocas, estarão chafurdados em suas poltronas discutindo sobre a imoralidade que é afirmar que o pênis e a vagina determinam os sexos das crianças.

No futuro iremos aceitar brutalidades e morticínios, conquanto que tudo isso seja feito em nome de uma informe “tolerância”; conquanto que a TV nos diga que é algo normal, aceitaremos, olhando para nossos órgãos genitais, que não possuímos sexo algum.

O futuro, se nessa entoada continuarmos, será um verdadeiro hospício que consumirá seus próprios teorizadores; assim como Dr. Bacamarte que acabou sendo consumido por suas próprias paranoias, terminando seus dias no lugar onde construíra para aqueles que ele denominava loucos. Se amanhã você ousar dizer que seu filho é homem, dirão que sua loucura é latente; se outro dia, você, sob bombas e assassinatos em massas feitas por islâmicos, ousar pedir uma atitude de refreamento contra as imigrações islâmicas, no mesmo momento você será preso por ser um fascista ou um demente. Você acha que meu profetismo é loucura? Mas “[…]quem nos afirma que o alienado não é o alienista”? [1]

Referência:

[1] ASSIS, Machado de. O alienista, 1ª Ed, Companhia das Letras/Pinguin: São Paulo, 2014, p. 52

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Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

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