A Culpa é só deles?

Por:Instituto Liberal de Minas Gerais
Colunas

30

Aug 2016

A Culpa é só deles?

 

“Político é tudo corrupto”; “Nenhum político se importa com a população”; “Os partidos são todos iguais, só querem o poder para roubar”.

Todo brasileiro já ouviu frases como estas. São clichês que existem desde que se reinstaurou a democracia no país (na verdade, algo se assemelhe a uma democracia, pelo menos). Mas a discussão que quero trazer hoje é “seria justo culpar apenas os profissionais da política por todo o dêbacle que ocorre no atual cenário político-econônico brasileiro?”.

Para começar, obviamente, a baixa escolarização da população brasileira dificulta a tomada de decisões destas pessoas, e entre estas decisões está a decisão sobre em quem votar. Apenas 36% da população brasileira economicamente ativa chega ao Ensino Médio, e mesmo dentre estes, não se pode supor que todos votem com senso de cosciência e responsabilidade nacionais.

Além do fator educação, os brasileiros, de uma forma geral, dão pouca importância às decisões eleitorais que tomam. Afinal, como alguns estudos apontam, poucos sequer se lembram dos nomes que apareceram na urna ao digitarem os números de seus candidatos escolhidos nas últimas eleições, especialmente quando se trata de eleições para cargos no legislativo (em 2014, apenas 44% se lembravam dos votos feitos em 2010).

Essa é uma postura completamente danosa para a democracia, uma vez que é no Congresso e nas Assembléias Legislativas que se tomam a maior parte das decisões relativas às normas vigentes no país, e mesmo as poucas de iniciativa do executivo terão, eventualmente, têm que ser aprovadas pelo legislativo para terem força de lei. Portanto, tratar com displicência uma escolha tão importante só poderia ter consequências nefastas para o futuro do país.

E é esta visão distanciada e descompromissada com a política que nos trouxe ao fenômeno esquizofrênico atual, em que a imensa maioria dos brasileiros está revoltada com os políticos, mas continua elegendo os mesmos representantes a cada quatro anos.

E é exatamente esta falta de alternância de poder, base do regime democrático, que favorece o surgimento de infindáveis esquemas de corrupção, como o Mensalão e o Petrolão. O estado inerte na participação política da população brasileira em relação às eleições permitiu que os profissionais do ramo político se sentissem à vontade para atuar como bem entendessem em favor dos seus próprios interesses, sem que com isso fossem castigados nas urnas.

Além de sequer se lembrar das “escolhas” que já realizou, muitas vezes o eleitor brasileiro, conscientemente, “escolhe não escolher”. Não, não estou falando no voto branco/nulo; isso seria assunto para outro texto. Trata-se da questão “voto de cabresto”. Somos ensinados na escola que isso é apenas um fenômeno da República Velha, período da história brasileira entre 1889 e 1930, mas a verdade é que isso ainda se verifica nos dias de hoje. Além daqueles que são coagidos a votarem em candidatos (e isso é uma mácula imputável exclusivamente aos políticos em questão), existem aqueles que fazem uma escolha baseada em fatores nem um pouco republicanos. São aquelas pessoas para quem o político oferece ajuda em questões pessoais, como reparos nas residência s, burlamentos das filas do SUS, obtenção de vagas em determinadas escolas,  inclusões em programas sociais do governo, etc. E, em troca, esses eleitores simplesmente votam nos candidatos que fazem essa espécie de escambo de votos para continuarem a usufruir destas benesses.

Inicialmente, essas pessoas não seriam tão passíveis de censura: é notório o caos que se instalou em grande parte dos serviços públicos, bem como a pobreza em que se encontra relevante parcela da população. Então, por que não retribuir uma ajuda tão bem-vinda?

No entanto, no longo prazo se percebe que é justamente esse comportamento que nos trouxe ao estado das coisas como estão, um círculo vicioso aparentemente inescapável.

O raciocínio básico seria: qual incentivo teria um político, eleito no sistema acima relatado, para melhorar a qualidade dos serviços públicos, ou a independência do cidadão em relação ao Estado? Muito provavelmente nenhum (ou pouco, pois sempre há um pouco de publicidade potencial em melhorias). Quanto mais precários os serviços e mais dependente deles são os cidadãos, mais os políticos poderão influenciar no processo eleitoral, concedendo favores e, assim, aumentando seu capital eleitoral.

Com base nisso, é utópico esperar que mudanças sociais advenham de uma conscientização generalizada da classe política. O povo não pode se furtar do seu papel transformador nesse momento: deve assumir seu protagonismo no processo eleitoral e escapar de discursos e pensamentos rasos na hora de escolher seu voto.

Se sairmos, ainda que lentamente, da letargia na qual nos encontramos e passarmos a votar com consciência, talvez o quadro de vilipêndio ao patrimônio público que se escancarou na última década deixe de ser a regra para ser a exceção dentro dos governos. Como disse Henry Thoreau, “Dá teu voto inteiro; não uma simples tira de papel, mas toda a tua influência.”

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