As ideias políticas e o coletivismo

As ideias políticas e o coletivismo

As ideologias políticas atuais tendem a se distanciar cada dia mais da realidade, afirmava Eric Voegelin, filósofo, historiador e cientista político alemão radicado nos Estados Unidos. Para compreendermos a gênese das ideias políticas é indispensável conhecermos, ainda que de relance, sua teoria do conhecimento.

Voegelin foi autor de um enorme projeto editorial: História das ideias políticas, editadas no Brasil pela editora É realizações. Após já ter escrito oito volumes desta obra, ele desistiu de continuar as discrições reflexivas das ideias, pois, como descreveu em Reflexões autobiográficas, as ideias políticas eram apenas reflexos longínquos da realidade do cosmos social.

Para o filósofo, antes de ser formada uma ideia política, existe uma estruturação simbólica de onde emana todos os “ingredientes” formadores das ditas ideias: primeiramente há a (1) esfera política, o cosmos onde habitamos e nos formamos. Esta esfera suscita em nós certas apreensões e (2) sentimentos, que nos revelam a estrutura da realidade que nos circunda. Após isso, há as (3) evocações, ou seja, as primeiras expressões organizadas da realidade como um todo — os cosmions. Somente após esse caminho — não necessariamente linear como acima apresentado de maneira resumida — que surgem as primeiras (4) ideias políticas. (VOEGELIN, p. 15-16)

Somente após as evocações — as primeiras expressões da realidade — é que são elaboradas as ideias e princípios gerais sobre a sociedade. As ideologias – militâncias baseadas em doutrinas e regimentos partidários assentados em determinadas ideias políticas – ainda são mais tardias e distantes das primeiras apreensões da realidade. Por isso, para Voegelin, o papel da filosofia política não é a de um historiador das ideias políticas, mas sim a de um restaurador dos símbolos que tornaram possíveis tais ideias. E, a partir disso, compreender as sociedades que sucederam as ideias formuladas.

Cada passo deste processo torna-se um distanciamento da realidade factual primariamente apreendida. Desde o sentimento primário de apreensão da realidade, até as ideologias como militâncias e manuais práticos de uma ideia política, há várias camadas sobrepujando o solo de onde emanam as primeiras apreensões factuais. Cada camada colocada nesse processo de investigação é uma barreira a mais para se chegar aos sentimentos iniciais das primeiras realidades.

No entanto, é interessantíssimo perceber que, ainda que os sentimentos de assimilação do cosmos sejam apreensíveis por muitos numa sociedade, as evocações e os princípios ideários que surgem dessas somente serão válidas quando os indivíduos viverem e crerem particularmente em tais preceitos.

Quando há uma percepção ética, todavia, esta ética apreendida não tange as individualidades dos cidadãos, ela não passa de uma utopia ou ficção.

O que devemos nos atentar é que em todo processo de formulação de uma ideia política, o que realmente faz a diferença é a aceitação e a vivência de seus princípios gerais na vida particular de cada indivíduo. Se eu defendo os princípios conservadores, mas vivo e dou testemunho de uma relatividade social progressista, eu acabo vivendo uma contradição inerente aos meus discursos. Tornando meus princípios amorfos perante as minhas práticas.

A valia das ideias que defendemos deve ter lugar primário em nossos atos particulares. Na lógica das ideias que se tornam políticas sociais temos duas ordens possíveis: (1º) dos indivíduos para o coletivo social; (2º) do coletivo social para os indivíduos. No primeiro molde nós temos uma democracia de indivíduos que clamam ao Estado que oficialize um princípio que já é vivido de maneira familiar ou pessoal. Já no segundo, temos um Estado que nos impõe um princípio reivindicado como importante ou essencial, independentemente das vivências e crenças dos indivíduos. No fim, a diferença se faz na escolha entre democracia e ditadura. São pelos atos dos indivíduos que evidenciamos suas ideias e valores para o coletivo.

É bom lembrar que individualidade não é sinônimo de intimidade, e aqui cabe definir tais conceitos. Individualidade é aquilo que te distingue de alguém, suas características e maneirismos frente à sociedade e outros indivíduos. Não obstante, o indivíduo, ainda que distinto, está numa sociedade e é passível de coletivização (por exemplo, torcidas organizadas e militâncias políticas). Intimidade, por sua vez, trata-se de uma composição relacional que, primariamente, não deve ser afetada por interferências externas às suas vontades — a não ser que inflija leis e princípios sociais. A intimidade é um campo restrito e não político.

Sendo assim, não cabe a ninguém indeferir ou acatar atos das intimidades de outrem, o que estamos dizendo se dirige aos atos particulares que de alguma forma influem na sociedade organizada.

Quando abordamos a vivência pessoal de uma ideia, estamos falando daqueles princípios que você defende e considera como soluções sociais. Propondo-as como remédios necessários. Tudo aquilo que você defende e coloca para a sociedade como princípio necessário deveria ser antes uma constante em suas práticas particulares.

A história das ideias mostra que, nos fundamentos de uma convicção, se sobressai a prática individual de tais princípios. Se um dia alguém não tivesse levado a sério esta coisa que hoje chamamos de família tradicional ou matrimônio, toda a história ocidental estaria ordenada em hordas primitivas e aglomerações lupanares. Se algum empresário não tivesse levado a sério os princípios do processo industrial, talvez ainda estivéssemos nos feudos. Tudo aquilo que classificamos como “princípios políticos” ganham força quando pessoas, de maneira individual, resolvem tirá-las das teses doutorais e vivê-las na realidade.

Do extrato individual dessa vivência compulsória, consequentemente e de maneira educacional e vivencial, tornar-se-á um princípio social pela absorção do que é bom para o coletivo social. O crivo do tempo se encarregará de eliminar os falsos conceitos.

Por isso podemos afirmar que ideias coletivistas não passam de ilusões e projeções pseudopolíticas. Pois, no fim, não tangem a realidade, apenas mascaram em populismos e discursos inflamados aquilo que nos indivíduos não faz o menor sentido factual.

 

Referência:

Cf. VOEGELIN, Eric. História das ideias políticas: Idade média até Tomás de Aquino. É realizações: São Paulo, 2012, p. 16

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