A Amazon resolveu atacar João Dória e se deu mal

Por:Pedro Henrique
Colunas

03

Apr 2017

A Amazon resolveu atacar João Dória e se deu mal

 

Falar de política é o mesmo que caminhar sobre uma corda bamba: um passo em falso basta para você cair. Para quem lida com isso diariamente é um perigo dobrado. Colunistas e analistas políticos convivem com a real chance de dar uma previsão falha, defender o lado errado do debate, ou até mesmo cair no fanatismo político.

Na política isto é uma constante: uma palavra, uma frase, um vídeo que saia de maneira torpe ou infundada, pode ser um verdadeiro revés na vida do político, instituição ou de qualquer um que trabalhe nesse meio. Pois bem, na última semana a Amazon brasileira resolveu criar uma propaganda para o seu aparelho Kindle, e fez isso atacando a política de limpeza da cidade de São Paulo encabeçada pelo prefeito João Dória (PSDB-SP). No entanto, a propaganda acabou se mostrando um fracasso retumbante.

Primeiro porque a cidade de São Paulo está sob uma gestão que vem atraindo aplausos e apreços populares, algo provado por pesquisas recentes. Segundo a colunista do Estadão, Vera Magalhães — que reproduziu o estudo do Instituto Paraná Pesquisas —, a aprovação geral de Dória é de 70%. Entre os jovens a aprovação sobe para 75,4%. Sua gestão vem sendo classificada por 51% da população como sendo “boa ou ótima”. A política de limpeza da cidade de São Paulo, conhecida como “Cidade limpa”, possui o apreço de 80% da população e, quando o assunto é o combate às pichações, a aprovação cresce para 88%. Como colunista político, sinceramente não me recordo de números análogos vindo de administrações de outros gestores.

Quando a Amazon resolveu criticar a política de limpeza de João Dória ela seguiu as vozes de uma minoria barulhenta que, pelos gritos histéricos, organizações militantes e protestos massificados, dão a impressão de ser a maioria. No entanto, a verdadeira matriz popular não era aquela pintada pela minoria esquerdista. A Amazon escolheu a luta errada.

João Dória não é um salvador social, até mesmo porque não há salvadores sociais. Assim como Eric Voegelin, considero que a solução no espectro político não está na via política, mas sim nas vias culturais e educacionais. Todavia, devemos ter a hombridade de reconhecer que os primeiros meses da gestão de João Dória são impressionantes. Seu tratamento gestacional de união de setores privados ao público desperta a curiosidade de qualquer um que há tempos lida com a política nacional tendente ao socialismo.

Como dito na abertura do texto, o terreno político é um constante andar sobre a corda bamba e a Amazon deu o passo em falso e caiu. Ao acessarem o vídeo no Facebook da campanha da empresa, todos poderão perceber a impopularidade da referida publicidade e como ela se tornou motivo de chacota por parte da população paulistana e brasileira em geral. Como se já não fosse ruim a repercussão de maneira debochada da população, o prefeito soltou uma resposta à empresa dizendo que “se gosta tanto de São Paulo porque ela não fazia doações de equipamentos ou livros”, um vídeo recebido com apreço pela população e por empresas do ramo tecnológico e editorial. No mesmo dia, Kabum, Saraiva, Alphagraphics e Multilaser, empresas concorrentes da Amazon, anunciaram que doariam livros e computadores para as escolas públicas.

Ou seja, o marketing crítico da Amazon ajudou a angariar mais popularidade e apreço ao prefeito e sua gestão — além de promover suas concorrentes. Já não bastasse a atabalhoada propaganda da empresa, João Dória lançou, no dia seguinte (29/3), outro vídeo em seu perfil acusando a Amazon de fazer “marketing aproveitador e oportunista”. O vídeo já passa das dezenas de milhares de compartilhamentos e comentários manifestando a admiração popular ao prefeito.

Apenas um dia após o ocorrido, Dória conseguiu sete empresas doadoras: Kabum, Livraria Saraiva, Multilaser, Somos educação, Comic con experience, Empiricus, Alphagraphics, além da própria Amazon, que depois da provocação de Dória resolveu doar Kindles e livros para a rede pública de educação. Essa publicidade reversa promovida pela Amazon, poderia ser estudada por pesquisadores da área de marketing para que eles saibam com profundeza como a campanha acabou sendo um verdadeiro tiro no pé. A Kabum, através do vídeo divulgado por Dória, afirmou que somente no dia 29 de março recebeu 90% a mais de ligações em seu call center e, algumas delas, da população agradecendo as doações.

Um caso semelhante a esse na história do Brasil é, pelo menos por mim, desconhecido. Desde as doações em massas de empresas privadas, até os agradecimentos feitos pela população para as empresas doadoras. Isso se trata da população agradecendo o setor privado por suas doações em um país tomado pelo discurso socialista.

A verdade é que muitas variáveis contam para o sucesso de Dória, mas a principal delas é sua visão tendente a um liberalismo econômico — como ele mesmo afirmou no programa Roda Viva da TV Cultura —, apesar de, em outras oportunidades, afirmar ser também social democrata. Uma contradição, já que suas atitudes são de abertura ao mercado, o que causa, em um momento de estagnação econômica do país, uma confiança geral do empresariado. No momento em que a direita liberal vem crescendo exponencialmente no Brasil, uma gestão que dá espaço para o livre mercado respirar é algo recebido com louvores.

A impressão é que tudo o que ataca Dória começa a ser mal visto pela população paulista e nacional. Aquilo que se levanta contra o tucano é visto como sendo algo contra a população. E na linha de defesa do gestor está à frente o forte Movimento Brasil Livre (MBL), movimentos de direita organizados no Facebook e o próprio setor privado.

O populismo é consequência majoritariamente de dois fatores: retóricas baratas e psicologia de massa e apreço popular e trabalho bem feito. O primeiro é recorrente e quase que banal em nossa política de afeição ao bolivarianismo e o segundo praticamente não mais aparece em território nacional. João Dória parece surgir como pertencente ao segundo caso. Guardo a prudência de um analista político que não adota políticos como sendo a solução em pessoa, mas também não nego os fatos.

The following two tabs change content below.

Pedro Henrique

Colunista do Instituto Liberal de Minas Gerais, filósofo, crítico social e palestrante. Estudioso de filosofia política com ênfase em política conservadora. Mantém o blog http://medium.com/do-contra Contato: filosofo.pedro.henrique@gmail.com

Latest posts by Pedro Henrique (see all)


Comente com o Facebook

Compartilhe:

contato@ilmg.org.br